ESTÁ NUNO MELO A COMPRAR ARMAS DO PASSADO?
2026-03-27 22:09:07

Boa tarde! Na semana passada, acabei esta newsletter a dizer que a escolha para a compra do novo caça português devia ser fácil entre o americano F35 e o sueco Gripen, tendo em conta que é obrigatório , nesta nova era para a qual ainda não temos nome , fazer três coisas: reforçar a autonomia europeia, reforçar a indústria europeia, reindustrializar Portugal. Se são estas as diretrizes, então não pode haver dúvida. Ou Gripen ou Mirage, caças europeus. Nem por acaso, há dois dias, o Brasil apresentou o seu novo caça, que é na verdade um Gripen construído por uma parceria Saab (Suécia) e Embraer (Brasil) em solo brasileiro. Isto representa um avanço para a economia e tecnologia brasileira , algo que nós, portugueses, devíamos copiar. A Saab oferece-nos essa parceria, até porque a Embraer já está em Portugal. O emergente cluster de defesa português ganharia ainda mais força. Este é o primeiro ponto. Mas hoje queria fazer outro; ou melhor, nem é um ponto, é mais uma pergunta: não é um caça assim uma arma do passado, sobretudo para um país como Portugal? A mesma pergunta pode ser dita sobre as fragatas que vamos comprar aos italianos. Não estamos a pensar o futuro com base no passado? O imaginário e cultura militares do passado servem-nos no novo quadro mental e físico da guerra? Está agora muito claro que a guerra mudou para sempre. Estamos perante uma mudança no conceito de guerra como não víamos há cem anos, desde o blindado alemão, desde o porta-aviões americano/japonês. A guerra do presente e sobretudo do futuro será combatida por drones e sistemas autónomos com IA. Um caça só interessará se controlar um enxame de drones à sua volta. É esse o futuro. E o futuro, como se sabe, chega cada vez mais depressa. É esta a nova realidade: drones, IA. E esta mudança na guerra coloca em causa a ideia de "superpoder" de uma maneira que , até me provarem o contrário , não tem paralelo na história. Repito: não tem paralelo na história. Se calhar, teríamos de recuar até ao momento em que uma pequena nação, de seu nome Portugal, passou a controlar o comércio global a partir de uma pequena vantagem tecnológica que lhe permitiu ganhar vantagem sobre colossos europeus e asiáticos. Se tirarmos da equação o impensável (a arma nuclear), uma potência média ou mesmo pequena tem hoje a possibilidade de empatar o jogo com a grande potência; tem a capacidade de tornar o jogo demasiado custoso para a força mais poderosa. A Ucrânia está a provar isso todos os dias. Nesta nova economia da guerra, o país menos poderoso pode empatar ou vencer um rival mais poderoso se for inteligente e se não apostar nos meios clássicos - onde perderia sempre. O exemplo ucraniano torna-se particularmente acutilante para a guerra em geral e para Portugal em particular quando falamos do mar. A Ucrânia não tem uma marinha de guerra no sentido clássico, mas destruiu ou bloqueou uma das grandes armadas do mundo, a russa, através de drones. Isto é uma revolução estratégica em si mesmo. E leva-nos a uma pergunta relativa a Portugal: porque é que vamos comprar fragatas do passado quando devíamos estar a seguir o exemplo óbvio da Ucrânia? Um país como Portugal não devia investir sobretudo em submarinos não tripulados e geridos por IA (como estes que a Alemanha comprou a Israel) e em drones aquáticos ucranianos para vigiar as nossas águas e dissuadir potenciais ameaças? Esta indústria ucraniana de drones já está a ser integrada na economia europeia. E Portugal não é excepção: uma das empresas ucranianas que faz drones aquáticos trabalha precisamente em... Portugal. Estamos à espera do quê? Comprar três fragatas a uma empresa italiana clássica não é estar a pensar com base no passado? Nem por acaso, há dias, ao largo da costa portuguesa, estes drones marítimos ucranianos derrotaram e “afundaram” fragatas clássicas da NATO num exercício que colocou a nu aquilo que estou a tentar dizer: devíamos seguir os ucranianos e não os nossos aliados da NATO, é Kiev que está na vanguarda. Portanto, há que repetir a pergunta: porque é que estamos a investir em fragatas mais caras em vez de apostarmos em drones que são mais baratos e mais eficazes? É preciso falar disto e fazer estas perguntas porque quem está a decidir pode pertencer a uma cultura do passado. Mas saliente-se que os novos generais heróicos do novo campo de batalha não são os napoleões do passado, são até pessoas sem passado nas academias militares. O napoleão ucraniano dos drones , Robert Brovdi - era um vendedor de produtos agrícolas antes da guerra começar. Isto diz-nos alguma coisa sobre o futuro da guerra; é preciso pensá-la fora dos moldes do passado. O certo é que o mundo está a mudar à nossa frente. E está a mudar há algum tempo. Recorde-se que os hutis, sem qualquer armada, conseguiram a proeza de transformar a rota do Mar Vermelho num espaço demasiado perigoso. As marinhas ocidentais foram incapazes de repor a normalidade. E os hutis só usavam/usam drones ou mísseis que se tornaram baratíssimos. Se ocidente não conseguiu repor a normalidade no Mar Vermelho, como é que vai conseguir fazê-lo no Golfo? Do ponto de vista português, a lição a tirar disto tudo é que temos de aprender com os hutis, iranianos e sobretudo com os ucranianos. Repare-se que até os generais americanos estão absolutamente maravilhados, por um lado, e humilhados, por outro, com a inovação militar dos ucranianos feita rapidamente e numa base low cost. Porque é que estão humilhados? Porque os ucranianos, sem o dinheiro dos EUA, conseguiram colocar-se na absoluta vanguarda da guerra moderna e, como se vê de resto no Golfo, são os ucranianos que têm de ir ensinar/fazer a defesa antidrone. Um abraço, Henrique Henrique Raposo Henrique Raposo