FROTA - B. BRAUN FISCALIDADE, INFRAESTRUTURA E COMPORTAMENTO DOS CONDUTORES PESAM TANTO COMO TECNOLOGIA - ENTREVISTA A RICARDO SANTOS
2026-03-23 22:09:05

F B. BRAUN PORTUGAL JÁ NÃO SE GEREM SÓ VIATURAS, GERE-SE RISCO Na gestão de frota da B. Braun, a transição energética é um processo pragmático, faseado e profundamente ligado à realidade operacional da empresa.com cerca de 100 veículos em circulação, a B. Braun desenha uma estratégia de mobilidade em que fiscalidade, infraestrutura e comportamento dos condutores pesam tanto quanto a tecnologia Aeletrifcação da frota da B. Braun Portugal não começou pelos automóveis, mas pela preparação do terreno. Antes de aumentar o número de veículos eletrifcados, a empresa investiu na infraestrutura, garantindo que os seus edifícios e localizações estavam preparados para suportar essa mudança. Decidir sobre quais as tecnologias a adotar (elétricos movidos exclusivamente a bateria ou os plug-in) foi sempre algo baseado numa análise pragmática de TCO, fscalidade e, sobretudo, da adequação ao perfl real de utilização das viaturas. Ricardo Santos, gestor de frota e coordenador de Procurement da B. Braun Portugal, afasta-se de discursos minimalistas e defende uma transição energética ajustada à realidade nacional, consciente das limitações atuais da rede e da importância de alinhar tecnologia, processos e pessoas. Em entrevista à FLEET MAGAZINE, explica como se desenrolou (e está a desenrolar) o processo de eletrifcação da B. Braun, construído passo a passo. Refete ainda sobre o papel determinante dos modelos plug-in (PHEV) na operação da empresa e debruça-se sobre os limites atuais da infraestrutura de carregamento e sobre aquilo que considera ser um dos maiores custos invisíveis da mobilidade elétrica: o tempo do colaborador. Quando assumiu a responsabilidade pela frota da B. Braun, há sete anos, qual foi o primeiro pensamento que teve? Houve algum momento em que pensou que esta seria uma tarefa mais difícil do que aquela que esperava? Claramente. Uma coisa é gostar de carros, outra é assumir a responsabilidade pela gestão de uma frota com mais de 100 viaturas num contexto corporativo. A partir desse momento, os pensamentos passam a ser muito mais responsáveis e estruturados. Deixa-se de se adotar uma lógica de curto prazo e passa-se a gerir pensando a médio e longo prazo: que sistemas existem, o que é preciso montar para monitorizar a frota, como garantir controlo e previsibilidade, etc.. E, acima de tudo, como garantir uma articulação muito próxima com os departamentos internos, nomeadamente os Recursos Humanos (RH), porque a frota não é apenas um ativo fnanceiro, é um instrumento de trabalho para as pessoas. Falou de uma interação com os RH, mas há também uma interação com o departamento de Procurement... Neste momento acumulo a responsabilidade de coordenação da área de Procurement com a gestão da frota, em conjunto com uma colega de equipa. Assumo também o papel de coordenador do Controlling Financeiro. Isso dá-me uma visão transversal do impacto que cada decisão de frota tem: desde a escolha do carro, passando pelo enquadramento fscal, até ao refexo direto no orçamento e na perceção dos colaboradores. A frota cruza várias áreas e é muito difícil geri-la efcazmente sem uma visão integrada. E de que forma é que o Procurement se articula com a gestão de frota dentro da B. Braun? A articulação é bastante simples e começa logo na fase de renovação da frota. É no Procurement que fazemos o levantamento das necessidades internas da empresa. Os RH entram na equação com a tarefa de defnir os requisitos associados às funções e perfs dos colaboradores e, paralelamente, fazemos a ponte com o Departamento Financeiro para perceber os impactos fscais e orçamentais dessa renovação. Tudo isto acontece antes de qualquer decisão de aquisição, precisamente para evitar escolhas isoladas ou desalinhadas. Há aqui uma grande articulação