ARQUITECTURA - ´MUZEU´ É O RESULTADO DA SOMA DAS VÁRIAS RELAÇÕES
2026-03-25 22:09:28

CULTURA Numa altura em que nas cidades se trocam edifícios vazios por hotéis e alojamentos turisticos, nasce em Braga um contraponto inspirador: o Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea dst. Um projecto privado, impulsionado pelo dstgroup e desenhado pelo arquitecto bracarense José Carvalho Araújo, que transforma o antigo Tribunal Judicial num espaço vivo de cultura, reflexão e encontro. Este novo equipamento não é apenas um museu: é um gesto de resistência cultural, um convite à cidade para dialogar, debater e sonhar em conjunto A relação do grupo dst com Braga é intrinseca. O grupo empresarial dá muito mais que trabalho às suas gentes, antes aponta novos rumos, inova competências e imiscuía-se na génese e cultura local enriquecendo-a e transportando longe. A partir de Abril esta relação intensifica-se com a abertura do Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea dst, um novo equipamento dedicado à arte contemporânea, à filosofia, mas também ao debate, à cultura, ao crescimento do Homem. O Muzeu irá albergar a vasta colecção de arte contemporânea que o presidente do grupo, José Teixeira, tem vindo a coleccionar ao longo das últimas quatro décadas. Ao todo a colecção integra mais de 1500 obras, de 240 artistas nacionais e internacionais, com Manuela Sousa Guerreiro Fotos: Hugo Delgado / Muzeu / DR nomes como Pablo Picasso, Anselm Kiefer, Nan Goldin, Richard Long ou Paula Rego, Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis ou Julião Sarmento, entre muitos outros. Este primeiro ciclo de programação inclui uma centena dessas obras. O programa “Abrir Abril", que se inicia a 23 de Abril tem no seu centro a exposição "Sejamos realistas, exijamos o impossível”, assinalando o aniversário da Revolução de Abril e o momento de ruptura e transformação do país. O edifício que dá corpo ao novo equipamento cultural assume ele próprio parte do protagonismo. Resultado da reabilitação/ transformação do antigo Tribunal Judicial de Braga pela mão do arguitecto bracarense José Carvalho Araújo. Um projecto cujo conceito assentou em duas premissas: “Uma ambição de cidade” e “memória e composição”. “De tribunal só há memória. Durante muitos anos foi um lugar de decisão e autoridade, e o desafio foi perceber como abrir esse espaço à arte ao público. O importante era perceber como é que o edifício podia participar mais na cidade, passando de espaços fragmentados para um edifício mais disponível e criativo. Essa transformação fez-se através de uma simplicidade espacial, funcional e construtiva”, resume o arquitecto José Carvalho Araújo. O programa institucional, num edifício que sempre o foi, para mais dedicado à cultura, numa altura em que hotéis e alojamentos locais tomam conta dos edifícios abandonadas das cidades, coloco um desafio acrescido. “o desafio desta intervenção não cabe em si apenas na definição do programa, mas na forma como o projecto expressa a intenção de estabelecer uma forte relação com a cidade". Uma dupla função, que Ihe confere uma identidade própria, como admite Carvalho Araújo. Tem de ser a primeira obra de arte do museu, disponível para dialogar, tanto com as obras [de arte] como com a cidade”, afirma. PRESERVAR A MEMÓRIA O diálogo com a cidade faz-se desde logo preservando a sua história. Situado numa zona de protecção arqueológica, que os trabalhos arqueológicos confirmaram com a identificação de um troço da muralha baixo-medieval de Braga (cerca fernandina), construída no final do século XIV e que atravessa transversalmente o edifício. “Intervir num edifício destes não é uma questão de vontade, há coisas que simplesmente não se podem fazer”, defende o arquitecto. Por isso, “preservámos tudo o que existia: fachadas e muralha” Acresce que “a muralha não foi descoberta, era uma evidência. Em vez de a encarar como uma condicionante sensível do projecto, tirámos partido da essência desse elemento. Funciona como a transição entre a zona de entrada e os espaços expositivos. Para além de fazer parte da experiência do espaço, lembra que a cidade é construída por camadas sucessivas de tempo, muito anteriores ao próprio tribunal”, refere Carvalho Araújo. “DE TRIBUNAL Só HÁ MEMóRIA. DURANTE MUITOS ANOS FOI UM LUGAR DE DECISÃO E AUTORIDADE, ? O DESAFIO FOI PERCEBER COMO ABRIR ESSE ESPAÇO à ARTE AO PuBLICO. O IMPORTANTE ERA PERCEBER COMO é QUE ? EDIFÍCIO PODIA PARTICIPAR MAIS NA CIDADE, PASSANDO DE ESPAÇOS FRAGMENTADOS PARA UM EDIFÍCIO MAIS DISPONÍVEL ? CRIATIVO. ESSA TRANSFORMAÇÃO FEZ-SE ATRAVÉS DE UMA SIMPLICIDADE ESPACIAL, FUNCIONAL ? CONSTRUTIVA", RESUME ? ARQUITECTO JOSÉ CARVALHO ARAuJO Mantiveram-se as fachadas do edifício “que definem a presença do mesmo na cidade”, com o novo projecto a desenvolver-se no seu interior. Mas, como salvaguardo o arquitecto “manter as fachadas não significa congelar o edifício no tempo. O projecto constrói-se a partir de três ideias: disponibilidade, diálogo e respeito. Disponibilidade para a