"O FUTURO DA MOBILIDADE NÃO SE ADIA NEM SE NEGOCEIA : O CAMINHO DA ELETRIFICAÇÃO DO SETOR
2026-03-19 22:06:03

“o futuro da mobilidade não se adia nem se negoceia”: 0 caminho da eletrificação do setor Impulsionada por metas climáticas ambiciosas, por uma indústria automóvel em profunda transformação e por uma infraestrutura de carregamento em rápida expansão, a mobilidade elétrica deixou de ser uma visão de futuro para se afirmar como uma realidade em consolidação. Entre a legislação europeia, a maturidade do mercado português e 0 investimento estratégico de fabricantes e operadores energéticos, desenha-se um novo ecossistema mais limpo e inteligente. Mas será possível a mobilidade ser 100% eletrificada? Amobilidade elétrica ocupa hoje um lugar central na agenda europeia da transição energética. Em 2024, os veículos 100% elétricos representaram cerca de um quinto das novas matrículas na União Europeia, um crescimento expressivo face à década anterior, quando o elétrico era ainda residual. No mesmo período, a Europa ultrapassou os 800 mil pontos de carregamento públicos, refletindo um investimento contínuo em infraestrutura e uma mudança estrutural no sistema de transportes. Este avanço é impulsionado por um enquadramento regulatório cada vez mais exigente. A União Europeia definiu como objetivo a redução de 55% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 e o fim da venda de automóveis novos com motor de combustão interna a partir de 2035. Paralelamente, os fabricantes automóveis europeus canalizaram centenas de milhares de milhões de euros para a eletrificação das suas gamas, desenvolvimento de baterias e reconversão industrial. Apesar dos progressos, a transição mantém desafios significativos. Persistem assimetrias entre estados-membros na adoção do veículo elétrico, na densidade da infraestrutura de carregamento e no acesso a incentivos. Ainda assim, a trajetória é clara: a mobilidade elétrica deixou de ser uma alternativa emergente para se afirmar como um eixo estruturante do futuro económico, industrial e ambiental da Europa. Posto isto, nesta reportagem, a Ambiente Magazine procurou entender perto dos profissionais do setor qual a sua posição sobre o futuro da mobilidade elétrica. A Volkswagen tem sido um dos protagonistas centrais na aceleração da mobilidade elétrica na Europa. Para Filipe Moreira, Diretor de Marketing da marca, o caminho passa por uma estratégia clara de democratização da tecnologia: “a Volkswagen sempre teve como missão tornar a tecnologia acessível a muitos, e isso mantém-se no centro da nossa estratégia elétrica", afirma. A família ID. é uma das gamas elétricas mais completas do mercado europeu, cobrindo vários segmentos e perfis de utilização, do compacto urbano ao SUV familiar. Esta ofensiva de produto é acompanhada por um investimento continuado em tecnologia e capacidade industrial. Em 2025, as vendas de modelos elétricos da Volkswagen na Europa cresceram cerca de 50% face a 2024, um desempenho que reflete não apenas a aceitação dos produtos, mas também a capacidade da marca para responder às expectativas dos consumidores. Para além do produto, a Volkswagen aposta numa visão integrada que conjuga eletrificação acessível, ligação emocional à marca e inovação funcional, como a integração de inteligência artificial no assistente de VOZ IDA. Também a Volvo Cars tem assumido uma posição particularmente clara e consequente nesta transição. Nuno Silva, CommercialDirector da Volvo Car Portugal, sublinha que a eletrificação não é tratada como um exercício isolado, mas como uma extensão natural dos valores históricos da marca. "Segurança, sustentabilidade e uma experiência humana simples e intuitiva continuam a estar no centro, agora reforçadas por tecnologia que funciona de forma discreta e eficaz no dia a dia”, explica. O novo Volvo EX60 materializa esta abordagem. Concebido de raiz como veículo elétrico e definido por software, o modelo combina autonomias que podem atingir OS 810 quilómetros com capacidades de carregamento ultrarrápido, procurando eliminar duas das principais barreiras à adoção do elétrico: a ansiedade de autonomia e o tempo de carregamento. Em paralelo, a Volvo investe numa nova fábrica na Eslováquia, concebida exclusivamente para produzir veículos 100% elétricos e operar com neutralidade carbónica, reforçando a autonomia industrial europeia num momento