PRÉMIO NACIONAL DE INOVAÇÃO
2026-03-12 22:06:28

Produtividade e tecnologia: o salto que continua por dar O desafio da produtividade em Portugal já não se explica apenas pela falta de tecnologia ou de financiamento. No debate promovido no âmbito do PNI, o foco esteve na dificuldade em escalar, executar e reter talento. Aeconomiaportuguesa continua a enfrentar um paradoxo recorrente. Apesar de dispor de talento qualificado, tecnologia e acesso crescente a capital, o país mantém níveis de produtividade inferiores à média europeia. A questão não é nova, mas ganha renovada urgência num contexto em quie a competitividade das economias depende cada vez mais da capacidade de transformar inovação em valor económico. Foi precisamenteessa transição, da ambição à execução, que marcou o debate dedicado ao temao da produtividade e tecnologia inserido na conferência de lançamento da quarta edição do Prémio Nacional de Inovação. Para Philoméne Dias, administradora executiva da AICEP,a forma como Portugal é visto pelos investidores internacionais oferece uma perspetiva relevante sobre a evolução do país. “De fora, muitas vezes há uma perceção melhor de Portugal do quie aquela que nós próprios temos”, afirmou. Segundo a responsável, os investidores estrangeiros tendem a avaliar o país sobretudo a partir de três fatores: talento, ecossistema e confiança institucional. “o investidor estrangeiro olha para Portugal como um destino de confiança que tem vindo a evoluir de forma positiva”, explicou. Se o talento e o ecossistema são fatores importantes, o financiamento continua a ser uma condição essencial para transformar inovação em crescimento económico. João Falcão, diretor executivo de Organização, Qualidade e Inovação do BPI, considera que o setor financeiro tem desempenhado um papel relevante no financiamento da inovação em Portugal. No entanto, identifica uima lacuna estrutural no sistema: o mercado de capitais. Segundo o responsável, a banca tem limitações naturais quando se trata de financiar projetos de elevado risco ou ainda numa fase ini-cial de desenvolvimento. “A banca tem um dever fiduciário para com osdepósitos dos clientes”, explicou. Por essa razão, muitos projetos mais imaturos dependem sobretudo de instrumentos de capital de risco our de financiamento especializado. “Falta-nos um mercado de capital de risco suficientemente desenvolvido para apoiar projetos menos maduros”, defendeu. Ao mesmo tempo, João Falcão sublinhou quie a inovação não acontece apenas em startups ou em empresas tecnológicas. “A inovação faz-se em todos os níveis da empresa”, afirmou. “Desde pequenas empresas até grandes organizações”. Inovação aplicada. Do laboratório ao negócio Anecessidade de transformar inovação em resultados concretos foi também sublinhada por Marlos Henrique da Silva, responsável de Digital & Inovação da MC. Segundo o gestor, a inovação nas gran-des empresas deve estar diretamente ligada ao impacto operacional e à criação de valor para o negócio. “Não é fácil escolher uma única tecnologia que tenha gerado mais retorno”, afirmou. “A inovação está presente em toda a cadeia de valor”. No caso do retalho alimentar, isso significa aplicar tecnologia em áreas muito diferentes, desde a produção e logística até à experiência loconsumidorna lojas. “A ciência, quando bem aplicada, traz resultados que são verdadeiramente disruptivos”, explicou. A Apesari disso, Marlos Henrique da Silva identifica um mobstáculor trutural ocrescimento das empresas portuguesas: “a falta de escala”. E considera quie Portugal funciona firequentemente como um lexcelente ambiente de teste para novas soluções tecnológicas, nasmuitasempresas têm dificuldade em transformari essas experiências em projetos de dimensão global. “Precisamosde empresas quie cresçam, que se tornem grandes e que se tornem globais” ,defendeu. Essa ambição é éparticularmente relevante nume contextod competição internacional cada vez mais intensa. “Temos talento e tecnologia”, afirmou. “Mas precisamos de olhar para fora”. Um dos riscos associados à àinovação nas organizações é a tendência para acumular projetos experimentais que nunca chegam à fase de implementação. Para Marlos Henrique da Silva, evitar esse problema exige uma ligação clara entre inovação e valor económico. “Inovação não é experimentar OuI fazer apenas provas de conceito”, afirmou. “Tem de estar ligada a valor para o negócio”. A experiência da MC ilustra bemessa lógica. Muitos projetos começamcomo ppequenos pilotos, mas só avançam se demonstrarem im-pacto real. Seexistirvalorde negócio, haverá naturalmente estímulo para escalar a inovação”, explicou. Caso contrário, as iniciativas acabam por ficar “na prateleira”, sem chegar à fase de implementação. Incentivos públicos, entre o potencial e a burocracia Outrodos temas centrais da discussão foio papel dos incentivos públicos. no apoio à inovação. Para Fábio Gomes, responsável pela transformação digital e marketing do FI Group, Portugal dispõe de instrumentos relevantes de financiamento, mas o sistema ainda apresenta fragilidades. “Portugal aproveita mal os incentivosi e, em algunsi casos, eles também não estão bem desenhados”, afirmou. Segundo o responsável, o país continua muitas vezes focado na geração de ideias, mas tem mais dificuldade em ransformares sas ideias em inovação efetiva. “somos muitas vezes um país mais de ideias do que de inovação”, ,explicou. Um dos problemas identificados é o desconhecimento por parte de muitas empresas sobre os instrumentos disponíveis. “Muitos empresários não sabem que podemi recuperar até 82,5% das suas despesas de investigação e desenvolvimento através do SIFIDE”, afirmoui. Para tentar reduzir esse déficede literacia, O FI Group