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TARIFAS DE TRUMP ESTÃO A DESTRUIR RENTABILIDADE DOS CONSTRUTORES EUROPEUS

Razão Automóvel Online

2026-03-23 22:09:07

O impacto das tarifas norte-americanas poderá aumentar este ano, à medidas que as taxas parecem consolidar-se como a nova realidade O impacto das tarifas norte-americanas poderá aumentar este ano, à medida que parecem consolidar-se como a nova realidade. Quando Donald Trump voltou a assumir a liderança dos EUA, em janeiro do ano passado, a indústria automóvel europeia aguardava com cautela as consequências da sua política comercial. Um ano depois, os números estão à vista. A Automotive News Europe estima que as tarifas tenham tido um impacto de cerca de 6 mil milhões de dólares (aprox. 5,2 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) no setor, apenas no ano passado. Mas para 2026, a perspetiva é ainda mais sombria. O impacto concreto das tarifas, contudo, é difícil de determinar, uma vez que a maioria dos construtores mostraram-se indispostos a partilhar com os investidores os custos totais das tarifas comerciais. Construtor a construtor Um dos poucos construtores a divulgar, de forma mais clara, o impacto real das tarifas nos seus resultados foi o Grupo Volkswagen, que viu os seus lucros reduzidos em 2,9 mil milhões de euros. A Audi suportou o maior encargo (1,2 mil milhões de euros), seguida da Volkswagen (900 milhões de euros) e da Porsche (700 milhões de euros). A razão é estrutural, porque a maioria dos automóveis vendidos pelo Grupo VW nos EUA é fabricado na Europa ou no México e depois exportado, aumentando a vulnerabilidade a qualquer barreira aduaneira. A BMW não revelou um valor absoluto, divulgando apenas que as tarifas reduziram a margem de lucro EBIT (antes de juros e impostos) em cerca de 1,5 pontos percentuais em 2025. O que pode implicar um impacto de aproximadamente 1,4 mil milhões de euros em 2025 e que poderá ser de 1,2 mil milhões de euros neste ano. A Mercedes-Benz revelou apenas que a margem ajustada sobre as vendas da divisão automóvel caiu para cerca de 5% em 2025, contra 8,1% no ano anterior - uma queda que atribui não só às tarifas, mas também a variações cambiais, pressão sobre os preços e queda nos volumes. A Mercedes-Benz já possuía um grande stock de veículos nos EUA quando as tarifas entraram em vigor. A marca alertou que os custos podem ser maiores este ano. A Volvo, por sua vez, anunciou um impacto líquido de cerca de mil milhões de coroas suecas (cerca de 92 milhões de euros), após a adoção de medidas para compensar os custos. Já a Stellantis, avançou que as tarifas norte-americanas custaram ao Grupo cerca de 1,2 mil milhões de euros, no ano passado. Por fim, o diretor-financeiro da JLR, Richard Molyneux, avançou que o Grupo teve de pagar 410 milhões de libras (aprox. 473 milhões de euros) em tarifas comerciais desde abril do ano passado. Uma perturbação temporária? Segundo Arno Antlitz, diretor-financeiro do Grupo Volkswagen, “as tarifas vieram para ficar”. A frase do responsável resume o sentimento crescente no setor. Cada vez mais construtores abandonam a ideia de que se trata de uma turbulência passageira e passam a encarar as tarifas como um dado estrutural, com implicações diretas nas decisões de investimento e localização da produção. São cada vez mais os construtores a alertar para o facto de não conseguirem lucrar mais com certos modelos exportados para os EUA, pressionando o presidente norte-americano para um alívio nas tarifas. Este ano, espera-se um agravamento do impacto. A Stellantis, por exemplo, prevê um impacto adicional de 1,6 mil milhões de euros. © Alfa Romeo A Stellantis exporta em pequeno número para os EUA modelos da Maserati, Alfa Romeo e FIAT. A empresa sofreu um grande impacto tarifário sobre os veículos fabricados no México e no Canadá destinados à exportação para os EUA. No verão passado, a União Europeia e os EUA chegaram a um entendimento comercial, contudo, a conclusão do acordo ficou bloqueada depois de Trump ter ameaçado anexar a Gronelândia, no início deste ano, arrefecendo as relações transatlânticas. O Parlamento Europeu deverá ratificar o texto em breve. Possíveis soluções Entre as soluções em discussão está um novo enquadramento comercial que permitiria às marcas exportar veículos produzidos nos EUA para a Europa sem tarifas. Para grupos como Volkswagen, Stellantis, BMW e Mercedes-Benz, que também dependem da produção no México e no Canadá, uma isenção alargada seria um trunfo determinante. Mariana Teles