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O QUE APRENDI EM BRUXELAS?

Expresso Online

2026-03-13 22:09:16

Boa tarde! Nunca fui eurocético no sentido de defender o fim ou inutilidade da UE, longe disso; a UE é uma notável construção política, única na história. Mas sempre fui cético em relação ao “europeísmo” enquanto ideologia, enquanto visão do mundo que negava a história e o poder. Era e sou kantiano, e não podia aceitar a ética habermasiana do edifício mental da UE. Há sempre um certo irrealismo ou ingenuidade no europeísmo em relação à inevitabilidade dos choques da história; e assume-se que qualquer disputa pode ser resolvida numa conversa ou num congresso da academia. Nos últimos dias, numa visita guiada a esses corredores do poder da UE em Bruxelas, com outros colunistas portugueses, eu tentei ao máximo conter esta minha desconfiança e tentei ver a UE sem qualquer ideia pré-concebida, como se tivesse descoberto a UE agora mesmo. Depois destes dias entre a Comissão, o Conselho e a Representação portuguesa, acho que posso dizer uma coisa: tive sorte, porque também é evidente que este é o momento histórico em que a UE está a refazer a sua mente para se fazer à vida, isto é, para se fazer à história. Só podemos ser kantianos a jusante se controlarmos a montante o mundo de Hobbes. Como dizia um dos muitos responsáveis que ouvimos, a UE está neste momento na quinta e última fase do luto, a “aceitação”; a aceitação do regresso da história motivado pela agressão russa, pela imprevisibilidade de Trump e pelo jogo económico sujo da China. Primeiro tivemos a “negação” quando a Rússia invadiu a Geórgia e depois a Crimeia. Depois veio a “raiva” com o primeiro Trump, seguida da “depressão” com a invasão de 22 e com o regresso de Trump. Entre 22 e 25, tivemos a fase da “negociação”. E este louco 2026 acelerou a fase final, a “aceitação”. “Sim, isto mudou mesmo e nós temos de pensar e fazer coisas que julgávamos , erradamente , banidas da história”: julgo que este pode ser o mantra atual de Bruxelas. Uma cidade edificada na previsibilidade está a tentar reagir ao imprevisível. Nos primeiros dias da guerra, em 2022, os chefes de estado europeus discutiram seriamente durante horas se podiam enviar material não letal à Ucrânia (fardas, por exemplo). Chegados a 2026, a ajuda mede-se em mísseis, tanques, caças ou drones. É esta a medida da mudança positiva que fui encontrar em Bruxelas. Sim, por vezes os responsáveis da UE ainda parecem penosamente lentos a reagir, parece que estão a falar fora da história, numa utopia qualquer que não exige respostas urgentes aqui e agora. Por exemplo, parece-me penosa a forma como evitam falar de Israel como um aliado natural, como a Alemanha está a fazer. A Alemanha não se limita a defender Israel com declarações políticas, está a fazer uma parceria militar direta com Telavive. Ouvimos responsáveis europeus a planear a indústria europeia para a construção de mísseis intercetores no futuro próximo. Mas e agora? Nós precisamos desses mísseis agora: é por isso que a Alemanha está a comprar o sistema Arrow 3 aos israelitas. Porque é que a UE não começa por aí também? A Alemanha também vai comprar submarinos não tripulados e baseados em IA a Israel. Na nossa costa portuguesa, este sistema dava jeito, ou não? Nós precisamos aqui e agora de sistemas que funcionam, os drones, os mísseis intercetores, a guerra eletrónica. Há duas democracias em guerra que podem funcionar enquanto fornecedores destas tecnologias além dos EUA: Ucrânia e Israel. Fingir que Israel não existe ou que não é um aliado natural da Europa é um erro, e uma negação da realidade. Sim, tudo isto é verdade, mas há mudanças no sentido correto; destaco cinco, além do fornecimento de armas à Ucrânia. I. Em quatro anos, a dependência europeia do gás russo passou de 45% para 13%, o que é um esforço gigantesco e talvez pouco