NINGUÉM QUER ELÉTRICOS DE LUXO MAS A FERRARI PODE MUDAR ISSO
2026-03-01 22:06:03

O primeiro Ferrari elétrico de sempre não tem um motor V12, mas tem sabor a Apple para convencer. Será suficiente? Não sou contra elétricos, não acho que um Ferrari elétrico seja uma heresia e não, não acho que “Enzo Ferrari esteja às voltas no túmulo”. Perdoem-me este preâmbulo, mas tenho esperança que os guerreiros do teclado tenham chegado tão longe neste artigo, antes de tecerem algum comentário. Agora sim, a minha opinião. O anúncio do nome e do interior do primeiro Ferrari 100% elétrico aconteceu longe de Maranello. Chama-se Luce e a apresentação decorreu em São Francisco, no coração da Califórnia, num contexto que remete diretamente para o universo onde se moldou a cultura tecnológica contemporânea. Não foi um acaso e teve um propósito. Às portas de entrar na sua primeira aventura 100% elétrica, a Ferrari pretende oferecer um produto que desperte desejo, mesmo não estando equipado com um V12. Uma jornada que se tem provado difícil para os que vendem carros de sonho. Não é opinião, é um facto. Muitas ideias para poucos clientes Já são vários os construtores de desportivos e supercarros, que se propuseram a percorrer este caminho. Desde a Porsche à Rimac, encontramos projetos de elétricos adiados ou encerrados, vendas aquém das expectativas e contas de muitos milhões para pagar, com pouco dinheiro a entrar. Mais recentemente, a Lamborghini anunciou que o seu SUV 100% elétrico foi cancelado. Uma decisão justificada por um interesse que a marca diz ser de “quase zero” dos clientes. A Alfa Romeo, desistiu da ideia de oferecer uma versão elétrica do 33 Stradale, porque apenas um cliente tinha demonstrado interesse. Já a versão a combustão do modelo de 1,7 milhões de euros e limitado a 33 unidades, esgotou e ainda ficaram 20 clientes de fora, que não conseguiram uma alocação. A própria Ferrari, no dia em que apresentou os seus planos de eletrificação, decidiu avançar só com um modelo e não dois, como estava inicialmente previsto. Um dia que não acabou da melhor forma, com os acionistas a mostrarem um cartão vermelho a um anúncio feito “com o pé atrás”. Talvez tenha sido um momento mal interpretado e a reação tenha sido exagerada. Até porque o primeiro resultado desta empreitada deixou muitos de queixo caído, mesmo os mais cépticos. Mas para gerar um tão necessário “efeito wow”, a Ferrari teve de pedir apoio fora de Itália e ainda bem que o fez. Os melhores dos melhores Para pensar e desenhar tanto o interior como o interface a Ferrari escolheu a LoveFrom, o estúdio criativo fundado por Sir Jony Ive e Marc Newson. Ive não é um nome qualquer nesta equação, foi o Diretor de Design da Apple durante mais de duas décadas, até 2019, tendo liderado o desenvolvimento de alguns dos objetos mais influentes do nosso tempo, desde o iMac, Macbook Air (o portátil mais vendido do mundo), o Apple Watch e claro, o iPhone (atualmente, o smarphone mais vendido do mundo). Numa altura em que a maioria dos construtores transformaram o interior dos seus carros em extensões de smartphones, o primeiro Ferrari elétrico segue um caminho deliberadamente diferente. © Ferrari Sim, há ecrãs, mas não dominam a experiência. Aliás, em entrevista à Autocar, à margem do evento, Sir Jony Ive disse mesmo que os ecrãs têm estragado a experiência de condução. Por isso, há controlos físicos com uma função clara, botões verdadeiramente mecânicos que prometem oferecer uma resistência natural, ponteiros analógicos e até o luxo da frieza do alumínio. Foi isto que a equipa de design da Ferrari, liderada por Flavio Manzoni, desenvolveu em colaboração com este estúdio externo nos últimos cinco anos, sem que ninguém suspeitasse. Foi-se embora o motor V12 e prometem-nos uma experiência que promete ser mecânica, sensorial, acompanhada por quatro motores elétricos. Contraditório? Talvez. Impossível? Não me parece, afinal