1.° ENSAIO - BMW I4 M60 XDRIVE
2026-03-03 22:06:06

Ataque furtivo Há automóveis que tentam convencer-nos que são especiais a todo o custo, já o i4 M60 xDrive limita-se a encostar-nos ao banco, enquanto “despacha” os 0 a 100 km/h em 3,7 segundos. A berlina da marca bávara é um daqueles casos em que a eletrificação total surge na forma de um familiar rápido como um superdesportivo, refinado como poucos e “suficientemente BMW” para deixar a concorrência em sentido. Basta circular com mais atenção nas nossas estradas para perceber que o BMW i4 continua a gozar de grande popularidade. E não é difícil perceber porquê. É um automóvel importante para a marca. Talvez por ser, ao mesmo tempo, uma espécie de “vitrine” tecnológica e uma convincente “ferramenta” de uso diário. Um elétrico que não se esquece de ser automóvel, mesmo quando, sob a elegante carroçaria, correm mais de 600 cv de potência. Mas vamos por partes. Em 2024 o i4 já tinha sido alvo de algumas alterações, com uma revisão que limpou o desenho, arrumou detalhes e elevou a qualidade do interior, sobretudo na lógica do ecrã e na sensação de modernidade sem perder a sobriedade. Agora, a atualização mais notável é bastante menos fotogénica: um acréscimo na eficiência e na potência. Todos os i4 beneficiam de inversores com semicondutores em carboneto de silício, uma peça de bastidores que não aparece nas fotos, mas aparece nos números e, mais importante, aparece na consistência com que este BMW gere a energia. Traduzido, na prática isto significa mais autonomia, sem pedir ao condutor uma vida mais regrada. E ainda bem porque, com este nível de potência e as prestações de um superdesportivo, difícil mesmo é não cair em tentação. Efeito “catapulta” Com a saída de cena do M50, de 544 cv, o estatuto de topo de gama passou a recair neste M60, que pode chegar aos 442 kW de potência, ou 601 cv, mantendo o binário máximo nos 795 Nm. As prestações espelham os estarrecedores números da potência e binário: 0 a 100 km/h em 3,7 segundos e 225 km/h de velocidade máxima (limitada eletronicamente). Ao volante, tentar igualar os valores anunciados, provoca um riso nervoso aos passageiros que não estavam à espera do pontapé no peito quando se acelera a fundo. Mas mais do que o susto em si, o que impressiona realmente é a facilidade com que tudo acontece. É demasiado simples. Demasiado imediato. A cada aceleração mais veemente, temos a sensação que fomos largados de uma fisga gigante e, meio a rir, meio a engolir em seco, que o impulso parece que não irá terminar até entrarmos em “warp speed”. O mais curioso é que este lado selvagem não toma de assalto o i4 M60, o familiar da BMW também sabe ser um casulo de bem-estar e serenidade. No modo Eco Pro, o i4 M60 é silencioso, sereno, quase terapêutico; parece um daqueles carros que absorvem a cidade sem nos envolver nos “dramas” que desfilam à nossa volta. Em Comfort, transforma-se num viajante de longas distâncias. Baixo e aerodinâmico, desliza em autoestrada com uma tranquilidade que faz lembrar algo mais aristocrático do que desportivo, não por ser macio, mas por ser seguro e transmitir uma confiança absoluta. E depois há o Sport, claro, com a assinatura sonora IconicSounds Electric a dar uma camada extra de “teatro” ao que já é, por si só, muito teatral. Pode desligar-se. Mas também pode ficar. Há dias em que o bom gosto e o estado de espírito pedem silêncio; há outros em que um pouco de Hans Zimmer é exatamente o tipo de exagero que a nossa criança interior pede. “Colado” ao asfalto Dinamicamente, o i4 M60 é impressionante precisamente porque não tenta fingir o que não é. O peso está lá, é evidente e real. São mais de 2,2 toneladas distribuídas pelos 4,78 metros de comprimento. Só que a tração é tanta, e a forma como o sistema xDrive distribui o binário é tão eficaz, que essa massa parece encolher nas curvas. Não desaparece, ninguém engana Newton, mas é controlada com uma compostura rara. A suspensão adaptativa M e a direção variável de série ajudam a criar um automóvel que cobre quase todas as bases: firme e preciso quando se exige, confortável quando a vida (e a