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HÁ 14 ANOS QUE PORTUGAL VENDE MAIS TECNOLOGIA DO QUE AQUELA QUE COMPRA

Negócios

2026-03-11 22:09:08

Balança de pagamentos tecnológica, que permite aferir a capacidade e competitividade tecnológica do país, é positiva para Portugal há mais de uma década. País exporta cada vez mais serviços tecnológicos, com destaque para informática e serviços industriais. Dados não incluem vendas de mercadorias.JOANA ALMEIDAGoogle, Microsoft, Feedzai, Bosch, Outsystems. São várias as empresas, nacionais e internacionais, com forte incorporação tecnológica que têm contribuído para que as trocas comerciais de tecnologia e conhecimento sejam positivas para Portugal. Há mais de uma década que o país vende mais em serviços de tecnologia e “know-how” do que compra e essa diferença tem vindo a aumentar com a aposta em mais inovação.No conjunto de 2025, Portugal exportou 7,2 mil milhões de euros em serviços de tecnologia e conhecimento, onde se destacam serviços de investigação e desenvolvimento (I&D), patentes e marcas, e serviços de assistência técnica. Esse valor, divulgado pelo Banco de Portugal (BDP), compara com 6,9 mil milhões vendidos neste tipo de serviços em 2024, sendo que esse montante subiu em flecha nos últimos anos. Basta pensar que, há uma década, o total exportado rondava os 1,7 mil milhões.Há vários fatores que explicam porque é que o valor mais do que quadruplicou nos últimos 10 anos. Luís Carvalho, professor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto, refere que, por um lado, “Portugal fortaleceu muito uma base de competências em engenharia e tecnologias digitais, apoiada por universidades, alguns centros de I&D e interfaces tecnológicos de ponta, e por um número crescente de empresas de base tecnológica”. Por outro lado, nota que o país se tornou “um destino atrativo para centros de serviços tecnológicos de multinacionais”.A “reputação” dos serviços de tecnologia nacionais, a competitividade nos preços praticados e a mão de obra qualificada são fatores que têm ajudado na captação de multinacionais para Portugal, segundo Paulo Reis Mourão, diretor do Departamento de Economia da Universidade do Minho. A esses fatores acrescem a questão cambial e o “nearshoring” estratégico. “Portugal é visto como um ‘porto seguro’ para o desenvolvimento dessas empresas face a geografias com instabilidade potencial”, argumenta.Ao mesmo tempo, tem crescido o número de empresas portuguesas dedicadas a serviços de tecnologia que vendem grande parte do que produzem para clientes estrangeiros. Ana Paula Faria, professora também da Universidade do Minho, frisa que, apesar de as multinacionais terem contribuído de forma significativa para este tipo de exportações, “as empresas portuguesas e investigadores nacionais são responsáveis por aproximadamente 65% do conhecimento e inovação tecnológica” produzido.“O crescimento deste tipo de exportações tende a resultar da presença simultânea de empresas nacionais e estrangeiras”, defende Benoit Decreton, professor da Nova SBE. “As empresas portuguesas são muitas vezes mais presentes em certos nichos ou setores específicos, enquanto as multinacionais trazem competências adicionais, acesso a mercados internacionais e integração em redes globais de produção de serviços”, diz.Serviços informáticos e industriais lideramAnalisando por tipo de serviços que integram o conjunto das exportações nacionais de tecnologia e “know-how”, destacam-se os serviços de informática e industriais, que representam cerca de três quartos no valor total de vendas ao exterior. Em 2025, Portugal exportou um total de 5,5 mil milhões de euros nesse tipo de serviços de natureza técnica, um montante que compara com 975 milhões registados há dez anos.Outros serviços também de natureza técnica como arquitetura, engenharia e análise tiveram um aumento de 5,2% para 1,2 mil milhões de euros em 2025. São a segunda fatia mais representativa das exportações de tecnologia e conhecimento do país, valendo cerca de 15%.Já em serviços de I&D – que englobam a criação de produtos, processos ou serviços inovadores que ainda não existem no mercado –, foram exportados 562 milhões de euros no ano passado. É quatro vezes mais do que o país vendia nesse tipo de serviços há dez anos, embora continuem a ser uma parcela reduzida das exportações totais de tecnologia e conhecimento. Num registo mais contido, as vendas ao exterior de direitos