EUA E ISRAEL GARANTEM QUE MATARAM LÍDER DO IRÃO E INCENDEIAM MÉDIO ORIENTE
2026-03-01 06:00:06

EUA e Israel matam líder supremo do Irão num conflito que se alastra Ataques sob a alegação de que iranianos planeavam desenvolver armas nucleares criam incerteza sobre futuro da República Islâmica, com Trump e Netanyahu a apelarem à revolta popular Bombardeamentos causam centenas de mortos, tendo Teerão respondido com mísseis e drones. Países do Golfo alarmados com vários incidentes gabriel.hansen@jn.pt MeDIO ORIENTE O líder supremo iraniano, o aiatola Ali Khamenei, morreu durante os ataques israelitas e norte-americanos contra o Irão, na manhã de ontem. A informação, sugerida pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi confirmada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A operação militar conjunta ocorreu em pleno processo de negociação sobre o programa nuclear iraniano, com OS Estados Unidos e Israel a criarem um clima de incerteza ôno Médio Oriente, que testemunhou uma vaga de retaliação POI parte de Teerão. "Khamenei, uma das pessoas mais perversas da história, está morto”, escreveu Trump. “Isto não é apenas justiça para o povo do Irão, mas para todos os grandes americanos e para aqueles de muitos países do Mundo que foram mortos ou mutilados POr Khamenei e o seu gangue de bandidos sedentos de sangue”, acrescentou. “Não conseguiu escapar à nossa inteligência e aos nossos sofisticados sistemas de rastreio e, trabalhando em estreita colaboração com Israel, não havia nada que ele, ou os outros líderes que foram mortos juntamente com ele, pudessem fazer”, declarou. As Forças de Israel confirmaram ainda as mortes de Ali Shamkhani, conse-lheiro de Khamenei para assuntos de segurança, Mohammad Pakpour, comandante da Guarda Revolucionária, e Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa. Trump, que nunca escondeu o desejo de uma mudança de regime, instou aos membros da Guarda Revolucionária e da Polícia a juntarem-se aos revoltosos para fazer cair a República Islâmica. “os bombardeamentos pesados e precisos, contudo, continuarão ininterruptos durante toda a semana ou pelo tempo que for necessário para alcançarmos o nosso objetivo de paz em todo o Médio Oriente e, de facto, no Mundo”, ameaçou. REAçãO NAS RUAS E MORTES EM ESCOLA Antes mesmo da confirmação pelo presidente dos EUA, a Agência France-Presse reportou celebrações em Teerão após a sugestão feita pelo primeiro-ministro israelita de que havia “muitos sinais” de que Khamenei não tinha sobrevivido. Benjamin Netanyahu apelou ao povo iraniano para “inundar as ruas e terminar o serviço”. o movimento na capital iraniana ocorreu apesar de as agências Tasnim e Mehr noticiarem que o líder supremo estava “firme e inabalável no comando da situação”. A operação militar resultou em pelo meônos 201 mortes ôno Irão e 747 feridos, segundo um balanço do Crescente Verme-lho, que registou casos em 24 das 31 províncias iranianas. Entre as vítimas mortais estão 85 pessoas numa escola feminina em Minab, óno Sul, de acordo com o site judiciário Mizan Online = num caso classificado pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, como um “ato bárbaro”. As autoridades iranianas fecharam o estreito de Ormuz, vital para o transporte de petróleo do Golfo. A resposta com drones e mísseis, ao longo do dia, atingiu bases americanas e infraestruturas civis em oito países. Em Israel, pelo menos uma mulher morreu. Outras 20 pessoas ficaram feridas. Nos Emirados arabes, um civil paquistanês morreu em Abu Dhabi, devido à queda de destroços. Um dos terminais do aeroporto internacional do Dubai teve danos ligeiros, enquanto uma explosão na ilha artificial The Palm, um empreendimento de luxo, deixou quatro feridos. No Kuwait, 12 pessoas ficaram feridas ónos ataques que atingiram áreas residenciais e o aeroporto. No Bahrein, edificios residenciais em Manama foram afetados. Não há registo de americanos mortos ou feridos. Parte dos países europeus reagiu aos ataques, tanto aos israelo-americanos quanto aos iranianos, com pedidos de respeito pelo Direito Internacional. a hora de fecho desta edição, decorria uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. O possível sucessor 0 3 Reza Pahlavi Idade: 65 anos País: Estados Unidos Cargo: Filho mais velho do último xá do Irão Herdeiro do trono persa e líder da oposição Filho mais velho do último xá (rei, em persa) do Irão = Reza Pahlavi foi deposto em I979, aquando da Revolução Ianiana = vive no exílio, nos Estados Unidos, há quase 50 anos. O principe herdeiro do trono manifestou recentemente, numa conferência de imprensa em Washington, a vontade de liderar o pais que o pai, Mohammad Reza Pahlavi, governou, e antecipou mesmo a queda da República Islâmica. Reza Pahlavi tinha apenas sete anos quando foi nomeado principe herdeiro, na sequência da coroação do seu pai, em 1967, e tudo indicava que esse seria o seu desígnio, atropelado pela Revolução Iraniana, em I979, que resultou da repressão política, desigualdades sociais e resistência dos religiosos à influência do Ocidente. Um ano antes, Reza Pahlavi filho deixou o Irão e foi acolhido nos Estados Unidos, onde permanece no exilio, estando impedido de regressar ao país. Recebeu treino como piloto de caças na Base Aérea de Reese, no Texas, e formou-se em Ciência Política, na Universidade do Sul da Califórnia.com a morte do pai, em 1980, Reza herdou o título de xá, e foi-se afirmado como uma das vozes de oposição ao regime teocrático dos aiatolas, tendo apelado à resistência não violenta. Ganhou visibilidade com os recentes protestos no Irão, que o regime reprimiu com um saldo de milhares de mortos. “Comprometo-me a ser o líder da transição” para um “processo democrático e transparente”, afirmou em meados de fevereiro em Munique. Reza Pahlavi descreveu ontem como “intervenção humanitária” a ofensiva norte-americana e israelita contra o Irão e apelou aos iranianos para que derrubem o regime. “A ajuda que o presidente dos Estados Unidos tinha prometido ao corajoso povo do Irão já chegou”, disse Pahlavi em mensagem divulgada nas redes sociais. “Trata-se de uma intervenção humanitária e o objetivo é a República Islâmica, o seu aparelho de repressão e a sua maquinaria de morte, não o pais e a grande nação do Irão”, afirmou. SILVIA GONÇAVES ENTREVISTA Discurso de Trump sobre Irão poderia “ser usado para a Gronelândia” Pedro Ponte e Sousa Professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense Luís Pedro Carvalho luis.p.carvalho@jn.pt Especialista considera que será dificil que o ataque de ontem derrube o regime iraniano, mesmo com a confirmação da morte de Khamenei, e mostra-se preocupado com o discurso de Trump que, com pequenos ajustes, poderia ser usado para justificar a invasão da Gronelândia. O que terá precipitado o ataque? Uma das possibilidades é as negociações não estarem a produzir avanços. E, de facto, tendo em conta a posição maximalista dos EUA de querer o fim do programa nuclear sem dar nada em troca, torna-se muito difiícil o processo negocial. A segunda possibilidade, e que ontem parece ter vindo à luz do dia, é a de que negociar foi uma cortina de fumo perante aquilo que verdadeiramente estava em causa, que era ganhar tempo para a ação militar. Acredita numa mudança de regime? Não acredito. Implicaria que retirar ou eliminar o líder, se quisermos, de forma muito simples, produziria uma mudança de regime. Isso não é verdade. ê muito rara a circunstância em que uma intervenção externa produz uma mudança de regime. Como na Venezuela... Sim. Tivemos uma figura que, pelos vistos, é bastante mais amigável para com os interesses norte-americanos. Como o caso da Venezuela Onos demonstra até àexaustão, Trump não tem interesse absolutamente nenhum em democracias Ataque poderá ter motivações internas dos EUA, em ano de intercalares e de baixa popularidade? ê verdade para Trump, mas também para Netanyahu, que também tem eleições este ano, que também está em situação muitíssimo dificil e que há décadas usa o papão do Irão. Estou é muito preocupado com aquele discurso de oito minutos do Trump, que pode perfeitamente, com ajustes, ser usado para a Gronelândia. Não é um promotor do terrorismo, é uma reserva estratégica de recursos, ou de acesso fundamental, ou de