entre departamentos na escolha de um (ou vários) carro(s). No caso da eletrifcação, foi uma decisão óbvia ou houve muita discussão interna? A eletrifcação já vinha a ser sinalizada há algum tempo. Tínhamos uma frota 100% diesel e isso deixou de fazer sentido, tanto do ponto de vista ambiental como estratégico. O tema foi sendo introduzido de forma gradual junto dos vários departamentos. Fomos preparando o terreno para essa transição. Desde 2023 que intensifcámos o contacto com as marcas para percebermos melhor em que ponto se encontra o mercado: quais as autonomias elétricas reais, de que forma se comportam os modelos na estrada e também a adequação desses mesmos modelos às nossas necessidades. Foi um trabalho prévio essencial para entender as viaturas que, atualmente disponíveis no mercado, podem representar a imagem da B. Braun e, ao mesmo tempo, trazer benefícios claros: redução de emissões, alinhamento com a estratégia do grupo (redução das emissões de CO2 em 50% até 2030) e efciência operacional. E quem é que foi mais difícil de convencer? A gestão? As áreas operacionais? Os utilizadores dos próprios veículos? Foi necessário um trabalho mais profundo com os RH, porque qualquer mudança afeta pessoas. E quando afeta pessoas, temos de ter cuidado redobrado. O grande desafo foi preparar essa mudança sem criar ansiedade ou receios nos colaboradores. Trabalhámos muito com os RH para decidir a melhor forma de comunicar, de explicar o que aí vinha e de garantir que a transição não iria impactar negativamente o dia-a-dia profssional das pessoas. 75% da vossa frota já está eletrifcada. Há algum tipo de utilização onde o 100% elétrico ainda não funciona dentro da B. Braun e é preciso assumi-lo? Sim, é preciso assumir isso com naturalidade. Um delegado comercial, por exemplo, continua a estar mais limitado na utilização de uma viatura 100% elétrica (BEV). Existem dois fatores principais: por um lado, os valores de aquisição ainda não nos permitem oferecer viaturas elétricas com a autonomia e conforto que transmitam confança para o dia-a-dia de um delegado comercial. Por outro lado, há um obstáculo cultural, alimentado pelo benchmark que te-mos de outras empresas, que continuam a levantar questões tão simples como “tempo de carregamento” ou “ansiedade de autonomia”. E como é que a B. Braun contraria, se é que o está a fazer, esse ciclo? Estamos a fazer uma progressão gradual, em várias fases. A primeira foi dotar os nossos edifícios e localizações geográfcas com carregadores elétricos. Na sede, em Queluz de Baixo, concentramos o maior número de carregadores, porém este investimento não fca por aqui. 2026 começou já com a entrada de novos carros elétricos, o que nos obriga a reforçar a infraestrutura. Optámos exclusivamente por carregadores de 7,4 kW, por considerarmos que é a solução mais equilibrada para o nosso contexto. E na casa dos colaboradores? Existe algum projeto para executar? É um projeto que está em análise este ano. Não quisemos apressar essa decisão porque, neste momento, apenas cerca de 5% da nossa frota é composta por modelos BEV. Contudo, em 2026 vamos aumentar essa quota para 10% e será esse crescimento que nos vai obrigar a pensar de forma mais estruturada na melhor solução para o carregamento doméstico dos veículos dos nossos colaboradores. Que promessa da mobilidade elétrica é que ainda não se confrmou na prática? Diria que a infraestrutura. Está cada vez mais adaptada às necessidades, mas ainda sentimos falta de uma rede mais robusta. Acreditamos que, no biénio 26-27, comecem a surgir os grandes hubs de carregamento. Essa é, neste momento, a promessa que sentimos ainda estar por cumprir. Olhando para os modelos BEV e PHEV e para o impacto que este tipo de viaturas tem numa frota, em que momento perceberam que a análise do TCO deste tipo de modelos fazia absoluto sentido na B. Braun? Aqui temos de ser muito honestos: a decisão foi