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MARCELO REVELA MAL-ESTAR AO RETARDAR A NOMEAÇÃO DE CHEFES MILITARES, EM CERIMÓNIA SEM COMUNICAÇÃO SOCIAL

Expresso Online

2026-03-05 22:03:07

Marcelo sinalizou não ter gostado da forma como o Governo geriu a nomeação dos chefes militares. João Cartaxo Alves, general da Força Aérea, “é o homem certo”, mas tem de mudar o conceito de terrestre para “aeronaval”, diz o seu antigo camarada Gouveia e Melo, ex-chefe da Armada Marcelo Rebelo de Sousa realizou uma das últimas cerimónias do seu mandato sem a presença da comunicação social, depois de ter publicado uma nota de nomeação em cima da hora e sem divulgar os vídeos ou os textos dos discursos no site da presidência. Foi uma maneira de o comandante supremo das Forças Armadas mostrar desagrado com a forma como o Governo lidou com a divulgação da escolha de dois chefes militares e uma recondução, cujas nomeações cabem ao Presidente da República. Em contagem decrescente para deixar Belém - cederá o palácio a António José Seguro daqui a seis dias -, só esta segunda-feira é que o Presidente da República anunciou a nomeação do general João Cartaxo Alves como chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) e do general Sérgio Costa Pereira para o substituir como chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA). Marcelo divulgou as nomeações apenas 45 minutos antes das tomada de posse dos próprios militares, e três dias depois de um Conselho de Ministros digital lhe ter proposto estes dois nomes para o topo das Forças Armadas (assim como a recondução do general Mendes Ferrão como chefe do Estado-Maior do Exército). O processo de substituição dos chefes militares deve ser iniciado, “sempre que possível, pelo menos um mês antes da vacatura do cargo”, diz a lei, mas a duas semanas do fim do mandato de duas chefias das Forças Armadas o Presidente da República ainda não tinha sido consultado pelo primeiro-ministro, num processo em que a última palavra é de Belém. O compasso de espera do Presidente denota mal-estar com o facto de ter sido tudo feito “em cima do joelho”, como comentaram com o Expresso tanto fontes políticas como militares, uma vez que o mandato do general José Nunes da Fonseca como chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas terminou no domingo, dia 1 de março. No sábado, dia 28 de fevereiro, o Presidente da República fez o seu discurso de despedida das Forças Armadas, pedindo união em torno do próximo chefe de Estado e condecorou o general Nunes da Fonseca com a Ordem Militar de Cristo. Embora já fossem oficiais as propostas do Governo para as nomeações desde sexta-feira à noite, assim como a carta de despedida de Nunes da Fonseca com data de 28, Marcelo não deu luz verde imediata e decidiu esperar dois dias para oficializar a sua escolha para estes postos cimeiros da hierarquia militar. “É o homem certo”. Tem de mudar o conceito de terrestre para “aeronaval”, diz Gouveia e Melo O general Cartaxo Alves é o primeiro CEMGFA proveniente da Força Aérea desde 2016, e substitui o muito discreto Nunes da Fonseca. Descrito por quem o conhece bem como tendo “pavio curto”, como o Expresso escreveu quando chegou ao comando do ramo, é considerado um militar “obstinado”, conhecido por não desistir enquanto não consegue o que quer. Antigo piloto de aviões de transporte nos Aviocar e nos C-130, foi responsável pelo programa que representou um dos maiores investimentos das Forças Armadas das últimas décadas: os seis aviões de transporte da Embraer KC-390 e um simulador, para substituir os velhos Hércules da Lockheed, que comandou. Uma das marcas que deixa é o projeto da Constelação do Atlântico e a aposta no espaço, com o desenvolvimento de 12 satélites. Um deles, de alta resolução (só há outro na Europa e é privado). O ex-candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo, que foi chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), enquanto Cartaxo Alves comandava o a Força Aérea, descreve-o como “um militar muito competente, um excelente camarada, cooperativo com os outros ramos e com uma visao aeronaval que é importante, adequada ao espaço de operações português”. O facto de realçar a perspetiva aérea e naval e não a terrestre é de sublinhar. “É o homem certo para o momento certo”, diz o almirante na reserva. “Tem de mudar um pouco uma política que muitas vezes estava orientar para land [componente terrestre] e era desadequada para a nossa geografia”, acrescenta Gouveia e Melo. O grande desafio que agora o general tem pela frente é “tornar as Forças Armadas em forças com verdadeira capacidade operacional, e isso passa por investir em novas tecnologias e capacidades, mas essencialmente em pessoal”, porque as saídas continuam a ser “um drama gigantesco, que se não for resolvido leva-nos a perder conhecimento”, diz o ex-CEMA. Em várias