salientado. A Alemanha teve de refazer do pé para a mão todo o seu sistema energético. Digam-me outro país que capaz de fazer isto em tão pouco tempo e com tantos prejuízos associados? II. Por outro lado, é evidente que se começa a desenhar uma política militar comum; tal como há a PAC para a agricultura. Num futuro próximo teremos algo parecido na defesa, que começará por aqui: o Iris, sistema de satélites parecido com o Starlink de Musk. III. A outro nível, essa política de defesa está a ser pensada para evitarmos duplicações de meios. Parece-me claro que em breve teremos cada país ou região com funções específicas na área da defesa. Esta revolução mental na UE implica, por sua vez, uma revolução mental em cada nação, que tem de deixar de pensar o seu exército como se fosse uma unidade separada dos outros exércitos europeus. Um exemplo hipotético: se Portugal tem de investir na Marinha, não tem de investir em blindados, deixando isso para a Espanha ou República Checa. IV. Há ainda a consciência de que a agricultura não pode continuar a representar um terço do orçamento comunitário quando representa 1% do PIB europeu e quando há um mundo novo para enfrentar. Neste novo mundo, a UE pode enfrentar os desafios com uma estrutura orçamental assente no passado, no tempo em que a PAC era o alfa e o ómega? V. É por isso que o novo pacote de fundos que começa em 2028 (2028-34) está a ser pensado de forma diferente. Os fundos clássicos PAC e Coesão representavam 60%; agora vão representar 44%, porque a comissão quer desenvolver a competitividade de topo e/ou a indústria de defesa. Aliás, muitos responsáveis salientaram várias vezes uma nova modalidade de fundos: não serão atribuídos país a país num envelope fechado, mas sim com base no mérito do projeto; isso implica que cada país terá de pensar de forma diferente e terá de pensar em projetos que aliem competitividade económica e a indústria de defesa. Por exemplo, Portugal, se quiser ter acesso a este bloco novo de fundos, não pode pensar como fez no PRR. Não podemos espalhar dinheiro por tudo e por todos em milhares de pequenos projetos que se limitam a tapar buracos na máquina do estado. Temos de pensar, isso sim, em dois ou três projetos económicos diferenciadores, isto é, temos de pensar em clusters de empresas. Por exemplo, temos em Portugal um cluster emergente de drones: a Tekever, que já abastece o exército ucraniano com drones aéreos; uma empresa ucraniana a operar em Portugal e a fazer drones aquáticos. Se a isto associarmos uma empresa de topo como o CEiiA, temos um cluster que tem de ser apoiado e que já devia ter sido apoiado pelo PRR. Noutro campo, há outra questão muito interessante: a China. Os responsáveis europeus já perceberam também que estão numa corrida contra a China no campo económico e isso é assumido. De forma discreta, sim, mas assumido, porque já não há ilusões: a China estará sempre à margem das regras da globalização e à margem das regras europeias. Há uma urgência em atacar a concorrência desleal dos produtos finais da China, tal como há uma clara corrida para se conseguir noutras geografias matérias-primas chave que neste momento são controladas por Pequim. Se isto é uma clara fraqueza, há porém uma vantagem muito salientada: paradoxalmente, a lentidão da UE é um fator que atrai países para acordos comerciais (Mercosul, Índia, Indonésia, Malásia, só para citar alguns dos últimos tempos). Num mundo tão imprevisível, a lenta previsibilidade da UE é um fator de força política e de atração económica. Quem privilegia a economia de mercado (e, neste momento, nem China nem EUA estão numa lógica de mercado) vai procurar a UE. Vou só a meio do caderno de notas desta viagem; a segunda metade fica para a semana. Um abraço, Henrique PS: viajei até Bruxelas a convite da representação da Comissão Europeia em Portugal. Henrique Raposo Henrique Raposo