FALHOU O CARRO
2026-03-27 22:09:07

Há sempre acontecimentos inesperados, que mudam o curso de vidas “organizadas” Sempre a queixar-se da falta de regionalização no país, irritado porque que tinha de viajar do Porto para Lisboa, para ter reuniões importantes, com pessoas ainda mais importantes, começou a pensar em desistir de projetos que iriam aumentar significativamente os seus negócios, mas também o seu poder e notoriedade. Ainda não pensava entrar na lista dos mais ricos na “Forbes”, mas quem sabe se, um dia, lá chegaria. Organizou a sua vida de forma a vir à capital uma vez por mês e tentar concentrar todas as reuniões em dois dias. Ficava sempre instalado num hotel de luxo, sabia que as aparências são importantes e que muitos negócios são fechados em ambientes só reservados a alguns. Depois das reuniões voltava para o hotel, tomava um copo no bar, raramente ia jantar fora, comia por ali. Tudo decorria na rotina mensal, até estava a correr bem, mas esqueceu-se de uma máxima decisiva, nunca misturar planos de investimento com amores, ou simples amizades amorosas. Não comecem já a pensar que aconteceu a história clássica da namorada despeitada que tem segredos de alcova e que, quando é abandonada, denuncia práticas menos claras. O nosso homem era sério, tudo o que fazia era legal, nunca poderia ser acusado de nada, ainda que enriquecer em Portugal, possa ser arriscado. Foi muito mais complicado. Tomou-se de amores por uma senhora, com quem tinha tido várias reuniões e, a partir de aí, as vindas mensais a Lisboa passaram a ter um duplo propósito. Desde o início da relação, foi claro para os dois que as suas vidas não mudariam, nem ele se separava nem ela queria casar. Em casa disse à mulher que a burocracia em Lisboa era terrível e que precisava de passar a ficar três dias. Foi pacífico. Sempre que vinha à capital andava de táxi ou de Uber, nunca trazia o seu carro. Mas, com a nova vida, decidiu que tinha de impressionar a namorada. Assim, reservou um dia e meio para estar com ela e contratou, numa empresa de rent-a-car, um Porsche descapotável, sempre reservado de um mês para o seguinte. Disse-lhe, agora vou passar a trazer o meu carro para baixo. E passearam muito, ficaram em hotéis de charme, próximos de Lisboa, cumprindo uma combinação que tinha acertado desde o início, vamos falar o menos possível das nossas vidas. Os meses sucediam-se, sem que sentisse alguma intranquilidade em casa, numa rotina sempre semelhante. Acabava as reuniões, ia buscar o carro desportivo, guardava-o na garagem do hotel, nessa noite já dormia acompanhado. Até um dia. Há sempre acontecimentos inesperados, que mudam o curso de vidas “organizadas”. Como era habitual, foi levantar o carro. - Lamentamos, senhor engenheiro, mas o Porsche foi alugado, é o único, não temos outro. Protestou, barafustou, ameaçou, invocou a sua antiguidade como cliente, mas não havia nada a fazer. Para o compensarem propuseram-lhe um carro não desportivo, mas de alta gama, oferta da casa. Aceitou, seria fácil justificar-se, pus o carro na revisão, nada funciona em Portugal, atrasaram-se e emprestaram-me este. E lá foram, dessa vez, para hotel mais modesto, junto ao mar, um clássico da costa atlântica, água gelada, mas sem risco de encontrarem alguém conhecido. Estavam tão absorvidos no seu amor, ou o que fosse, que não repararam num pormenor que havia de se revelar fatal. Estava estacionado à porta um Porsche descapotável. Também não notaram que, quando saíram para jantar, uma magnífica lagosta, o carro desportivo os seguiu. Chegados ao restaurante, quando pediram uma mesa para dois, ouviram uma voz: “Desculpe, é para três.” Era a senhora do Porto, que perguntou simplesmente: “Posso jantar convosco?” A namorada desapareceu imediatamente, segundo sei, até hoje. A esposa, depois de fazerem os pedidos, só lhe disse: “Como é que queres ser um grande empresário se não consegues ser discreto e te passeias num carro de luxo, descapotável, que os jovens adoram fotografar. Eu não fiz nada, foi o teu filho que te viu no Instagram de um amigo. Para a próxima, que comigo não vai acontecer, aluga um Smart.” José Gameiro Psiquiatra e piloto José Gameiro