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METABOLISMO URBANO: CAMINHOS PARA AS CIDADES DO FUTURO

Público Online

2026-02-27 22:09:04

Portugal precisa de cidades que respirem e se reinventem. Mobilidade, habitação e energia convergem para tornar os centros urbanos mais inteligentes, humanos e resistentes a fenómenos extremos. É nas cidades, palco de grandes transformações sociais, que se jogam os principais desafios do futuro. As Nações Unidas estimam que 68% da população mundial viva em áreas urbanas até 2050. Actualmente existem cerca de 33 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes, número que poderá chegar a 43 até 2030. Portugal pode nunca atingir a escala das megacidades, mas enfrenta os mesmos desafios: fragmentação do território, pressão sobre a habitação, mobilidade ineficiente e crescente vulnerabilidade climática. Que caminho estamos a traçar para os centros urbanos portugueses? É urgente pensar em cidades mais inclusivas, sustentáveis e inovadoras. Os desafios são complexos, mas existem diversas soluções que foram apresentadas na conferência “Urbe: que caminhos para Portugal?”, realizada no dia 12 de Fevereiro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Na abertura foi colocada a pergunta: “Que cidades queremos em 2036?” Paulo Simões, secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Oeste, acredita que é necessário intervir de forma estrutural para minimizar impactos como os mais recentes fenómenos climáticos que “puseram a descoberto grandes fragilidades” dos centros urbanos em Portugal. Para o representante do projecto Smart Region, o futuro das cidades depende de decisões sustentadas em informação concreta. “É necessário responder a estas megatendências com governação antecipatória, respondendo aos problemas públicos de hoje e amanhã, o que só conseguimos com dados, informação e conhecimento.” Paulo Simões destacou ainda que a perspectiva é decisiva: “Temos de encarar os dados não como um custo, mas como investimento”, sublinhando que só assim é possível apoiar a gestão diária dos territórios e desenhar políticas públicas de longo prazo. Mobilidade e acessibilidade: tecnologia ao serviço da vida urbana A mobilidade foi outro dos temas centrais. Ana Almeida Simões, Executive Board Member da Via Verde, sublinhou o papel da integração digital na transformação da experiência urbana: “A mobilidade tem de ser simples, intuitiva e centrada nas pessoas. A tecnologia existe, mas o que faz a diferença é a forma como a colocamos ao serviço do cidadão.” Para a responsável, o futuro passa por sistemas invisíveis e integrados: “A melhor aplicação é aquela que não precisamos de abrir. O futuro passará por essa integração invisível: tecnologia que simplifica e não complica.” Já Marcus Torres, Country Manager da ChargeGuru, apontou para a rápida evolução do ecossistema automóvel e energético, em que os veículos eléctricos ganham cada vez mais expansão: “O automóvel está a deixar de ser apenas um meio de transporte entre dois pontos. Está cada vez mais integrado na rotina digital das pessoas, sincronizado com a agenda, com a casa e com o carregamento.” Para o especialista, esta convergência entre mobilidade sustentável, energia e digitalização abre novas possibilidades para cidades mais eficientes e mais adaptadas às necessidades quotidianas. Jorge Pinho de Sousa, presidente da Associação ITS Portugal, lembrou que a mobilidade deve ser “um instrumento para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e não um fim em si mesmo”, defendendo soluções integradas e centradas nas pessoas como os modelos de transporte a pedido, que permitem que veículos sejam requisitados conforme a necessidade dos utilizadores, em vez de seguirem horários fixos. Para o responsável, a tecnologia só faz sentido se contribuir para reduzir desigualdades no acesso à cidade e tornar os sistemas de transporte mais simples, mais eficientes e mais justos. A reflexão sobre mobilidade conduziu inevitavelmente ao tema da acessibilidade urbana. Nuno F. da Cruz, investigador da Universidade de Aveiro, sublinhou que este é “o principal bem urbano”, lembrando que o problema da habitação não é apenas quantitativo, mas estrutural. “Em Portugal, a habitação social ronda os 2%. Em Lisboa está perto dos 9% e no Porto cerca de 10% ou 11%. Quando comparamos com cidades como Amesterdão, Viena ou Roterdão, que têm entre 40% e 50% de habitação pública ou acessível, percebemos a dimensão do desequilíbrio”, afirmou, defendendo políticas que integrem o uso do solo, transportes e densidade urbana. A conferência "Urbe: que caminho para Portugal?" realizou-se no Centro Cultural de Belém perante uma audiência diversificada. Num painel que pretendia fazer a análise das cidades portuguesas (quando comparadas com cidades europeias), a mobilidade foi um dos temas mais discutidos, graças às perspectivas de Ana Almeida Simões, executive board member da Via Verde; Marcus Torres, country manager da ChargeGuru, Jorge Pinho de Sousa, Presidente da Associação ITS Portugal; e Nuno F. da Cruz, investigador da Universidade de Aveiro. O painel dedicado ao papel da Energia enquanto motor social contou com a presença de Carla Tavares, Head of Renewables & Commercial Innovation Center da Galp, bem como de Ana Rita Antunes, coordenadora executiva da Coopérnico. Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, apresentou o case study de Alverca, um modelo da "Cidade de 15 Minutos". Aleks Arkin? Durante a conferência discutiu-se também o papel da Cultura nas cidades, através das perspectivas do arquitecto e curador Pedro Gadanho, e de Rute Moura, directora do Departamento de Cultura de Almada. Fotogaleria A conferência "Urbe: que caminho para Portugal?" realizou-se no Centro Cultural de Belém perante uma audiência diversificada. Cidade dos 15 minutos: ligar as peças do território A resposta aos problemas de mobilidade foi ilustrada pelo caso de Alverca, apresentado por Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, através do conceito de Carlos Moreno da “cidade dos 15 minutos”, em que todos os serviços essenciais ficam a este tempo a pé ou de bicicleta de cada cidadão. A estratégia passa por “ligar as peças do puzzle” com foco na regeneração urbana e na criação de bairros mais humanos e auto-suficientes, criando percursos pedonais e cicláveis, reconvertendo antigas zonas industriais em áreas também habitacionais, com comércio e serviços, e transformando estradas nacionais em avenidas urbanas. Na sua intervenção, Fernando Paulo Ferreira destacou ainda que esta transformação exige tempo, continuidade política e envolvimento das comunidades locais. “Não estamos a falar apenas do desenho urbano, mas de mudar a forma como as pessoas vivem o território no dia-a-dia”, afirmou, sublinhando que projectos desta natureza implicam uma visão integrada entre mobilidade, habitação, serviços e espaço público, para garantir cidades mais próximas, mais funcionais e mais humanas. Energia e clima: da mitigação à adaptação Na transição energética, Carla Tavares, Head of Renewables & Commercial Innovation Center na Galp, defendeu uma mudança de paradigma nas cidades: de consumidores passivos para prosumers. Modelos de produção e partilha local de energia, associados ao autoconsumo colectivo, surgem como instrumentos centrais, apoiados por projectos-piloto e living labs que permitem testar novas soluções em contexto real. A responsável sublinhou ainda que estes modelos contribuem para reforçar a autonomia energética dos territórios e para aproximar os cidadãos das decisões sobre produção e consumo de energia. Também a participação cidadã foi valorizada. Ana Rita Antunes, Coordenadora Executiva da Coopérnico, uma cooperativa de energias que promove o envolvimento dos cidadãos na criação de um novo paradigma social, económico e ambiental, salientou que “existe muito interesse por parte das comunidades, mas os processos continuam complexos e demorados”. Para a responsável, é essencial simplificar procedimentos e reforçar a literacia energética para que mais bairros e territórios possam lançar mais comunidades de energia. Novos metabolismos nas cidades Na adaptação às alterações climáticas, Guimarães surgiu como um caso de referência. O município elaborou um plano de adaptação já em 2016, foi seleccionado como uma das 100 cidades climaticamente neutras até 2030 e conquistou o título de Capital Verde Europeia 2026. Entre as iniciativas contam-se eco freguesias, eco escolas, brigadas verdes e comunidades de energia. Como sublinhou Alberto Martins, vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Guimarães, a adaptação climática exige uma transformação concreta do espaço público, integrando soluções baseadas na natureza, sistemas de drenagem sustentável e infra-estruturas verdes capazes de reduzir ilhas de calor, aumentar a permeabilidade do solo e minimizar o risco de cheias. Para o autarca, esta abordagem deve articular planeamento urbano, investimento municipal e envolvimento da comunidade, garantindo uma cidade mais preparada para fenómenos extremos e mais segura para os cidadãos. Foto Num evento em que os efeitos das recentes depressões meteorológicas ditaram muito do que foi dito, mas também condicionaram a participação de vários especialistas, o painel dedicado ao novo Metabolismo Urbano contou com a presença de Filipa Pantaleão, Secretária-Geral da BCSD; Catarina