DO TURISMO À INDÚSTRIA, A DAR CARTAS NAS EXPORTAÇÕES
2026-03-27 22:09:07

Dinamismo. De Sintra a Alverca, são vários os negócios a crescer em torno da capital, em busca de diversificação Não é fácil captar tudo o que define a região da Grande Lisboa: densamente povoada, cada vez mais alargada para fora do centro da capital e com uma economia onde o turismo se destaca, mas com uma diversidade de outros negócios a prosperar. Há indústria, comércio, agricultura e até um vinho único no mundo. Há turistas que ficam em Lisboa e outros que partem da capital para outros destinos nacionais. Mas há também exportação de bens, inovação e ensino superior a atrair jovens de todo o país e do estrangeiro. Grande Lisboa Portugal Produz é uma série de 12 trabalhos que o Expresso publica ao longo de 2026, ao ritmo de um por mês, sobre algumas das regiões que mais se destacam na economia nacional e que estão a afirmar-se enquanto espaços de criação de emprego, atração de investimento e dinamização das exportações. Na série damos a conhecer o que de melhor se faz nas várias regiões, como têm crescido e que desafios enfrentam. Ao longo da última década, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Grande Lisboa manteve-se sistematicamente acima da média nacional, atingindo EUR42,3 mil em 2024, face à média de EUR27,1 mil em Portugal. Ainda assim, o crescimento acumulado foi semelhante: 55,4% na região, contra 56,6% no país. A capital lidera as exportações em valor e há cinco concelhos da região da Grande Lisboa no top 30 dos concelhos mais exportadores do país. A esta situação não é alheio o facto de muitas empresas nacionais e multinacionais terem sede na capital. As exportações de Lisboa ascenderam em 2025 a EUR7,7 mil milhões (com um crescimento de 21% na última década), tendo atingido o pico no ano de 2022. É neste contexto que o rendimento médio mensal líquido na Grande Lisboa cresceu 46,6% entre 2015 e 2025, abaixo dos 54,6% registados a nível nacional, segundo o INE - Instituto Nacional de Estatística. Ainda assim, importa sublinhar que os níveis de rendimento na região continuam acima da média do país. A transformação económica da cidade é visível também no tipo de investimento que tem vindo a captar. “Até 2021, Lisboa era um mercado secundário e atraía sobretudo centros de serviços e call centers. Com a nova política de inovação na cidade, passámos de um centro de serviços para um centro de inovação”, afirma o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, ao Expresso. O autarca destaca exemplos concretos dessa mudança: “Hoje, a AstraZeneca está a criar um novo centro de investigação em Lisboa. A Deloitte está a implementar o centro europeu de inteligência artificial no Largo do Rato. A Mastercard está a montar um centro de desenvolvimento de produto no Saldanha. E até empresas portuguesas, como a Critical Software, estão a desenvolver aqui os programas informáticos que permitem aos automóveis da BMW e aos aviões da Airbus funcionar.” Para Carlos Moedas, trata-se de uma “mudança de paradigma profunda”. “Os investidores já não procuram o talento português para atender chamadas de serviço ao cliente. Procuram Lisboa para criar, testar e escalar novas soluções”, sublinha. Motor das exportações No terreno, o dinamismo exportador distribui-se por vários polos. Loures destacou-se nos últimos anos como um dos concelhos que mais cresceram, passando de menos de EUR450 milhões em exportações em 2015 para cerca de EUR1,4 mil milhões em 2025, mais do que triplicando as suas vendas ao exterior. É aqui que opera a Hovione, uma das principais exportadoras da indústria farmacêutica nacional. Fundada em Portugal há mais de 60 anos, a empresa destaca-se na produção de substâncias ativas e no desenvolvimento de projetos para grandes farmacêuticas, atuando como parceira industrial em toda a cadeia de valor do medicamento. “Estamos a contribuir para entre 5% e 10% dos novos medicamentos inovadores lançados nos Estados Unidos da América. Isto mostra a relevância do que fazemos”, afirmou ao Expresso, no final do ano passado, o presidente executivo, Jean-Luc Herbeaux. Grande Lisboa gera riqueza acima da média PIB por habitante em milhares de euros Variação na Grande Lisboa 55,4% Variação em Portugal 56,6% Emprego na Grande Lisboa cresceu 23% na última década População empregada em milhares de pessoas Variação na Grande Lisboa 23,4% Grande Lisboa mantém salários acima da média nacional Rendimento médio mensal líquido, em euros Variação na Grande Lisboa 46,6% Variação em Portugal 54,6% Lisboa lidera exportações, Loures lidera o crescimento Exportações de bens, em euros Variação em Lisboa 21,4% Variação em Loures 212,3% Variação em Oeiras 30,7% Variação em Sintra 49,9% Variação em Vila Franca de Xira 46% Sintra surge como o segundo concelho que mais cresceu na região da Grande Lisboa na última década (49,9%), com as exportações a atingirem EUR2,2 mil milhões, destacando-se a indústria alimentar, a do tabaco e a