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SE OS DEMÓNIOS CONSEGUEM A PAZ, POR QUE FALHAMOS NÓS?

Sapo Online

2026-03-20 13:13:03

A Realpolitik “demoníaca inteligente” prefere a paciência infinita da vida diplomática à coragem impaciente da vida gloriosamente perigosa. Uma das frases mais irónicas, provocadoras e otimistas da imensa obra de Immanuel Kant encontra-se no seu grave ensaio sobre as condições da Paz Perpétua: “O problema da criação de um Estado, por mais difícil que possa soar, é solúvel até por um povo de demónios (se estes tiverem inteligência) ” (Zum ewigen Frieden, 1795; AA 8:366). Na secção dedicada à “garantia da paz perpétua”, Kant parece defender que a criação do Estado de Direito não pressupõe a existência de cidadãos moralmente bons. Assim, a construção histórica dos três níveis “racionalmente perfeitos” do Direito Público (o republicanismo, federalismo e cosmopolitismo pacificadores), ou seja, a consolidação jurídico-política da paz interna e externa dos Estados, obedeceria paradoxalmente a uma espécie de necessidade natural anti-entrópica, intrínseca à dinâmica instintiva da inteligência vital. Sem anular a liberdade e o dever humanos de estabelecer tais condições institucionais da paz, a própria natureza auto-organizadora das relações intra- e inter-nacionais conduziria inexoravelmente a progressiva realização do Direito Público. Esta inteligência da Natureza, mais orgânica e sócio-emocional do que estritamente cognitiva, mais profunda e eficaz do que a vontade humana autoconsciente, seria também um atributo dos tais demónios inteligentes que, não obstante a sua maldade radicalmente incurável, compreenderiam que a plena satisfação do desejo ou interesse privado de “viver bem” implica que o amor próprio seja pragmática e eficientemente flexível. Portanto, a inteligência sócio-emocional, ainda que demoníaca ou diabólica, i.e., absoluta e exclusivamente auto-interessada, revelar-se-ia perfeitamente capaz de construir e preservar a paz-do-Direito e o Direito-da-paz. Assim, se no paraíso dos anjos não haveria necessidade de Direito, no quasi-paraíso dos demónios não haveria necessidade de Ética! Porém, em ambos os paraísos, se fruiria uma paz inabalável. Para os povos humanos, a demonologia é mais pedagógica do que a angelologia: devemos, portanto, estudar mais a inteligência dos demónios do que a santidade dos anjos , e aprender humildemente. Os demónios kantianos não são sábios estóicos nem mártires cristãos. Ao invés, são imoralmente pacíficos, inteligentemente anti-belicistas! Não sofrem daquela febre militar cíclica que persegue o êxtase efémero da vitória e só reconhece a paz enquanto fruto da sua própria força vitoriosa e da rendição incondicional de outrem. Os jovens demónios inteligentes resistem ao fascínio da coragem militar e os seniores demónios inteligentes inibem-se de apelar à sublime dignidade e à atlética beleza da coragem militar que anseia por aventuras míticas em terras estrangeiras. Este pensamento anima a esperança na humanidade , ou talvez não tanto. Por um lado, se a paz for realizável por “demónios inteligentes”, podemos esperar que o desenvolvimento do Direito da Paz não dependa da realização do sonho desesperante de uma humanidade angélica. A imperfeição antropológica constitui talvez uma matéria-prima suficientemente boa! Contudo, por outro lado, se de facto a humanidade não é capaz de viver pacificamente, se só há paz intermitente, então somos piores do que um “povo de demónios inteligentes”! Felizmente, falta-nos a maldade hiperconsistente dos demónios, mas, infelizmente, falta-nos também a “inteligência obsessivamente demoníaca” da harmonização das liberdades: uma inteligência que ama a vida própria, mas simultaneamente compreende como o Direito Público salva as conexões entre as vidas de indivíduos e povos. Emerge a evidência simples que a segurança e a liberdade da vida própria vulnerável exige a segurança sistémica e a liberdade harmónica de todas as vidas. A Realpolitik “demoníaca inteligente” prefere a paciência infinita da vida diplomática à coragem impaciente da vida gloriosamente perigosa. Em suma, a humanidade é um povo de demónios caoticamente altruístas, mas ordenadamente idiotas. A relativa abundância de sensibilidade ética espontânea (e.g., a inquietação pelo sofrimento arbitrário da guerra) e a relativa carência de inteligência política sensível (e.g., a imaginação das infinitas e laboriosas possibilidades de paz) convertem a história no teatro mais absurdo imaginável: guerra perpétua intermitente pela cega paixão da paz da vitória. Paulo Jesus, Universidade Portucalense SAPO