crítico de transição. Por sua vez, aPolestar posiciona-se como uma marca de mobilidade elétrica premium com uma missão claramente assumida desde a sua origem. Miguel Pinto, Diretor-Geral da Polestar Portugal, destaca a importância de uma abordagem integrada à sustentabilidade: “não procuramos produzir apenas veículos elétricos, mas garantir que todo o ciclo de vida é responsável, desde a escolha de materiais até à publicação anual do impacto climático de cada automóvel”. A estratégia desta marca assenta numa combinação entre design escandinavo, tecnologia avançada e transparência ambiental. A aposta passa por baterias com maior densidade energética e menor impacto ambiental, por software capaz de melhorar continuamente a eficiência e a performance dos veículos e por parcerias tecnológicas estratégicas. A colaboração com a Google, que permitiu a introdução pioneira do Android Automotive os, será reforçada com a integração do Google Gemini e do Google Maps Live LaneGuidance, soluções que prometem transformar a experiência de condução assistida. Esta centralidade do software reflete uma tendência estrutural na indústria automóvel, onde o veículo elétrico passa a ser entendido como uma plataforma tecnológica em evolução contínua, capaz de receber atualizações over-the-air e de prolongar o seu ciclo de vida útil, reduzindo a obsolescência e o impacto ambiental. Infraestrutura: o elo essencial da transição A expansão da mobilidade elétrica depende de forma decisiva da existência de uma infraestrutura de carregamento robusta, fiável e acessível. Operadores como a Iberdrola | bp pulse desempenham, por isso, um papel determinante. Para Ricardo Pacheco, Country Manager da lberdrola | bp pulse em Portugal, a mobilidade elétrica deixará de ser vista como alternativa para se tornar a escolha natural do dia a dia: "queremos que o ato de carregar um veículo seja perfeitamente integrado, inteligente e sustentável", afirma. Portugal destaca-se no contexto europeu como um dos mercados mais avançados na adoção da mobilidade elétrica. Em 2025, os veículos elétricos representaram cerca de 25% das novas matrículas e foram registados 8,8 milhões de carregamentos, um crescimento de 45% face a 2024. O país conta atualmente com cerca de 14 mil pontos de carregamento distribuídos por mais de 7 mil postos, evidenciando uma rede madura e de elevada capilaridade. A Iberdrola | bp pulse tem contribuído para esta evolução com investimentos significativos em carregamento rápido e ultrarrápido, incluindo hubs de elevada potência e soluções pioneiras a nível europeu. Ainda assim, persistem desafios estruturais. “A complexidade dos processos de licenciamento e a necessidade de coordenação com múltiplos stakeholders continuam a ser obstáculos relevantes”, admite Ricardo Pacheco, defendendo maior previsibilidade regulatória e simplificação administrativa. Legislação e o futuro da mobilidade elétrica Apesar do crescimento acelerado da mobilidade elétrica na Europa, os protagonistas do setor alertam para o risco de uma transição desigual, travada por constrangimentos estruturais, incerteza regulatória e decisões políticas contraditórias A eletrificação avança, mas não sem fricções, e o futuro dependera da capacidade de alinhar indústria, energia e políticas públicas numa visão de longo prazo. Para Nuno Silva, CommercialDirecton da Volvo Car Portugal, o risco não está apenas na ambição das metas europeias, mas na sua eventual fragilização: “a incerteza regulatória ou o adiamento de decisões estruturais não protege a indústria nem os consumidores: fragiliza o ecossistema e atrasa a transição", alerta. A Volvo defende metas claras e estáveis como condição essencial para sustentar o investimento industrial, nomeadamente em fábricas dedicadas exclusivamente a veículos elétricos, como a nova unidade em construção na Eslováquia. Também do lado da Polestar, a crítica é di-reta. Miguel Pinto, Diretor-Geral da Polestar Portugal, manifesta preocupação face aos sinais contraditórios emitidos por Bruxelas relativamente ao calendário da descarbonização: "a Europa não pode ficar agarrada a tecnologias obsoletas que prejudicam o meio ambiente", afirma, considerando que qualquer recuo nas metas para 2035 mina a confiança da indústria e atrasa decisões de investimento. Para a Polestar, metas claras e incentivos consistentes são mais eficazes do que mensagens