muito infuenciada pela fscalidade. Os PHEV continuam a benefciar de uma taxa reduzida de Tributação Autónoma, o que tem um impacto enorme numa frota com a nossa dimensão. Esse efeito fscal refete-se em todos os encargos associados à viatura e torna o cálculo comparativo muito mais favorável. Onde acha que reside o maior custo invisível da frota? No tempo do colaborador. Esse é, sem dúvida, o nosso maior ativo. O tempo que os colaboradores gastam com a viatura, seja em deslocações adicionais, seja em processos associados ao carregamento, raramente é contabilizado de forma direta. No entanto, através dos relatórios que analisamos, conseguimos perceber esse impacto e demonstrar internamente que esse custo existe. Muitas decisões são tomadas com base no que é facilmente mensurável: preço da viatura, combustível ou energia, manutenção... Mas só mais tarde se percebe que há custos invisíveis, sobretudo no caso dos BEV, que têm impacto direto na produtividade e na organização do trabalho diário. Sente que as empresas portuguesas estão hoje mais bem preparadas para gerir frotas eletrifcadas? A B. Braun está a formar condutores? Ainda não, mas está nos nossos planos. Temos algumas iniciativas pensadas. Uma delas é fazer um ranking, por função, dos colaboradores que conseguem uma maior poupança energética. Um delegado comercial tem um tipo de deslocação diferente, além de que o tempo que passa no escritório também conta , carregar o veículo na sede é um ponto fundamental para ter um veículo mais efciente. O downtime do carro é atenuado e todos ganham, o gestor e o colaborador. O que é que ainda está mal resolvido em Portugal no tema do carregamento elétrico corporativo? Diria que é o conforto de uma empresa dar aos seus colaboradores a possibilidade de carregarem o seu veículo em casa. Se um colaborador tem em mãos um carro que lhe permite reduzir drasticamente consumos, a empresa tem de arranjar uma solução para que o possa carregar convenientemente. Tanto a B. Braun como outras empresas no mercado enfrentam esta difculdade em fornecer uma solução integrada. Considerando agora o papel do gestor de frota. Considera que o gestor de frota é um gestor de riscos? Associo muito os riscos à segurança dos colaboradores quando utilizam as viaturas da frota da B. Braun. Tentamos ao máximo, mediante workshops que vamos realizando, alertar para os perigos, para os tipos de condução e para os tipos de sinistralidade que existem. No entanto, descansa-me saber que temos vindo a adquirir viaturas bem equipadas tecnologicamente, com sistemas de assistência e apoio à condução que são agora muito mais evoluídos. Estar em segurança é uma mais-valia, e isso deve-se também, em parte, ao carro, que é o braço direito do colaborador na estrada. Mas sim, respondendo à sua questão, já não se gerem só viaturas, gere-se risco. E que novos riscos é que surgiram com a eletrifcação que antes não existiam? Para começar, elétricos. Ter esta quantidade de carregadores na garagem de uma empresa implica ter confança na instalação e robustez da infraestrutura. Identifco também o risco fnanceiro. Se não conseguirmos monitorizar a nossa frota e ir alertando os condutores para os tipos de carregamento que estão a fazer na via pública e para o tipo de utilização que fazem do veículo, então estaremos a incorrer num risco fnanceiro. Têm todas as vossas viaturas em renting. A previsibilidade continua a ser o maior valor do renting, numa frota eletrifcada? Sim. Tenho muita confança nessa previsibilidade e nessa manutenção de custos equitativos.com uma boa gestão de frota, próxima dos colaboradores e com um custo standard, acabamos por ter acesso a um budget preciso, que nos diz exatamente quanto vamos gastar numa renovação de frota, por exemplo.com essa informação partimos para uma gestão muito mais assertiva. Qual será a próxima grande disrupção na gestão de frotas? Será tecnológica ou