disputa com a China, ou de uma coisa qualquer. Trump: um ano de guerra e ameaças a amigos e inimigos dos EUA Presidente era crítico de ações no estrangeiro e chegou a desdenhar o intervencionismo americano, mas o discurso mudou em pouco tempo VENEZUELA Derrubar o poder numa noite O clima de tensão entre a Venezuela e OS EUA foi subindo de tom durante o primeiro ano de mandato do presidente norte-americano, com trocas de bocas e acusações entre Trump e Nicolás Maduro. Ambos chegaram a falar, mas de nada valeu. A 3 de janeiro, forças especiais entraram num complexo militar em Caracas e detiveram o líder venezuelano e a mulher, Cília Flores, na Operação Resolução Absoluta. Foi o primeiro exemplo prático da nova “Doutrina Donroe”, plasmada na Estratégia de Segurança Nacional, com o objetivo de restaurar a preeminência dos EUA no hemisfério e negar a potências externas (China, Rússia e Irão) a capacidade de posicionar forças, controlar ativos estratégicos ou exercer influência. No caso venezuelano, OS EUA assumiram o controlo do petróleo do país e passaram a conviver de forma cordial com a nova chefe de Estado interina e vice de Maduro, Delcy Rodríguez. “o nosso objetivo é ter países à nossa volta que sejam viáveis e bem sucedidos e onde o petróleo possa sair livremente”, afirmou Donald Trump UCRÂNIA Paz a qualquer custo A intervenção de Trumpna Ucrânia estará menos relacionada com segurança e mais com perspetivas de negócio e a glória de cumprir, com um longo atraso, a promessa de campanha: acabar com a guerra em 24 horas. De reunião em reunião, há constantes anúncios de progressos nas negociações e um novo prazo para conseguir que as armas se calem. Só a cedência, principalmente territorial, às pretensões russas tem impedido que os ucranianos acedam aos desejos da Casa Branca de uma paz em que vão poder colocar empresas norte-americanas a investir na reconstrução do país e na exploração de minerais críticos. GRONELâNDIA o vasto interesse pelo ârtico A decisão de Trump de tomar controlo da Gronelândia (território sob a jurisdição da Dinamarca) tem conhecido vários avanços e recuos e, durante algum tempo, temeu-se que a teimosia dos EUA pudesse degenerar num conflito armado. O Mundo ocidental opôs-se em peso e a sede de Washington parece ter acalmado. Mas o interesse norte-americano na Gronelândiar é mais vasto e engloba todoo ârtico, região que é cada vez mais fulcral em termos energéticos e de segurança. Se juntarmos a isto o interesse da China e da Rússia POr aquela parte do globo, está desenhada a tempestade perfeita. Moscovo já controla uma parte significativa daquela massa gelada e a China recebeu uma espécie de salvo-conduto de Putin para explorar recursos e controlar rotas estratégicas. os EUA não querem, POr isso, perder influência numa região que, num futuro próximo, pode ser decisiva, pelas reservas de gas, petróleo e pela enorme quantidade de metais raros, essenciais para alimentar alguns setores de atividade ligados ao mundo tecnológico. CUBA Dar a estocada que falta “Não têm dinheiro. Não têm nada neste momento, mas estão a falar connosco e talvez venhamos a ter uma tomada de controlo amigável de Cuba”, afirmou, há dias, Donald Trump, reagindo a um incidente que ocorrera pouco tempo antes em águas territoriais cubanas. A atual situação em que está mergulhado o país (enfrenta uma grave crise energética desde que, após a queda de Nicolás Maduro, a Venezuela deixou de entregar petróleo) pode ser aproveitada para dar o golpe fatal num país que há décadas vive manietado pelos efeitos do bloqueio económico importo pelos EUA. A estocada final ôno regime herdeiro de Fidel pode estar para breve. SOLTAS Sete aviões norte-americanos levantaram voo da Base das Lajes AçORES Dos 15 reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea dos EUA há mais de uma semana estacionados na Base das Lajes, cinco levantaram voo ontem, segundo constatou a Lusa. Minutos depois, partiu um P-8 Poseidon, aeronave da Marinha dos EUA projetada para a guerra antissubmarino, que tinha chegado às Lajes na sexta-feira à noite. Logo de seguida descolou um c-130, usado no transporte de