entrevistas, ao longo dos últimos anos, Cartaxo Alves foi apontando o facto de, no tempo da troika, a geração mais recente de militares ter perdido metade do valor das reformas futuras e de essa medida nunca ter sido revertida, responsabilizando-a pela maior parte das saídas precoces da vida militar. Deverá ser uma das suas batalhas com o poder político. Gouveia e Melo acompanha-o: “Esta lei das reformas leva metade da pensão, e os militares saem a metade da carreira para a vida civil, para depois comporem o resto da reforma”. Durante os últimos cinco anos à frente da Força Aérea, Cartaxo Alves foi sendo confrontado com essa realidade, perante uma verdadeira sangria de pilotos e técnicos especialistas que levam anos a formar. Para além de ter sido o pai do projeto KC-390, introduziu os aviões Super Tucano, de ataque ao solo, criou uma esquadra de combate aos incêndios baseada em velhos Black Hawk norte-americanos recuperados, e insistiu na substituição dos caças F-16 pelos aviões de 5ª geração F-35. Numa entrevista ao Expresso, em maio de 2024, disse que “a soberania” e “a integridade e a defesa aérea do nosso país, sem caças credíveis não existe”. Para o general, se Portugal ficasse fora da 5ª geração, “alguém tinha de vir aqui” fazer o policiamento aéreo. Entretanto, depois de o ministro da Defesa, Nuno Melo, ter recusado avançar já com a aquisição de uma arma tão cara aos norte-americanos - cuja administração Trump não dá garantias de previsibilidade -, Cartaxo Alves terá ficado recetivo à ideia de passar diretamente para os caças de 6ª geração. Portugal manifestou a intenção de participar como observador no Global Combat Air Programme (GCAP) que está a desenvolver o caça Tempest (Reno Unido, Itália e Japão). A 6ª geração é um salto para a operação de uma guerra mista com caças e drones. O tenente-general Alfredo Cruz, que foi comandante aéreo e teve o então coronel Cartaxo Alves como chefe do Estado-Maior no comando operacional, descreve-o com um “comportamento de excelência, e uma capacidade de decisão acima da média”. Durante o seu consulado, foram executadas obras nas bases para melhorar a habitabilidade e criadas salas de amamentação para as mulheres nas fileiras que tiveram filhos. De negativo, as queixas de muitos militares sobre o excesso de carga, pela falta de militares e o facto de terem a perceção de que o chefe não dizia "não" ao poder político, acrescentando missões a pessoal já desgastado. Satélites: portugueses no espaço Na mensagem de despedida que fez à Força Aérea na segunda-feira, e a que o Expresso teve acesso, Cartaxo Alves realçou “a integração da Força Aérea no domínio do Espaço” como “um passo histórico, visionário e determinante” e um “dos avanços mais marcantes dos últimos anos”. Com o desenvolvimento da Constelação do Atlântico e a edificação de uma fábrica de satélites em Alverca, “o espaço deixou de ser apenas um cenário distante para se tornar um domínio estratégico incontornável, onde se joga parte significativa da segurança, do desenvolvimento e da competitividade das nações”, disse o general, destacando um projeto que vai da “vigilância espacial à proteção de infraestruturas críticas, passando pela cooperação internacional em programas científico-tecnológicos de vanguarda”. De resto, o projeto chegou a ser mencionado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von Der Leyen, no último discurso sobre o estado da União. Antes de assumir a posição de CEMGFA, o general destacou aos militares do seu ramo “a aproximação crescente à sociedade civil”, sublinhando a assunção de “responsabilidades inéditas, algumas das quais representam transformações profundas na arquitetura da defesa nacional”. Não foi explícito, mas estaria a referir-se à esquadra de combate a fogos e à resposta que, apesar da escassez de pessoal e inadequação de alguns meios, teve de dar quando o INEM ficou sem helicópteros. “O alargamento do nosso espectro de atuação exigiu reorganização, adaptação e uma mentalidade aberta à mudança. Tarefas que há poucos anos seriam consideradas improváveis tornaram-se parte integrante da nossa missão quotidiana”, escreveu na sua mensagem. O piloto-aviador que chegou ao topo do seu ramo, em 2924, dois dias depois da invasão russa da Ucrânia, é promovido agora ao lugar mais alto da hierarquia militar em simultâneo com uma nova guerra no Médio Oriente. Cartaxo Alves tem pela frente vários desafios: o programa de reequipamento militar mais ambicioso de Portugal em democracia, com os EUR5,8 mil milhões europeus do SAFE, o novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional, que o Governo tem mantido na gaveta, a relação com um novo Presidente da República, mas sobretudo um contexto de insegurança internacional cada vez mais agudo. O voo pode ter turbulência, mas é para isso que a tropa serve. Vítor Matos Jornalista Vítor Matos