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DEPOIS DOS TRANSPORTES, A AERONÁUTICA: NA MCG, JOSÉ CONTINUA O LEGADO DO AVÔ, PARA FATURAR EUR100 MILHÕES POR ANO

Expresso Online

2026-03-27 22:09:07

A MCG fabrica componentes para a indústria automóvel e de transportes, mas está com os olhos postos na aeronáutica Em 1950, o avô tinha um negócio pequeno, com menos de cinco pessoas. Hoje, 75 anos depois, emprega 500 trabalhadores. José Graça Medeiros tem 47 anos e lidera a Manuel da Conceição Graça (MCG), empresa familiar que faturou EUR65 milhões em 2025. Com 20 grandes clientes, a sua matéria-prima é o alumínio, cujo valor tem “subido brutalmente” com a guerra que eclodiu no final de fevereiro no Médio Oriente. Grande Lisboa Portugal Produz é uma série de 12 trabalhos que o Expresso publica ao longo de 2026, ao ritmo de um por mês, sobre algumas das regiões que mais se destacam na economia nacional e que estão a afirmar-se enquanto espaços de criação de emprego, atração de investimento e dinamização das exportações. Na série damos a conhecer o que de melhor se faz nas várias regiões, como têm crescido e que desafios enfrentam. O avô Manuel da Graça fazia carroçarias para camiões. “Comprava chassis e era parceiro da Scania (uma empresa mundialmente conhecida pela produção de camiões pesados e veículos comerciais de alta performance), no centro do Carregado”, diz à conversa com o Expresso o presidente da MCG, que é detida a 100% pelos seus pais. Em breve o complexo, situado à saída do Carregado, chamar-se-á Parque Industrial da MCG. Com ciclos de crescimento de três em três anos, José Medeiros prevê novo crescimento a partir de 2027, tendo em conta os contratos que estão a fechar. “Queremos fechar nos EUR100 milhões entre 2027 e 2030.” A MCG fabrica componentes para a indústria automóvel e de transportes e além destas duas áreas de negócio, já bastante maduras, quer acrescentar “uma incubadora de negócio onde testamos soluções e podemos aportar mais valor”, onde se inclui a área da aeronáutica. Na área do automóvel fornece grandes marcas como a BMW, através da alemã ZF, e a Volkswagen e a Porsche através da Vibracoustic, entre outras empresas e marcas. O presidente da empresa confessa com orgulho: “há empresas com as quais trabalhamos há 40 anos ou mais”, como é o caso da multinacional francesa Alstom, na área dos transportes. “Mantemos relações de continuidade com os maiores clientes, numa base de parceria e confiança. Normalmente não perdemos clientes.” Nos transportes, “fazemos essencialmente pisos de comboios ou de autocarros. Somos especialistas de pisos aquecidos e neste caso temos uma particularidade, detemos a tecnologia de desenvolvimento do produto”. Ou seja, explica, “o cliente vem cá, diz o tipo de comboio que quer, os requisitos que tem de cumprir e nós desenvolvemos o produto para aquele comboio”. Ou o minicomboio, um fato à medida que é também “a mais-valia para outros projetos que a MCG está a desenvolver”. Pode ser o TGV, comboio de alta velocidade, a ligar as grandes cidades, ou as carruagens para o metro de Hamburgo. “Há empresas com as quais trabalhamos há 40 anos ou mais”, diz o líder da MCG Em Portugal o grupo trabalha com a Salvador Caetano, mas o grosso do negócio é exportação direta para países como Espanha, França, Alemanha, Bélgica, EUA, Brasil e México. Já exportaram também para o Canadá e para a Índia. Também fornecem a Autoeuropa. “A nossa estratégia tem uma lógica europeia, para clientes com maturidade, em economias desenvolvidas”, explica referindo que apesar das tentativas, não abrem o capital “a nenhum parceiro. Somos uma empresa 100% familiar”. A caminho da aeronáutica Responsável pela empresa há 16 anos, apesar de nela trabalhar com o pai (genro do fundador) que a desenvolveu, desde 2005, José Graça Medeiros tem um sonho: quer entrar na sua especialidade, a aeronáutica, atendendo a que se licenciou em engenharia aeroespacial no Instituto Superior Técnico. “Estamos a fazer o caminho do automóvel para os transportes, e esse está consolidado, e vamos com cautela para a indústria da aeronáutica, que tem riscos.” Refere que a sua empresa já está na aeronáutica mas adianta que não pode ainda anunciar o projeto em causa. Entre os fornecimentos emblemáticos para gigantes da indústria aponta como exemplos os braços de suspensão para a Porsche e para a BMW, o carregamento de carros elétricos, o piso intermédio para o TGV de dois andares, as máquinas dispensadoras para casinos nos EUA, um elevador para reparação ou a manutenção de motores de avião. Há um projeto em especial que destaca: um minicomboio para o qual fornecem pisos, tetos e condutas de refrigeração. Trata-se do projeto Draisy, do grupo francês Lohr, líder mundial no desenvolvimento e fabrico de sistemas de transporte de carga e pessoas, em parceria com a operadora ferroviária francesa SNCF. “É do tamanho de um autocarro, funciona sem condutor e vai andar nas linhas de comboio desabilitadas em França e na Bélgica, parando nas estações para apanhar passageiros”, descreve. E refere: “visa reabilitar as linhas antigas de forma sustentável e eficiente do ponto de vista dos custos”. Este ano vai estar pela primeira vez na Feira Aircraft Interious, no início de abril, em Hamburgo, para se posicionar no mercado alemão. “Éramos uma empresa pura de manufatura face ao mercado, hoje posicionamo-nos como empresa de engenharia e de venda. Somos proativos”, afirma José Graça Medeiros que destaca os recursos humanos do grupo, referindo que têm aumentado as suas competências. Matéria-prima e EUR10 milhões em nova fábrica Por mês a MCG consome uma média de 1.915 toneladas de alumínio, em rolo ou placas, que custam cerca de EUR2 milhões. O desperdício é uma fonte de receitas. A MCG tem em média cerca de 689 toneladas de sucata por mês, o que equivale a EUR230 mil de receita quando a vende à Siderurgia Nacional. José Graça Medeiros explica que o maior problema que esta nova guerra comporta, além naturalmente da perda de vidas, é “o custo das matérias-primas. Não conseguimos antecipar os efeitos, depende muito. O alumínio está a subir brutalmente nas bolsas, o índice do sector está estupidamente alto e não antevemos nenhuma travagem”. “O maior risco é a incapacidade de refletir o aumento nos clientes, mas no final do dia, vai acontecer”, acrescenta. Na calha está outro investimento. “Vamos investir EUR10 milhões em infraestruturas e equipamentos a dois anos. A nova fábrica que nos permite ter um Parque Industrial, destinado a responder às encomendas que temos na área dos transportes”, diz o líder da MCG. Adianta que a sua empresa “nunca distribui dividendos”: “crescemos à conta do capital da sociedade e do capital alheio que vem da banca”, remata. Isabel Vicente Jornalista Isabel Vicente / José Fonseca Fernandes