tropas e cargas, mas que circulou junto à ilha Terceira e regressou. Companhias cancelam voos com fecho de espaços aéreos AVIAçâO o encerramento dos espaços aéreos de vários paises do Médio Oriente resultou no cancelamento de diversos vOOS. Lufthansa, Air France, Iberia, KLMe e WiZzAir anunciaram a suspensão de voos para Israel, Emirados ârabes Unidos, Líbano e Omã. A Emirates suspendeu temporariamente as suas operações de e para o Dubai, bem como a Qatar Airways, em Doha. Israel fecha passagem de Rafah após ataques ao Irão GAZA Israel fechou a passagem de Rafah, na Faixa de Gaza, com o Egito, como medida de segurança após ter lançado o ataque contra o Irão, informou a agência israelita responsável pelos assuntos civis nos territórios palestinianos. A única via de acesso dos habitantes de Gaza ao exterior que não passa POr Israel tinha sido reaberta à circulação de pessoas ôno dia 2 de fevereiro, após quase dois anos. MNE recomenda a lusos que fiquem em casa e ouçam autoridades locais AVISO o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) recomendou aos portugueses que estão no Médio Oriente que cumpram as recomendações das autoridades locais, fiquem em casa, e, em caso de emergência, contactem as embaixadas ou consulados. Um porta-voz da diplomacia assegurou à Lusa que o ministro Paulo Rangel e o Gabinete de Emergência Consular estão a contactar todos os embaixadores na região. Donald Trump diz que aiatola Ali Khamenei está entre as mais de 200 vítimas do ataque. Teerão retalia contra países vizinhos e faz alastrar conflito a toda a região P. 4 a 1. Escola em Minab foi atingida por ataques, deixando 85 mortos 2. Pessoas contra o regime dos aiatolas numa marcha em Berlim, Alemanha 3. Telavive, em Israel, foi alvo de um míssil iraniano na noite de ontem Perfil Ali Khamenei . Idade: 86 anos País: Irão Cargo: Aiatola O religioso que governava na sombra Ali Khamenei ascendeu a líder supremo do Irão em 1989, uma década após a revolução iraniana, assumindo as rédeas de um regime teocrático marcado pela repressão, enfraquecido nos últimos anos pela forte contestação social que o aiatola vai esmagando com detenções massivas e que resultou já em milhares de mortos. Há 37 anos que Ali Khamenei geria os destinos do Irão, enquanto líder supremo, acumulando os títulos de chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas, que integra a Guarda Revolucionaria, cabendo-lhe a última decisão sobre assuntos estratégicos da nação. Sucumbiu ontem à guerra aberta com Israel, que já havia subtraído várias figuras-chave da República islâmica. No passado, uma tentativa de assassinato deixou-lhe um braço paralisado. Nasceu em Mashhad, uma das cidades sagradas do Irão, em I939, sendo desde cedo um frequentador de madrassas, fervor que se traduziu numa aptidão para os estudos religiosos xiitas num tempo marcado pelo domínio do xá Reza Pahlavi e pela repressão do Clero, o que veio a potenciar a revolução que mudou o rumo do país. Ali Khamnei participou, de resto, nos movimentos contra o regime do xá, ao lado de figuras como Ruhollah Khomeini, que em I979 se tornou no líder da Revolução Islâmica e primeiro líder supremo do Irão. Antes de ascender a líder supremo, Ali Khamenei foi presidente do país entre I98I e 1989 - período marcado pela guerra contra o Iraque liderado POr Saddam Hussein. SILVIA GONÇALVES @ Reações “A ação militar está a alastrar rapidamente à região, criando uma situação cada vez mais volátil e imprevisível e aumentando o risco de erros de cálculo” António Guterres Secretário-geral da ONU “Portugal apela a todos à maxima contenção para evitar uma escalada, preservar a paz e a segurança internacionais e garantir a estabilidade regional, em linha com a Carta da ONU” Luís Montenegro Primeiro-ministro “Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem” Donald Trump Presidente dos EUA “Esta operação decisiva continuará enquanto for necessário, e devemos ser pacientes. Nos próximos dias, vamos atacar milhares de alvos do regime terrorista” Benjamin Netanyahu Primeiro-ministro de Israel Captura de Maduro foi a ação mais surpreendente dos EUA Gabriel Hansen