regulatória? Regulatória. Acredito que vivemos tempos de boas práticas, mas estas não se mantiverem no futuro, acabaremos por ter de ser regulados de uma forma mais extrema do que aquela a que estamos atualmente sujeitos. No vosso meio seria praticamente impossível, mas faço-lhe a pergunta na mesma: é possível que o automóvel venha a deixar de ser o centro da mobilidade corporativa? É possível que na B. Braun se adotem outras soluções de mobilidade? Muito difcilmente. Não digo que não seja importante passar uma mensagem de mobilidade diferente, e esse até pode ser um desafo que podemos lançar internamente nos próximos anos. A nossa rede nacional de transportes está melhor, mas ainda não é sufciente. O carro continua a ser o ativo principal. E daqui a cinco anos o que é que vai parecer ingénuo nas decisões que estamos hoje a tomar em termos de gestão de frota? Estaremos a aproximar-nos ainda mais da realidade 100% elétrica. Acredito que é um desafo mais realista, tendo em conta a informação de que dispomos atualmente. As autonomias estão a ser trabalhadas para várias categorias de modelos automóveis, e sentimos mesmo que o próprio mercado entende esta nova necessidade e vai acompanhá-la. Se tivesse de resumir toda a vossa experiência com a eletrifcação da frota, como o faria? Encontrámos alguns obstáculos à mudança. Sentimos que as pessoas ainda têm algum receio em ter de usar um carro elétrico e depois o terem de carregar. Mas com tempo, formação e uma integração da mobilidade elétrica no quotidiano, chegarmos a bom porto. O que queremos fazer é melhorar a qualidade de vida dos nossos colaboradores, e isso liga-se completamente à nossa missão de melhorar e proteger a vida das pessoas. Em que medida é que a frota automóvel representa um ativo estratégico para a operação da B. Braun? A nossa frota automóvel é muito mais do que uma frota. É a nossa imagem, representa as nossas pessoas que estão em constante movimento. Queremos segurança e conforto nas viaturas, mas queremos também que os nossos colaboradores sintam que os investimentos que fazemos numa renovação de frota são focados neles mesmos. Sim, há um lado fnanceiro, mas todo o trabalho de renovação de frota é feito tendo por base estes dois alicerces: a satisfação dos colaboradores e a os impactos fnanceiros que a renovação terá para a empresa. O DESAFIO DA ELETRIFICAÇÃO FOI PREPARAR A MUDANÇA SEM CRIAR ANSIEDADE NOS COLABORADORES RAIO-X 108 N.º TOTAL DE VIATURAS (LIGEIROS DE PASSAGEIROS) 100 % DE VIATURAS ELETRIFICADAS (BEV E PHEV) 5.000 kW ELÉTRICO 12.000 l COMBUSTÃO INTERNA CONSUMO MENSAL DA FROTA (POR TIPO DE ENERGIA) 260.000 km QUILÓMETROS MENSAIS PERCORRIDOS PELA FROTA 35% % DE REDUÇÃO DE EMISSÕES DE CO2 JÁ CONSEGUIDA DESDE O INÍCIO DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA DA FROTA 12 MESES IDADE MÉDIA DA FROTA Renting MODELO(S) DE FINANCIAMENTO/AQUISIÇÃO DA FROTA GEOLOCALIZAÇÃO Cada viatura tem a sua Geolocalização através da app Mercedes e só é visível pelo colaborador INVESTIMENTO PREVISTO EM FROTA ELÉTRICA PARA FUTURO "A B. Braun prevê ainda este ano aumentar o seu investimento em viaturas 100% elétricas, com a aquisição de mais 8 viaturas, reforçando o nosso compromisso com a mobilidade elétrica. Na próxima renovação, algumas das viaturas que hoje são híbridas plug-in serão consideradas na análise da transição para viaturas 100% elétricas, com o objetivo de atingirmos 25% da frota 100% eletrificada".com uma abordagem pragmática e faseada, a gestão de frota da B. Braun indica que a transição energética não é feita por impulso, mas com planeamento, dados e atenção às pessoas. Uma visão onde tecnologia, fiscalidade e operação caminham de mãos dadas e onde o tempo assume um papel central no verdadeiro custo da mobilidade corporativa. O MAIOR CUSTO INVISÍVEL DA FROTA ESTÁ NO TEMPO DO COLABORADOR A NOSSA FROTA É MAIS DO QUE UMA FROTA, É A NOSSA IMAGEM E REPRESENTA AS PESSOAS Ricardo Santos