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EDITORIAL - EDITORIAL - PROCURA NATURAL

Blue Auto

2026-03-04 22:06:02

“Não há uma procura natural por veículos elétricos. A procura só aumenta quando existem subsídios em vários países ou quando os fabricantes reduzem os preços, perdendo dinheiro. Portanto, tentar aumentar a quota de mercado dos veículos elétricos é apenas gerar perdas para os construtores de carros” A declaração foi feita não por um dos habi- tuais “negacionistas” da mobilidade elétrica, mas sim , pasme-se! , por um alto executivo de um dos principais grupos automóveis europeus, em entrevista à imprensa francesa. Poderia ser só mais uma opinião, mais ou menos respeitável, mas a questão é que pura e simplesmente não corresponde à verdade, sendo o mais recente e flagrante exemplo de como alguma indústria automóvel continua a tentar transmitir uma visão distorcida do mercado atual, insistindo em culpar apenas o calendário de redução das emissões previsto na legislação comunitária , que, como se sabe, significa para as marcas uma aposta crescente na eletrificação , para a queda nos lucros agora registada. Porque é antes de mais disso que se trata: do facto da venda de carros elétricos, mercado no qual a indústria europeia enfrenta uma fortíssima concorrência chinesa, representar atualmente para uma boa parte das marcas tradicionais margens bem mais reduzidas do que aquelas até aqui conseguidas com as motorizações a combustão. Embora respeitando muito o enorme desafio que a transição energética em curso implica para o setor automóvel , que tem pela frente seguramente a maior revolução da sua centenária história ,, não há como deixar passar em claro a afirmação reproduzida no início deste texto, por estar muito distante da realidade. Não, não é verdade que não exista procura natural por veículos elétricos e que a sua adoção só aumente com os incentivos estatais. Pelo contrário, a procura é sim real, tal como demonstram os dados estatísticos oficiais de vendas no último ano: de acordo com a própria associação de construtores automóveis, em 2025 os modelos 100% elétricos representaram 17,4% das novas matrículas no mercado europeu, aumentando o share de 13,6% registado no ano anterior, enquanto a quota combinada de motores a gasolina e gasóleo caiu quase 10% no mesmo período (de 45,2% para 35,5%); e contrariando a ideia de que a adoção dos BEV depende em exclusivo de apoios, esse aumento aconteceu mesmo num ano que viu os incentivos governamentais serem parcialmente reduzidos ou mesmo eliminados nalguns dos principais mercados europeus, como Alemanha e França (já para não falar de casos como o português, mercado onde se venderam mais de 52 mil modelos BEV, contra pouco mais de 3 mil incentivos anunciados). A procura natural é pois uma realidade indesmentível: cada vez mais consumidores optam (ou pensam em fazê-lo, dizem os estudos de mercado) por um automóvel elétrico pelas vantagens que eles representam face aos motores tradicionais. E essa é uma opção que não vai parar de aumentar, à medida que os carros totalmente elétricos se tornam mais competitivos e que a oferta cresce a ritmo acelerado (como irá acontecer em 2026: basta ver o dossier desta edição que antecipa as mais de 100 novidades BEV já previstas para este ano), mesmo com obstáculos a uma maior adoção da mobilidade elétrica como é ainda a quantidade e qualidade da rede de carregamento. Há muita procura por veículos elétricos; e essa procura é sim, antes de mais, uma opção natural, não imposta ou subsidiada