de aquisição ou utilização de patentes e marcas têm-se mais ou menos estáveis ao longo da última década, tendo fechado 2025 nos 29,9 milhões de euros.Importa sublinhar que estes dados das exportações portuguesas de tecnologia não incluem bens tecnológicos, como computadores, telemóveis, smarttv ou carros elétricos. Em causa está sobretudo a partilha de conhecimento tecnológico, sendo que este indicador permite aferir a capacidade e competitividade tecnológica do país.Pandemia deu força ao excedenteEm sentido contrário, o país importou 4,1 mil milhões de euros em serviços de tecnologia em 2025, segundo os dados do BDP, com destaque também serviços de informática e industriais. Com as exportações a ultrapassarem as importações em 3,1 mil milhões, a balança de pagamentos tecnológica manteve-se positiva para Portugal. Aliás, desde 2012, essa balança anual tem sido sempre favorável para o país, sendo que o maior “salto” se verificou em 2021, o primeiro ano completo desde a pandemia da covid-19.Esse impulso dado pela pandemia deveu-se sobretudo a uma maior procura global por serviços digitais, como comércio eletrónico ou desenvolvimento de software, e à generalização do teletrabalho, que facilitou a contratação de serviços a empresas localizadas em países como Portugal. Mas os economistas contactados pelo Negócios concordam que esse crescimento já vinha de anos anteriores.“A crise sanitária normalizou modelos de trabalho remoto e híbrido e acelerou a adoção de ferramentas digitais, facilitando a prestação internacional de serviços tecnológicos, mas o crescimento destas exportações já era visível antes de 2020”, salienta Benoit Decreton.País é “competitivo para atividades tecnológicas exportáveis”PERGUNTAS A PEDRO OLIVEIRA“Dean” da Nova School of Business and Economics (Nova SBE)Pedro Oliveira é “dean” da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e especialista em inovação. Ao Negócios, explica a que se deve o excedente na balança de pagamentos tecnológica.O que explica o crescimento das exportações de serviços de tecnologia?São sobretudo três fatores. Primeiro, Portugal conseguiu afirmar-se como competitivo para atividades tecnológicas exportáveis. Existe talento qualificado, boa capacidade linguística e custos competitivos. Segundo, houve uma expansão de centros tecnológicos e de serviços globais. Muitas multinacionais instalaram equipas que prestam serviços para clientes ou unidades noutros países. Por fim, o ecossistema tecnológico português amadureceu. Hoje não depende só de startups, mas também de empresas portuguesas e multinacionais que operam em redes de produção de tecnologia.Esse crescimento é sustentável ou depende muito de multinacionais instaladas em Portugal?Uma parte importante das exportações está associada a multinacionais. No entanto, isso não deve ser visto como fragilidade. Significa que Portugal conseguiu integrar-se nas cadeias internacionais de serviços tecnológicos. Se Portugal conseguir concentrar atividades como desenvolvimento de produto, análise de dados ou investigação e desenvolvimento, essas funções tendem a manter-se no país.O que permitiu ao país exportar mais serviços tecnológicos do que importa?Serviços tecnológicos como software, programação ou engenharia digital, podem ser produzidos localmente e vendidos globalmente. Além disso, estes serviços dependem de capital humano qualificado e menos de bens físicos. Isso facilita a criação de excedentes nas exportações quando existe talento e capacidade empresarial para servir mercados internacionais.Até que ponto a digitalização acelerada pela pandemia contribuiu para isso?A digitalização das empresas e das organizações públicas avançou rapidamente durante a pandemia e tornou-se normal trabalhar com equipas distribuídas internacionalmente. Isso reduziu a desvantagem geográfica. Equipas tecnológicas baseadas no país passaram a prestar serviços para empresas em todo o mundo com facilidade.Da soldadura ao espaço em seis décadas. ISQ fatura em 30 paísesDe empresa fundada na década de 60 do século passado para atuar em setores tradicionais da indústria, o grupo ISQ é hoje uma infraestrutura tecnológica virada para a exportação e trabalha para múltiplos setores.HUGO NEUTEL Com presença direta numa dezena de países, projetos em mais sete e exportando para 30 geografias, o grupo ISQ faturou 100 milhões de euros em 2025, 40% dos quais tiveram origem lá fora. A tecnologia é o pano