lançourecentemente uma iniciativa destinada: explicar às empresas como fincionam os incentivos à inovação. “Percorremos o país de norte a sul para explicar às empresas como podem aceder a estes instrumentos”, explicou. Ainda assim, considera que existe margem para melhoraro desenho dos programas de apoio e aproximá-los das necessidades reais das empresas. A adoção de novas tecnologias, em particular da inteligência artifi-cial, foioutro dos temas abordados. Pedro Coelho, diretor-geral da HP Portugal, considera que a tecnologiajá atingiur um nível de maturidade suficiente para ser aplicada em larga escala. “A tecnologia está mais doquey pronta , afirmou. Overdadeiro desafio, diz o gestor, “éperceber como introduzir a inteligência artificial nas empresas e como utilizá-la para criarvalor”, explicou. Muitas organizações ainda estão numa fase de experimentação, tentando identificar os casos de uiso onde a ecnologia] pode gerarmaior impacto. Segundo Pedro Coelho, as empresas que conseguirem ultrapassar essa fase inicial terão uma vantagem competitiva significativa. Isso exige disponibilidade para experimentar, correr riscoso e testars soluções mesmo sem garantias imediatas de retorno. “é preciso estar disposto a fazer projetos piloto e a avaliarsoluções antes de saber exatamente qual será o retorno”, afirmoul. Mas o grande obstáculo surge depois dessa fase inicial, a capacidade de escalar a tecnologiadentrodas organizações. Setores surpreendem pela positiva Se a discussão sobre produtividade passa muitas vezes por uma leitura estrutural da economia portuguesa, Philoméne Dias procurou recentrá- la também naquilo que, já está a acontecer no terreno. Para a administradora executiva da AICEP, há vários setores a surpreender pela positiva no contexto internacional, tanto em áreas mais tecnológicas como em segmentos tradicionalmente associados à indústria portuguesa. O biofarmacêutico foi um dos primeiros exemplos apontados. Segundo aresponsável, trata-se de um setor emque Portugal jádemonstra capacidade de investigação, desenvolvimento e integraçãor em cadeias de valorinternacionais,d quiern nai inovação de produto, quer na inovação de processo. Entre os exemplos referidos estiveram empresas como: a Bial, mas também grupos internacionais que decidiram instalar no país equipas altamente qualificadas e operações de elevado valor acrescentado, como aAmgen, aAstraZeneca, a Ferring Pharmaceutical oul a Organon. A estas somam-se exemplos ligados à indústria automóvel, onde o país deixou de ser visto apenas como base produtiva para passar a acolher centros de engenharia e hubs de inovação. Philoméne Dias referiu, entre outros casos, a Bosch em Braga, a parceria entre a BMW, a Critical Software e a Universidade do Minho, bem como projetos desenvolvidos pela Continental Engineering ou pela Mercedes. Paraa responsável, o significado destes investimentos é particularmente relevante porque mostram que Portugal já não é procurado apenas como localização "nearshore”, mas omoparceiro tecnológico capaz de desenvolver soluções novas para mercados globais. Também no aeroespacial, acrescentou, surgem sinais de reforço da especialização, com empresas comoa Beyond Gravity, em Lisboa, oua a Open Cosmos, em Coimbra, a instalarem capacidade de engenharia no país. E mesmo nos setores mais tradicionais, como o têxtil eo calçado, a transformação também é visível. O erro como aprendizagem A questão do erro voltou ao centro do debate quando se discutiuatéque pontor épossível “despenalizar” o falhançoem empresas privadas, obrigadas a responder a critérios financeiros e operacionais exigentes. Marlos Henrique da Silva respondeu a partir da experiência da MC, insistindo na ideia de quie o erto só faz sentido se estiver a aproximar a empresa daresoluçãor do problema. “Não adoramos o erro”, afirmou, mas reconheceu quie faz parte do processo de aprendizagem, sobretudo quando se trabalha com tecnologias menos maduras ou mais próximas da investigação e desenvolvimento. Quanto mais disruptiva for a tecnologia, maior será a propensão ao erTo. à medida que essa tecnologia amadurece, aproxima-se de uma fase em que já pode ser implementada com uma proposta de valormais clara e mais facilmente traduzível em negócio. Daí a necessidade, insistiu, de garantir sempre um “duplo valor”: inovação comutilidade prática, mas também com sustentabilidade financeira. e Produtividade e tecnologia e Inovação e crescimento económico e Innovation stories &6 Portugal já não é visto apenas como uma localização competitiva, mas como um parceiro capaz de gerar valor, inovação e confiança. PHILOMéNE DIAS Administradora Executiva da AICEP Produtividade, escala, talento e execução estiveram no centro do debate que reuniu João Falcão, Marlos Henrique da Silva, Philoméne Dias, Fábio Gomes, e Pedro Coelho, para discutir os bloqueios e as oportunidades da competitividade portuguesa. &. A inovação não está confinada às startups ou à tecnologia. Faz-se em toda a organização, desde os processos até ao modelo de negócio. Joào FALCàO Diretor Executivo de Organização, Qualidade e Inovação do BPI &. Portugal continua a ser um excelente laboratório para testar soluções, mas tem dificuldade em transformar essa capacidade em escala global. MARLOS HENRIQUE DA SILVA Responsável de Digital & Inovação da MO &. O problema não é só a existência de incentivos. é também a burocracia, o tempo de resposta e a distância entre os programas e a realidade das empresas. FàBIO GOMES Responsável pela Transformação Digital e Marketing do FI Group &. Nas PME, a inteligência artificial não será uma opção durante muito tempo. Vai tornar-se uma condição de competitividade. PEDRO COELHO Diretor-geral da HP Portugal SUSANA MARVÃO