ambíguas que geram hesitação no mercado: “o futuro da mobilidade não se adia nem se negocia”, clarifica o responsável. Para além da regulação, a maturidade do mercado levanta novos desafios. A mobilidade elétrica já não se resume à venda de veículos, mas à experiência global do utilizador. Ricardo Pacheco sublinha que o futuro passa por redes mais fiáveis, simples e inteligentes, onde o carregamento seja um gesto quotidiano, previsível e integrado. “Eliminar barreiras e criar uma rede de confiança é essencial para que a mobilidade elétrica deixe de ser vista como alternativa e passe a ser a escolha natural”, defende. O futuro da mobilidade elétrica joga-se também na cadeia de valor. A rastreabilidade dos materiais, a reciclagem das baterias e a economia circular surgem como temas incontornaveis. Miguel Pinto destaca o investimento da Polestar em transparência total sobre a pegada de carbono e na utilização de tecnologia blockchain para garantir práticas responsáveis ao longo da cadeia de abastecimento. Já a Volvo aposta em software e atualizações contínuas para prolongar a vida útil dos veículos e reduzir a obsolescência. O utilizador no centro da transição A medida que a mobilidade elétrica entra numa fase de maior maturidade, o debate começa a afastar-se da tecnologia em si para se concentrar na experiência real dos utilizadores. Autonomia, tempos de carregamento e custos deixaram de ser apenas argumentos técnicos para se tornarem fatores decisivos na relação quotidiana com o automóvel elétrico. Para os construtores, o desafio já não é apenas vender veículos, mas criar confiança num novo paradigma de mobilidade, a par dos operadores, que pretendem oferecer uma rede segura e viável. Filipe Moreira, Diretor de Marketing da Volkswagen, sublinha que a aceitação do elétrico depende cada vez mais da perceção de normalidade: “o nosso objetivo é que o cliente sinta que está simplesmente a conduzir um Volkswagen, não um produto experimental”, afirma. A aposta da mar-ca passa por integrar a tecnologia elétrica de forma transparente, sem exigir adaptações complexas por parte do utilizador. A acessibilidade económica surge, aliás, como um dos temas centrais desta nova fase. A Volkswagen assume a democratização do elétrico como prioridade estratégica, apostando em modelos que permitam alargar a base de clientes e acelerar a renovação do parque automóvel. Para Filipe Moreira, a eletrificação só será bem-sucedida se deixar de ser percecionada como um privilégio. “A escala é fundamental para tornar o elétrico verdadeiramente acessível", defende. Também a Volvo Cars coloca o foco na relação entre tecnologia e utilizador. Nuno Silvadestaca que a eletrificação veio reforçar uma tendência já existente: “os nossos veículos são cada vez mais definidos por software, o que nos permite melhorar continuamente a experiência do cliente ao longo do tempo", explica. Atualizações remotas, sistemas de assistência à condução mais avançados e interfaces simplificadas são vistos como elementos-chave para reduzir a complexidade e aumentar a confiança. Na Polestar, essa visão é ainda mais vincada. Miguel Pinto defende que o futuro da mobilidade elétrica passa por veículos que evoluem após a compra. “Um automóvel não deve ser um produto estático. Através de software e atualizações over-the-air conseguimos melhorar eficiência, desempenho e segurança sem substituir hardware”, afirma. Esta abordagem permite prolongar o ciclo de vida dos veículos e reduzir o impacto ambiental associado à produção. Outro tema emergente é o papel da informação e da literacia do consumidor. Para os diferentes protagonistas, persistem mitos e receios associados à autonomia real, à durabilidade das baterias e ao valor residual dos veículos elétricos. A experiência prática, aliada a uma comunicação clara, surge como a principal ferramenta para ultrapassar essas barreiras. "Quem experimenta um elétrico no dia a dia raramente quer voltar atrás", resume Nuno Silva. à medida que o mercado amadurece, começam também a ganhar relevância novos segmentos, como o mercado de usados elétricos e as soluções de mobilidade associadas a empresas e frotas. Estes fatores são vistos como essenciais para acelerar a adoção e tornar a mobilidade elétrica parte integrante da vida quotidiana, e não apenas uma escolha tecnológica. Mais do que uma rutura abrupta, os entrevistados