Selada, responsável de policy no CEiiA; e Alberto Martins, vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Guimarães (remotamente). No painel “O novo metabolismo urbano: como adaptamos as cidades portuguesas para enfrentar o que aí vem?”, Filipa Pantaleão, Secretária-Geral do BCSD, começou por sublinhar que a urgência climática deixou de ser apenas uma questão reputacional para passar a ser um risco estrutural para as empresas. “O risco climático é hoje um risco físico, com impacto directo nas operações e nas cadeias de valor”, afirmou, defendendo que a adaptação das cidades exige investimento, planeamento e novas redes de colaboração entre sector privado, poder público e sociedade civil. Para a responsável, a reconstrução e a resiliência terão necessariamente de ser pensadas de forma articulada e com visão de longo prazo. A articulação entre inovação e território foi exemplificada por Catarina Selada, Responsável de Policy no CEiiA, que referiu os chamados jardins verticais como uma solução concreta de adaptação urbana. Mais do que elementos decorativos, trata-se de fachadas verdes com sensores integrados, capazes de medir o sequestro de carbono em tempo real e gerar dados úteis para o planeamento sustentável. “Não são apenas fachadas verdes; são infra-estruturas vivas que quantificam impacto e envolvem a comunidade”, destacou, defendendo uma cidade onde tecnologia, natureza e participação cidadã se reforçam mutuamente. Cultura e identidade urbana No painel dedicado à cultura e identidade urbana, o arquitecto e curador Pedro Gadanho alertou para os riscos da homogeneização das cidades: “A padronização é um problema, porque força à perda de dimensões que fazem parte da nossa identidade.” Já Rute Moura, directora do Departamento de Cultura de Almada, sublinhou a importância do tecido cultural local: “Almada ainda consegue manter essa identidade de bairro. O desafio é deixarmo-nos influenciar positivamente por aquilo que vem de fora sem deixarmos de ser Almada.” A conferência terminou com a intervenção de Alexandra Saraiva, curadora da exposição Habitar Portugal, a decorrer no CCB, que recordou que as cidades são processos contínuos e colectivos. Inspirando-se em Jane Jacobs e Renzo Piano, afirmou que a transformação urbana exige “experimentação corajosa e colaborativa”, colocando a habitabilidade e o bem-estar no centro das decisões. Ao longo do encontro, ficou clara uma ideia transversal: mobilidade, habitação, energia, cultura e adaptação climática não podem ser tratadas isoladamente. Exigem uma governação antecipatória e integrada, baseada em dados, com visão de longo prazo e envolvimento das comunidades. Porque cada rua, cada praça e cada bairro é um teste à nossa capacidade de criar cidades mais humanas, justas e preparadas para o futuro. Este conteúdo está inserido no projecto "Urbe: que caminho para Portugal?", que inclui ainda uma webseries documental, case studies de empresas nacionais e uma conferência dedicada ao tema do futuro das cidades em Portugal Saiba mais aqui. Conteúdo comercial A conferência "Urbe: que caminho para Portugal?" realizou-se no Centro Cultural de Belém perante uma audiência diversificada. Num painel que pretendia fazer a análise das cidades portuguesas (quando comparadas com cidades europeias), a mobilidade foi um dos temas mais discutidos, graças às perspectivas de Ana Almeida Simões, executive board member da Via Verde; Marcus Torres, country manager da ChargeGuru, Jorge Pinho de Sousa, Presidente da Associação ITS Portugal; e Nuno F. da Cruz, investigador da Universidade de Aveiro. O painel dedicado ao papel da Energia enquanto motor social contou com a presença de Carla Tavares, Head of Renewables & Commercial Innovation Center da Galp, bem como de Ana Rita Antunes, coordenadora executiva da Coopérnico. Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, apresentou o case study de Alverca, um modelo da "Cidade de 15 Minutos". Aleks Arkin? Durante a conferência discutiu-se também o papel da Cultura nas cidades, através das perspectivas do arquitecto e curador Pedro Gadanho, e de Rute Moura, directora do Departamento de Cultura de Almada. A conferência "Urbe: que caminho para Portugal?" realizou-se no Centro Cultural de Belém perante uma audiência diversificada. Num evento em que os efeitos das recentes depressões meteorológicas ditaram muito do que foi dito, mas também condicionaram a participação de vários especialistas, o painel dedicado ao novo Metabolismo Urbano contou com a presença de Filipa Pantaleão, Secretária-Geral da BCSD; Catarina Selada, responsável de policy no CEiiA; e Alberto Martins, vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Guimarães (remotamente).