VIA VERDE ACELERA VINDA DE IMIGRANTES PARA A CONSTRUÇÃO
2026-03-06 07:02:03

Pedidos de empresas (211) e trabalhadores com visto (1427) duplicaram nos últimos três meses Falta menos de um mês para a via verde da migração laboral completar um ano e Manuel Reis Campos vê finalmente o mecanismo a ganhar tráfego e velocidade. “Nos últimos três meses, duplicaram os processos de contratação submetidos, assim como o número de imigrantes para quem foi requerido visto. A estes, juntam-se os muitos pedidos que se encontram em preparação e que são o triplo em relação a novembro. O fluxo começou lento mas as empresas estão claramente a demonstrar interesse”, garante o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI). A boa nova chegou em boa altura. A construção, com uma falta crónica de mão de obra e já com 35% de estrangeiros, ganhou agora uma pressão suplementar com a necessidade de reerguer a zona centro, atingida pela tempestade “Kristin”. No pacote de encomendas já existiam as obras do PRR, do Portugal 2030, do novo aeroporto e do TGV, para só citar as maiores. Depois da extinção das manifestações de interesse e do fim dos vistos para procura de trabalho - exceção feita para os profissionais altamente qualificados -, o Governo criou, a 1 de abril de 2025, um canal privilegiado para que as empresas pudessem contratar de forma célere cidadãos estrangeiros, ainda nos países de origem, para os sectores económicos mais dependentes da imigração, com mediação das respetivas confederações. Até à passada terça-feira, dia 3 de março, a CPCI tinha recebido e encaminhado 211 processos de pedidos de visto para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, a maioria de natureza grupal, que abrangem 1427 trabalhadores para a construção. Com processos em preparação encontram-se mais 259 imigrantes. “Grande parte já está a trabalhar em obras em Portugal. Vieram principalmente da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Seguiu-se a América Latina, como o Brasil, Colômbia e Peru; e também agora Marrocos e Senegal e Paquistão e Índia. Esta semana, num só dia, chegaram 80 pedidos, uma empresa pediu 45, outra 20 ”, relata o engenheiro civil, que preside também à Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas Nacionais (AICCOPN). Entre as entidades que já recorreram à via verde estão grandes empresas do sector, como a Mota Engil, a Casais ou a DST. “Sei que os prazos de resposta dos consulados estão a ser cumpridos, abaixo do máximo de 20 dias. E a vinda para Portugal também deve estar a correr bem porque nunca chegou aqui nenhuma queixa. Para estes dez ou onze países está mesmo a ser uma via verde”, elogia Reis Campos. Chegam dos PALOP, do Brasil, Colômbia, Peru e também de Marrocos e Senegal e do Paquistão e Índia Os números, ainda que ascendentes, chocam com a carência de 80 mil trabalhadores no sector da construção, estimativa feita pelo próprio presidente da AICCOPN. “É verdade que falta mão de obra mas acredito que este canal será suficiente se se mantiver no ritmo atual. Além do mais, temos 1,5 milhões de imigrantes no país, podemos apostar na sua formação, atraí-los para a profissão”, esclarece. E é por isso que, convicto, discorda da possibilidade avançada por Marcelo Rebelo de Sousa, nos seus últimos dias de presidência, de criação de “uma via de entrada de mão de obra” especialmente vocacionada para responder às necessidades excecionais causadas pela depressão “Kristin” na zona centro. “O próprio ministro da Economia perguntou se era necessária uma task force só para isso e eu disse-lhe que não valia pena. Não precisamos de mais mecanismos, senão podemos entrar novamente - e aqui entre aspas - na irregularidade . Se as coisas estão a crescer, a ter o andamento correto, estão no bom caminho. É deixar correr isto”, assegura Manuel Reis Campos. No imediato, concorda com a alternativa apresentada por Castro Almeida, de permitir a suspensão provisória ou atraso de algumas obras públicas em curso para que as construtoras possam deslocalizar temporariamente trabalhadores para as zonas mais atingidas. O Governo também já garantiu que nem a tempestade altera as políticas migratórias e que será dada prioridade à contratação de pessoal que esteja em Portugal. Desconhece-se ainda o número de trabalhadores necessários, mas os dados do IEFP consultados pelo Expresso antecipam dificuldades. Em dezembro de 2025 (últimos dados disponíveis), estavam inscritos como disponíveis 9343 profissionais da construção em todo o território nacional (continente e regiões autónomas). Na região centro, a mais afetada pela tempestade e onde se concentram os maiores danos, eram apenas 1002. Raquel Moleiro Jornalista Raquel Moleiro