família) pede. Os travões acompanham bem o andamento, embora aqui exista sempre uma pequena discussão elétrica sobre regeneração. Há vários níveis, mas a mudança de lógica passa mais pelo ecrã do que por gestos naturais, o que não deixa de ser uma pena num automóvel que convida tanto à precisão na condução. Ainda assim, um toque no seletor para o modo B resolve grande parte do dia a dia, ativando o one-pedal e permitindo modular a desaceleração de forma eficaz, inclusive na entrada em curva, deslocando o peso para a frente e preparando o terreno para a explosão seguinte em reta. É um carro que, quando o condutor entra na dança, responde bem e depressa, muito depressa. Mais de 400 km de autonomia A bateria útil ronda os 80,7 kWh e, em termos de homologação, o M60 anuncia 537 km de autonomia WLTP e consumos médios de 17,1 kWh/100 km. Números competentes para um topo de gama com esta ambição, ainda que a vida real, sobretudo no inverno e com percursos de autoestrada, nem sempre corresponda ao anunciado na ficha técnica. Ao longo do nosso teste, conseguimos autonomias médias de 438 km, com uma variedade de percursos e de utilizações. Tanto tirámos partido do conforto e da robustez de andamento, como demos rédea (quase) solta ao hooligan que vive em cada um de nós. A boa notícia é que o carregamento ajuda a compensar: em DC pode ir até 205 kW, o que permite, em condições ideais, repor dos 10 aos 80% da carga em cerca de meia hora, e em AC carrega até 11 kW, encaixando uma carga completa numa noite típica de wallbox. A logística não é milagrosa, mas é prática. E um elétrico de 600 cv, para ser verdadeiramente utilizável, tem de ser prático. Por dentro, há um conforto quase reconfortante: o i4 ainda mantém o iDrive com o comando rotativo na consola, essa pequena “relíquia” que continua a ser uma boa forma de controlar um sistema com muitas “camadas” de menus e sub-menus, sem nos obrigar a viver com o dedo colado no painel tátil. Por falar nisso, o ecrã curvo tem ótimo aspeto, uma boa leitura e a experiência geral é intuitiva e bem integrada. A qualidade, tanto da montagem como dos acabamentos, está ao nível que se espera de um BMW. Na prática, o i4 continua a ser mais versátil do que, por exemplo, um Tesla Model 3 em aspetos muito concretos, começando pela bagageira (470 litros de capacidade) com uma quinta porta, que facilita a vida a quem transporta coisas que não cabem em “tampas de mala” tradicionais. Não há frunk, é verdade, mas há arrumação útil e espaço sob o piso para cabos. E no uso diário, essas pequenas diferenças somam pontos de uma forma que os comparativos de aceleração raramente conseguem traduzir. No fim, o BMW i4 M60 xDrive é um automóvel de paradoxos bem resolvidos. É rápido demais para o bom senso e refinado demais para ser cansativo. É pesado, mas nunca se sente pachorrento. Tem tecnologia, mas ainda sabe ser amigo do utilizador, mesmo que este não seja engenheiro informático. E, talvez o mais interessante, prova que uma plataforma com raízes no mundo térmico não é, por definição, um pecado, desde que a engenharia faça o seu trabalho e a afinação seja de gente que gosta de conduzir. A única razão verdadeiramente forte para não comprar um M60 pode ser a mais incómoda de admitir: para muita gente, um i4 mais básico já entrega quase tudo o que importa, por muito menos dinheiro. Só que “quase tudo” nunca inclui aquele momento em que carregamos no acelerador e sentimos a “fisga” a puxar. FICHA TÉCNICA BMW i4 GRAN COUPÉ M60 xDRIVE Motor 2 elétricos, síncrono de íman permanente Bateria 81,1 kWh (úteis) Potência 442 kW / 601 cv Binário 795 Nm Tração integral Suspensão ind. tipo McPherson (frente) ind. multibraços (atrás) Comprimento 4783 mm Largura 1852 mm Altura 1448 mm Bagageira 470 litros Peso 2210 kg Consumo 17,1 kWh/100 km (WLTP combinado) Autonomia 537 km (WLTP combinado) Acel. 0-100 km/h 3,7 segundos Velocidade máx. 225 km/h Tempos de carregamento 8h30 , 11 kW AC (0-100%) 0h30 , 205 kW DC (10-80%) PREÇO desde 77.050EUR , i4 M60 xDriv e desde 57.950EUR , gama i4 i4 Gran Coupé Lci a partir de 774EUR/mês sem IVA 72 meses , 15.000 km/ano Rui Reis