de fundo de toda a sua atividade, que passa em grande medida por serviços de certificação, engenharia e consultoria técnica.Mas não foi sempre assim. Fundada há mais de seis décadas como Instituto de Soldadura, a empresa nasceu vocacionada para esta área tradicional da indústria. Seis décadas volvidas, e com uma estratégia de crescimento que determinou a diversificação de atividade e de geografias, é hoje um grupo detentor de uma infraestrutura tecnológica que inclui seis delegações em Portugal, 10 empresas lá fora, 16 laboratórios acreditados, 21 empresas participadas e mais de 2 mil trabalhadores. Já participou em mais de 500 projetos internacionais de investigação e desenvolvimento.“A atividade internacional no grupo já representa mais de 40%, ou seja, no consolidado das nossas contas, que a números de fecho de 2025 estão na casa dos 100 milhões de euros, cerca de 40 milhões já provém da nossa atividade de exportação ou de presença fora do país”, sublinha o presidente do grupo, Pedro Matias, em entrevista ao Negócios. “O único continente onde não temos presença é na América do Norte”. O ISQ concluiu, há décadas, que o crescimento teria de passar pelas exportações e internacionalização, dada a dimensão reduzida do mercado nacional. “Ao longo destes 60 anos nós chegámos praticamente a tudo aquilo que é cliente em Portugal”, atira.Uma expansão que tem seguido o padrão habitual: quando uma geografia ganha um peso cada vez maior nas exportações, torna-se vantajoso ter uma presença direta permanente nesse destino. Até porque isto pode depois ajudar a nova expansão. O Brasil, onde o ISQ está há 25 anos empregando hoje 450 pessoas, é exemplo disso: “Também temos outra capacidade de, a partir do Brasil, internacionalizar esta filial e fazer trabalhos, por exemplo, para o Uruguai, para o Chile.”É uma rede sustentada em criação de emprego. O grupo dá trabalho a cerca de 2 mil pessoas, 1.100 das quais em Portugal e 900 noutros países. E não deverá estar para longe o dia em que o grupo tem mais empregados lá fora do que em território nacional. “Quando visito as filiais, digo sempre, o vosso trabalho, os vossos objetivos e desafios é serem maiores que a casa-mãe.”Do céu ao fundo do marO antigo Instituto de Soldadura e Qualidade – que manteve a sigla, mas deixou cair a designação por extenso – tem hoje atividades que vão da consultoria técnica, formação especializada e certificação para a indústria, abrangendo áreas como a engenharia, inspeção, ensaios, investigação e desenvolvimento (I&D) e Inovação. A tecnologia é o elemento central de tudo o que faz, abrangendo as principais áreas de atividade económica, incluindo a energia, transportes e infraestruturas, automóvel, mobilidade, saúde, aeronáutica e aeroespacial.“Mesmo grandes empresas como uma Galp, uma EDP, uma TAP, uma Navigator, muitas delas não lhes compensa investirem em laboratórios acreditados só para elas. Nós investimos muito e somos uma espécie de [prestador de] serviços partilhados de laboratórios às principais empresas nacionais, nomeadamente do PSI”, avança o presidente do grupo. O leque de clientes abrange ainda nomes como a Autoeuropa ou a Simoldes.Na carteira de clientes também há nomes internacionais altamente tecnológicos, como o CERN, o acelerador de partículas na Suíça, e na área dos satélites. “A área aeroespacial é das que antecipamos que tenha o maior crescimento na próxima década. Tudo o que hoje funciona na nuvem vai passar para uma nuvem ainda mais acima, que é o espaço”, diz Pedro Matias, realçando que “muitas empresas, uma Amazon, uma Uber, uma Google e muitas outras, começam a ter as suas próprias redes de satélites privadas”. O que abre outra área de negócio.“Temos um laboratório dedicado à aeronáutica e aeroespacial em Castelo Branco”, onde já foram feitos ensaios do avião militar da Embraer. Foi também lá que foi testada “uma cápsula feita de cortiça que vai para Marte”, exemplifica.“Estamos a investir agora num ‘shaker’, que é uma máquina de alta potência que abana componentes” para testar satélites, acrescenta. Na Guiana Francesa, o ISQ está envolvido no porto aeroespacial de lançamento de foguetões e satélites.O raio de ação vai também ao outro extremo. “Criamos a Deep Focus, que desenvolveu um algoritmo que, através de dados de satélite, percebe que tipo de minério pode existir no fundo do mar.” A start-up exporta 100% da faturação.Critical Software coloca as mãos em vários setoresNasceu em 1998, faltando-lhe pouco para comemorar o 30.