descrevem o futuro da mobilidade elétrica como um processo de normalização. Um caminho em que a inovação tecnológica se torna invisível e em que o sucesso da transição dependerá, cada vez mais, da capacidade de colocar o utilizador no centro das decisões. Existe, no entanto, um ponto de convergência entre os diferentes atores: a eletrificação total da mobilidade urbana é vista como inevitável. As cidades concentram os maiores desafios ambientais e exigem soluções com zero emissões locais, menor ruído e maior eficiência energética. Para Nuno Silva, a experiência portuguesa demonstra que, quando existe alinhamento entre políticas públicas, indústria e infraestrutura, “a mobilidade elétrica deixa de ser uma utopia e passa a ser uma realidade". Inovação e indústria no centro da estratégia Para além da adoção do veículo elétrico e da expansão da infraestrutura, o futuro da mobilidade elétrica coloca a Europa perante um desafio estrutural: garantir capacidade industrial, inovação tecnológica e autonomia estratégica num mercado cada vez mais competitivo à escala global. A transição energética deixou de ser apenas uma questão ambiental para se tornar um eixo central da política industrial europeia. Filipe Moreira, Diretor de Marketing da Volkswagen, sublinha que a eletrificação representa uma oportunidade de reinvenção para a indústria automóvel europeia. "Estamos a falar de uma transformação profunda de toda a cadeia de valor, desde o desenvolvimento do produto até aos processos produtivos. Quem conseguir adaptar-se mais rapidamente terá uma vantagem competitiva clara”, afirma. Para o responsável, o investimento em plataformas elétricas dedicadas e em fábricas preparadas para esta nova realidade é determinante para assegurar escala e eficiência. Também a Volvo Cars encara esta fase como decisiva para o posicionamento europeu no setor automóvel. Nuno Silva, CommercialDirector da Volvo Car Portugal, destaca que a inovação tecnológica deve caminhar a par da responsabilidade industrial. “A eletrificação obriga-nos a repensar a forma como desenhamos, produzimos e atualizamos os veículos, mas também como gerimos recursos e reduzimos desperdício", explica. A aposta em arquiteturas modulares e em veículos definidos por software é vista como uma forma de aumentar a flexibilidade industrial e reduzir impactos ao longo do ciclo de vida. No caso da Polestar, a inovação surge associada à transparência e à diferenciação. Miguel Pinto, Diretor-Geral da Polestar Portugal, defende que o futuro da mobilidade elétrica passa por marcas capazes de demonstrar, de forma mensurável, o impacto das suas escolhas. “os consumidores estão cada vez mais informados e exigem dados concretos. A transparência deixa de ser um extra para se tornar um fator de confiança", afirma. A publicação detalhada da pegada de carbono de cada modelo e o recurso a novas tecnologias de rastreabilidade refletem esta abordagem. A pressão competitiva de outros mercados, nomeadamente da àsia, surge como pano de fundo inevitável. Para os diferentes protagonistas, a resposta europeia não passa por abrandar a transição, mas por reforçar o investimento em inovação, talento e capacidade produtiva. “A Europa tem know-how, marcas fortes e uma base industrial sólida. O desafio é transformar essa base em liderança tecnológica sustentável", resume Filipe Moreira. Neste contexto, a mobilidade elétrica assume-se como um teste à capacidade da Europa para alinhar ambição ambiental com estratégia económica. O sucesso desta transição dependerá da coerência das políticas públicas, da estabilidade regulatória e da capacidade de a indústria inovar sem perder competitividade. Mais do que uma corrida tecnológica, está em causa a definição do papel europeu num setor que continuará a ser central para a economia e para a mobilidade das próximas décadas. Segurança, sustentabilidade e uma experiência humana simples e intuitiva continuam a estar no centro.. Nuno Silva, Volvo Car Portugal ..queremos que 0 ato de carregar um veículo seja perfeitamente integrado, inteligente e sustentável.. Ricardo Pacheco, Iberdrola ..a Europa não pode ficar agarrada a tecnologias obsoletas que prejudicam o meio ambiente.. Miguel Pinto, Polestar A Europa tem know-how, marcas fortes e uma base industrial sólida. 0 desafio é transformar essa base em liclerança tecnológica sustentável.. Filipe Moreira, Volkswagen