estamos a falar da Ferrari. Quem acha que este nome não tem peso, mesmo quando está gravado num carro elétrico, já não está a discutir sobre automóveis e está apenas a ser fundamentalista. O painel de instrumentos do Ferrari Luce recorre a ecrãs OLED em camadas, com profundidade visual, mas integra também ponteiros físicos reais. Tudo para dar outro brilho ao interior, que não seja apenas o brilho de ecrãs OLED, porque para isso já nos bastam os smartphones. É aquilo que a Porsche devia ter feito no 911 (992.2), mas não fez. Mas a Ferrari abre aqui um precedente que espero que tenha eco em Estugarda. Dizer não à digitalização total, para oferecer a quem quer algo especial (e está disposto a pagar por isso) aquilo que os carros mais comuns perderam. Com aquilo que se está a passar na Volkswagen, com o regresso dos botões, espero que a Porsche olhe bem para isto. No Ferrari Luce, a consola central foi pensada como um elemento ativo, um ecrã que pode ser orientado e partilhado com o passageiro. Há também um relógio com ponteiros analógicos que pode assumir diferentes funções e uma chave com tecnologia e-ink. Ou seja, uma chave que depois de encaixar magneticamente na consola, muda de cor. Assim, o construtor espera que o ato de ligar um Ferrari continue a ser um tema de conversa, mas desta vez, para quem aprecia estas tecnologias. Não discordo desta opção, porque num mundo onde os motores de combustão não cantam, nem tão pouco existem melodias V12, a Ferrari tem de encontrar outros motivos para tentar convencer. Algumas especificações técnicas Do ponto de vista técnico podemos esperar uma arquitetura de 800 V e carregamento rápido até 350 kW. Fala-se numa bateria de “grande capacidade” e numa configuração com quatro motores elétricos e potência combinada acima dos 1000 cv. © Razão Automóvel O exterior do Luce é um dos segredos mais bem guardados do momento. A LoveFrom também esteve envolvida no design exterior e, segundo Sir Jony Ive, será tão “radical” como o do interior. A marca refere ainda um centro de gravidade significativamente mais baixo face a um modelo equivalente a combustão (justificado pela posição e distribuição das baterias, como na maioria dos elétricos), bem como soluções de suspensão ativa e direção às quatro rodas. Aquilo que não se sabe, é o que tenho como grande esperança para este modelo. Porque ao nível das especificações técnicas será difícil surpreender, dado que potência e motores 100% elétricos são, como todos sabemos, algo democrático (ao contrário dos motores V12). Tenho esperança que seja um elétrico interessante de conduzir, que deite por terra preconceitos, que vá mais longe nas emoções do que todos os outros. Até podia não esperar um interior destes, mas sem dúvida espero que ao volante seja um Ferrari, com todo o peso que isso tem. E no que toca a este capítulo, há bons indícios. Som do motor? Sim e sem colunas Outro tema sensível que a Ferrari decidiu abordar de forma diferente foi o som do motor. Em vez de recorrer a simulações artificiais de motores térmicos, a marca diz estar a trabalhar numa assinatura sonora baseada em vibrações reais do sistema de tração, amplificadas e trabalhadas como parte da experiência. Continuando as apostas, arrisco-me a antecipar que este Ferrari terá “o motor elétrico com o melhor som de sempre”. Para já, a marca de Maranello escolheu começar pelo interior e não é difícil perceber porquê. É que num Ferrari elétrico, o interior terá de proporcionar uma experiência sem precedentes na marca, capaz de surpreender o condutor tanto como o exterior, já que este não será entretido por um motor a combustão. O empenho que a Ferrari está a colocar no interior do Luce, na minha opinião, com um excelente resultado, é a força que a marca de Maranello precisava para lançar o supercarro elétrico mais importante de sempre. Sendo que mais importante do que ser elétrico, é ser um Ferrari. Diogo Teixeira