A FIGURA - JOÃO CARTAXO ALVES O PILOTO “OBSTINADO” QUE APOSTOU NO ESPAÇO CHEGOU AO TOPO DA TROPA
2026-03-06 22:06:37

João Cartaxo Alves o piloto “obstinado” que apostou no Espaço chegou ao topo da tropa O novo chefe máximo das Forças Armadas criou o projeto espacial na Força Aérea com uma constelação de 12 satélites Os amigos de João Cartaxo Alves costumam dizer que ele tem “pavio curto”, e que se irrita facilmente. Esse impulso reativo ajudará a explicar, de alguma maneira, o momento de tensão que teve perante um protesto veemente de Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, no aeroporto de Figo Maduro, em outubro de 2024, depois de um mal-entendido em que o governante ficou à espera num local inadequado. O caso ficou sanado, mas quem conhece o novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), o posto mais alto na hierarquia militar, insiste que o piloto-aviador, de 63 anos, é “obstinado” e que não desiste enquanto não consegue o que quer. No topo das Forças Armadas, o general, que tomou posse na segunda-feira, terá agora três anos de mandato para se “obstinar” e obter o que quer num momento definidor, em que o país irá fazer o maior investimento de sempre em reequipamento , EUR5,8 mil milhões em financiamento europeu, mais o que vier na Lei de Programação Militar , e com o objetivo de ultrapassar os 2% do Produto Interno Bruto em Defesa (em direção aos 3,5%). João Cartaxo Alves, que comandou a Força Aérea nos últimos quatro anos, substitui o discreto general do Exército José Nunes da Fonseca. Antigo piloto de aviões de transporte Aviocar e c-130, foi responsável pelo programa que representa um dos maiores investimentos militares das últimas décadas: seis aviões de transporte da Embraer KC-390 e um simulador, que estão a substituir os velhos Hér-cules, que ele pilotou e comandou. Uma das marcas que deixa na Força Aérea é o projeto da Constelação do Atlântico e a aposta no Espaço, com o desenvolvimento de 12 satélites, um deles de alta resolução (só há outro na Europa e é privado). O ex-candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo, que foi chefe do Estado-Maioi da Armada, enquanto Cartaxo Alves comandava a Força Aérea, descreve-o como “um militar muito competente, um excelente camarada, cooperativo com os outros ramos e com uma visão aeronaval que é importante, adequada ao espaço de operações português”. O facto de realçar a perspetiva aérea e naval e não a terrestre (do Exército), é de sublinhar. “é o homem certo para o momento certo”, diz o almirante na reserva. “Tem de mudar um pouco uma política que muitas vezes se estava a orientar para land [componente terrestre] e era desadequada para a nossa geografia”, argumenta Gouveia e Melo. O grande desafio que agora o general tem pela frente é “tornar as Forças Armadas em forças com verdadeira capacidade operacional, e isso passa por investir em novas tecnologias e capacidades, mas essencialmente em pessoal”, porque as saídas continuam a ser “um drama gigantesco, que se não for resolvido leva-nos a perder conhecimento”, diz O ex-CEMA. Em várias entrevistas, ao longo dos últimos anos, Cartaxo Alves foi apontando o facto de, no tempo da troika, a geração mais recente de militares ter perdido metade do valor das reformas futuras e de essa medida nunca ter sido revertida, responsabilizando-a pela maior parte das saídas precoces da vida militar. Deverá ser uma das suas batalhas como poder político. Além de ter sido o pai do projeto KC-390, introduziu os aviões Super Tucano, de ataque ao solo, criou uma esquadra de combate aos incêndios baseada em velhos Black Hawk norte-americanos recuperados, melhorou instalações, criou salas de amamentação e insistiu na substituição dos caças F-16 pelos aviões de 5a geração F-35. Numa entrevista ao Expresso, em maio de 2024, disse que “a soberania” e “a integridade e a defesa aérea do nosso país, sem caças credíveis não existe”. Para o general, se Portugal ficasse fora da 59 geração, “alguém tinha de vir aqui” fazer o policiamento aéreo, afirmou. Entretanto, depois de o ministro da Defesa, Nuno Melo, ter recusado avançar já com a aquisição de uma arma tão cara aos norte-americanos, Cartaxo Alves terá ficado recetivo à ideia de passar diretamente para os caças de 64 geração. Portugal manifestou a intenção de participar como observador no Global Combat Air Programme (GCAP) que está a desenvolver o caça Tempest (Reino Unido, Itália e Japão). Nos tempos que correm, O voO do general no EMGFA pode sofrer de alguma turbulência, mas é para isso que a tropa serve. Vítor MATOS matos@expresso.impresa.pt EUR8 Hà UMA QUESTàO ESSENCIAL, QUE ? A INTEGRIDADE EA DEFESA AéREA DO NOSSO PAíS, A NOSSA SOBERANIA. SEM CAçAS CREDíEIS Nàô EXISTE VÍTOR MATOS