farmacêutica. Organizações como a Tabaqueira, a Parmalat, a Somague ou a Novartis concentram aqui parte relevante da sua atividade. A par destes grupos, persistem também negócios de nicho, mas emblemáticos, que continuam a exportar. É o caso do vinho de Colares, que tem no mercado norte-americano uma parcela relevante das vendas para o exterior. Mais a norte da cidade de Lisboa, Alverca e Carregado reforçam o perfil industrial da região. A OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal, sediada em Alverca, dedica-se à manutenção e fabrico de aeronaves, emprega cerca de 2000 trabalhadores e faturou EUR290 milhões em 2025. Já em Oeiras, polos como o Taguspark ou o Lagoas Park concentram empresas tecnológicas e de serviços que exportam sobretudo conhecimento, da consultoria à engenharia de software, com nomes como IBM, Microsoft e Oracle. Turismo mais maduro O turismo continua a ser uma das faces mais visíveis da economia da Grande Lisboa. Em 2025, o total de dormidas atingiu 19,6 milhões, um aumento de 8,5% face ao ano anterior, segundo o INE. O negócio turístico, que alimenta a conta de exportações de serviços do país, tem puxado pela reconversão do edificado no centro da capital. E fontes do sector referem que a guerra no Médio Oriente pode potenciar mais crescimento no destino Portugal. A Associação de Turismo de Lisboa afirma ao Expresso que “o turismo em Lisboa e na sua Área Metropolitana reforça uma trajetória de valorização em 2025, com os dados do INE a confirmarem um sinal claro de maturidade no posicionamento do destino, com a receita por quarto disponível (RevPAR) a subir para os EUR114,46 (mais 2,2%), impulsionada por um aumento de 2,6% no preço médio do alojamento de três, quatro e cinco estrelas (EUR155,87)”. O desafio da habitação em Lisboa Num território em crescimento, a habitação surge como um dos principais desafios. A pressão dos preços continua a marcar o debate sobre a capacidade de Lisboa atrair e fixar talento, numa altura em que a cidade se tenta posicionar como uma região de emprego qualificado. “Lisboa está a consolidar-se como um polo económico moderno e dinâmico, que combina tradição e inovação”, defende Carlos Moedas. Segundo dados do INE, no terceiro trimestre de 2025 o preço por metro quadrado no concelho de Lisboa atingiu os EUR5 mil - o valor mais alto do país -, acima dos EUR4336 registados no mesmo período do ano anterior. A autarquia aponta para um “esforço sem precedentes para dar resposta aos problemas com que a cidade se confronta na área da Habitação, com a construção de novas casas, a reabilitação e a disponibilização de habitações municipais e a aposta no programa de apoio à renda”. QUATRO PERGUNTAS A João Pereira dos Santos Professor de Economia no ISEG A escalada dos preços da habitação está estritamente ligada ao turismo? Não, é uma combinação de vários fatores, nos quais se incluem o turismo e a utilização de algumas casas para essa finalidade como Airbnbs. Mas existem outros fatores, como a pouca construção ou o aumento da procura externa, ligada a pessoas com maior poder de compra [que procuram casa] para um uso mais permanente. Isto resume-se a um grande aumento da procura e a uma oferta que está bastante estagnada. E também há fatores históricos que fazem com que haja medo em arrendar a casa. Na Grande Lisboa, os salários aumentaram 47% numa década e o preço das casas mais do que triplicou. Há uma relação? Claro que há um efeito em que, se as pessoas, em média, recebem mais, estão dispostas a pagar mais pelas casas. No entanto, não acredito que seja esse o único fator. Há um aumento da procura pelos turistas e pelos estrangeiros com capacidades financeiras bastante diferentes, mas tudo se liga a uma oferta pública e privada bastante estabilizada nos últimos anos. O crescimento da Grande Lisboa condiciona a oferta existente e também a quem se destina? Condiciona, porque temos uma oferta fixa pelo menos no curto prazo. Logo, se não temos conseguido construir ou reabilitar em quantidade suficiente, aliado a um aumento do número de casas completamente degradadas nos centros das cidades, isso tem um custo grande na capacidade não só de crescer, como também de atrair mais pessoas e dar as melhores oportunidades a quem quer viver na região. É difícil atrair professores ou polícias, porque não existe um prémio salarial para que tenham uma vida decente. E isto até influencia a qualidade e a capacidade dos serviços públicos. O preço da habitação pode afetar a atratividade da Grande Lisboa? Depende do tipo de empresas de que estamos a falar. Há uma série de empresas para as quais o nível de preços em Lisboa é bastante elevado, mas, em termos relativos, se compararmos com algumas cidades na Ásia ou outras cidades europeias, como Londres ou Paris, continua a ser um sítio com boas comunicações para a Europa e para os Estados Unidos e com preços mais baixos. Eunice Parreira Isabel Vicente Jornalista Isabel Vicente / Juliana Simões / Sofia Miguel Rosa