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SETOR AUTOMÓVEL: O MARKETING ESTÁ A EDUCAR OU APENAS A SEDUZIR?

Executive Digest Online

2026-03-20 10:37:03

Opinião de Filipa Cício, diretora de Marketing do grupo BMcar O setor automóvel atravessa uma das mais profundas transformações da sua história. A pressão regulatória europeia, as metas ambientais cada vez mais exigentes e a aceleração tecnológica estão a redesenhar o produto, os processos industriais e o posicionamento das marcas. A eletrificação deixou de ser tendência para se tornar imposição estratégica. A neutralidade carbónica passou de visão aspiracional a compromisso calendarizado. Mas perante esta mudança estrutural impõe-se uma questão essencial: estará o marketing a educar o consumidor ou apenas a seduzi-lo com uma nova narrativa? Durante décadas, o automóvel foi promovido como símbolo de liberdade, desempenho e estatuto social. A comunicação era emocional, aspiracional e centrada no prazer de condução. Hoje, o discurso integra eficiência energética, pegada carbónica, circularidade de materiais, software inteligente e mobilidade conectada. O eixo mudou. No entanto, a complexidade técnica aumentou exponencialmente e o consumidor médio enfrenta uma avalanche de informação difícil de interpretar. Existe um risco evidente de simplificação excessiva. Expressões como “zero emissões” ou “100% elétrico” podem induzir perceções incompletas se não forem enquadradas no ciclo de vida total do veículo, na origem da energia ou na infraestrutura disponível. Num mercado cada vez mais informado e exigente, a superficialidade fragiliza a credibilidade. A confiança constrói-se com transparência, dados concretos e pedagogia consistente. O desafio é particularmente relevante num momento em que coexistem múltiplas tecnologias: motores de combustão mais eficientes, híbridos ligeiros, híbridos plug in e veículos totalmente elétricos. A decisão de compra tornou-se mais racional, comparativa e financeira. Custo total de utilização, incentivos fiscais, autonomia real, tempo de carregamento e valorização futura passaram a integrar a equação. O marketing já não pode limitar-se à emoção. Precisa de integrar literacia energética. Nos próximos anos, o setor terá de assumir um papel ativo na mudança de paradigma da mobilidade. Não se trata apenas de vender viaturas elétricas, mas de enquadrar o automóvel numa lógica mais ampla de mobilidade sustentável, integrada e inteligente. Cidades menos poluídas, infraestruturas adaptadas e consumidores conscientes exigem comunicação responsável e tecnicamente rigorosa. Neste contexto, o marketing deixa de ser exclusivamente persuasivo para assumir uma dimensão formativa. Eventos de proximidade, experiências de produto acompanhadas de esclarecimento técnico, conversas abertas sobre mitos e limitações reais são instrumentos fundamentais para reduzir barreiras psicológicas e acelerar a adoção. A tecnologia só se massifica quando é compreendida. A transição energética exige inovação industrial, mas também maturidade comunicacional. Porque o futuro da mobilidade não depende apenas do que é produzido nas fábricas, depende da forma como é explicado, interpretado e integrado na vida das pessoas. Seduzir pode gerar atenção imediata. Educar constrói confiança duradoura. E é essa confiança que determinará a velocidade real da transformação. Executive Digest