º aniversário, pelas mãos de Gonçalo Quadros, João Carreira e Diamantino Costa. A empresa ainda dava os primeiros passos quando foi selecionada pela Agência Espacial Europeia para um “case study”. Desde então que tem vindo a crescer, focada no desenho de soluções de software e serviços de engenharia, nomeadamente em sistemas críticos, operando em setores como aeroespacial, ferroviário, energético e serviços financeiros. A sede em Coimbra não engana a portugalidade, que se tem vindo a expandir pelo mundo, já com presença no Reino Unido, Alemanha e, mais recentemente, nos EUA, onde já tinha um escritório e se expandiu ao comprar a IQ Inc. E a exportação de tecnologia com o selo “Made in Portugal” não estaria finalizada sem a criação de “joint ventures”, nomeadamente a Critical Techworks, uma parceria com a BMW, a Critical Flytech, dando as mãos à Airbus, e a Stadler Digital Labs, em união com a Stadler. São, ao todo, mais de 1.400 colaboradores entre todas as companhias de uma exportadora que se tem transformado num grupo.Outsystems exporta da garagem para mais de 10 geografias“Podia ter morrido quatro vezes e reinventou-se dez”. A frase é do fundador, Paulo Rosado, que entretanto passou a “chairman”, e personifica a imagem das empresas em Portugal. Foi criada em 2001, por Rosado e Rui Pereira, numa garagem em Linda-a-velha, no concelho de Oeiras, onde hoje ocupa um edifício inteiro nesta freguesia. A Outsystems nasceu com a intenção de criar, implementar e gerir aplicações de “low-code”, como sites ou “apps”, em que não é preciso saber programação ao detalhe, ou saber falar “geek”. Em vez do código tradicional, a tecnológica usa um modelo que encaixa várias peças dentro do software. Por isso, a probabilidade de já nos termos cruzado com uma solução desenhada pela Outsystems é elevada. Atingiu o estatuto de unicórnio a 5 de junho de 2018, depois de um financiamento de 360 milhões de dólares, e com a Sonae no capital, tendo sido a segunda empresa portuguesa com esse título. Tem vários escritórios espalhados pelo mundo, desde os EUA, Países Baixos, França, Emirados Árabes Unidos, Austrália, Hong Kong ou Singapura, e em maio de 2025 ultrapassou 500 milhões de euros em receitas.Feedzai teve arranque difícil nos EUA, mas vai guardar o euro digitalTrês amigos e colegas de curso criaram a Feedzai em 2011, com o objetivo de bloquear fraudes financeiras. Nuno Sebastião, Pedro Bizarro e Paulo Marques instalaram a tecnológica portuguesa em Coimbra, assumindo o selo português a 100%, especialmente arriscando a internacionalização para os EUA em 2013, que só deu frutos em 2015 com a abertura de um escritório em Nova Iorque. Desde então, a tecnológica portuguesa tem vindo a crescer, exportando a sua solução para vários pontos do planeta, através de empresas. E a internacionalização também ajuda: em 2021 comprou a Revelock e em 2025 foi a vez da Demystdata. Foi também no ano passado que ultrapassou uma avaliação de dois mil milhões de dólares, depois de ter sido classificada como unicórnio em 2021, tendo ainda sido escolhida para guardar o euro digital de fraudes. Além da sede em Coimbra, e de escritórios em Lisboa e Porto, o unicórnio luso está ainda presente em Espanha, Reino Unido, Austrália, Hong Kong e já soma três espaços do outro lado do Atlântico.Tekever colocou drones portugueses no mapa e abriu asas lá foraFoi anunciada como o sétimo unicórnio português, em maio de 2025. Mas o seu percurso já vinha desde a mudança de século, quando Ricardo Mendes e Pedro Sinogas fundaram a Tekever. A empresa produz drones, e tem estado presente na guerra da Ucrânia com estes equipamentos. A sede está em Lisboa, onde trabalha a equipa de engenharia, mas tem outras quatro localizações em Portugal: Porto, Caldas da Rainha, Ponte de Sor e Atouguia da Baleia. Com expansão própria em território nacional, o unicórnio avançou para outras fronteiras. Em 2024 conseguiu um contrato para equipar a polícia espanhola e em 2025 saltou até França, onde vai construir um centro de excelência para criar drones para uso militar, isto depois de ter aberto uma unidade de I&D em Toulouse. Foi também no ano passado que adquiriu a Cocoon Experience, comprou um aeroporto no País de Gales e anunciou a quarta fábrica no Reino Unido com mil trabalhadores. Com investimentos de milhões, empresa terá apresentado receitas superiores a 115 milhões de euros em 2025.