nova função, diálogo com a cidade e a vizinhança, e respeito pela memória do lugar”, argumenta. ASSUMIR UMA NOVA FUNçàO No interior surge todo um edifício novo. “No museu procurou-se acentuar a importância do movimento na arquitectura, organizando o edifício a partir de uma escada central que liga todos os pisos e conduz o visitante até ao topo. A escada é dupla, é pública e simultaneamente de emergência, e torna-se o elemento central do edifício", descreve Carvalho Araújo. Se na anterior função o percurso era imposto, a nova função “devolveu-lhe essa liberdade”. O programa desenvolve-se em quatro pisos, mais um abaixo da cota de soleira. Os espaços expositivos desenvolvem-se do-1 ao 3, situando-se o auditório, com capacidade para 145 lugares sentados, no último piso. No-1 os artefactos arqueológicos, preservados e cobertos por pavimento de vidro, dão continuidade ao espaço expositivo. O piso 1 conta, para além de uma grande “praça expositiva”, de espaço de recepção/bar, loja, esplanada exterior. Os pisos 2 e 3 contam ainda com espaços complementares como sala multimédia e escritórios da administração. Que papel desempenha a luz natural na experiência expositiva do Muzeu? “A luz natural foi trabalhada com cuidado de forma a garantir boas condições para as obras. No nível superior, onde o auditório se abre através de um grande envidraçado, introduz-se outra vivência do espaço. é importante a luz que entra, mas também a que o museu devolve à cidade. é a alma do museu”, sublinha José Carvalho Araújo. EDIFíCIO GANHA ESTATUTO PRIMEIRO DE “OBRA DE ARTE” Este é um projecto que é a soma de relações: do grupo industrial com a cidade, da arquitectura com o património histórico, do edifício com a arte, do arquitecto com o mecenas. “Mais importante do que a colecção é fazer parte de um projecto de vida de um amigo. O edifício é a peça da colecção. A peça de todos e para todos. Procura manter essa relação entre produção, trabalho e pensamento, criando espaços disponiveis, capazes de receber diferentes usos. A atmosfera interior vai buscar inspiração a esse contexto mais industrial de cumplicidade com o mecenas”, explica José Carvalho Araújo. Mais do que um "contentor" neutro para a arte esta obra procurou a sua própria identidade. Tem de ser a primeira obra de arte do museu, disponivel para dialogar, tanto com as obras como com a cidade”, defende o arquitecto. Desde logo, “o edifício procura estabelecer uma relação entre a Praça do Municipio e a Praça Conde de Agrolongo, funcionando como um lugar de passagem, de encontro, como um prolongamento do espaço público, mas também através da forma da cobertura, que cria uma nova referência urbana e a identidade do museu. O piso térreo aproxima-se da ideia de praça. Através dos pátios interiores constrói-se também uma relação com a vizinhança, permitindo que o museu se desenvolva também a partir desse uso. e um espaço pensado para ser apropriado e activado ao longo do tempo. A forma da cobertura é expoente da nova construção. e como uma escultura em telha barro, que ocupa agora o vazio que existia entre as fachadas existentes. As paredes dos pátios que se vêem no interior do edifício são revestidas no mesmo material das coberturas, de forma a não se saber onde acaba um e começa o outro”. Ao transformar um antigo lugar de autoridade e decisão num espaço de liberdade, diálogo e criação, o projecto de José Carvalho Araújo eleva a arquitectura a primeira obra de arte da colecção, convidando a cidade a apropriar-se dele como prolongamento do espaço público. T Arte no exterior Porque é que as obras de arte têm que ficar resguardadas no interior? Não têm. E no "Muzeu" a primeira obra surge à vista de todos, como que o uma oferta à cidade. A intervenção escultórica de José Pedro Croft, considerado uma das principais forças por detrás do renascimento da arte contemporânea portuguesa, nomeadamente da escultura, é parte integrante do projecto. “Desde o início houve vontade de integrar outras disciplinas no próprio edificio criando um diálogo entre arquitectura e arte logo na entrada, e a colaboração com o José Pedro Croft surge nesse sentido, trabalhando a fachada como parte do projecto e não como um acrescen-to. Também faz parte da arquitectura dizer onde estamos. A legibilidade é uma forma de desenho. e um cruzamento entre disciplinas sem comprometer a memória do edificio de forma a valorizar a importância do projecto". defendo o arquitecto José Carvalho Araújo. Para além de amplamente representado na colecção do dstgroup, é sua a autoria de Memorial ao trabalho infantil" (2022), instalada no campus do grupo em Pitancinhos, Palmeira, Braga. “Além da qualidade da proposta em si mesma, a presença de José Pedro Croft na fachada do edificio pela qual se fará a entrada dos visitantes permite, desde logo estabelecer uma relação conceptual com a colecção do dstgroup e com o campus, lugar essencial na construção de um projecto para as artes plásticas e visuais que é muito mais do que este museu", defende. Manuela Sousa Guerreiro