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REPORTAGEM - EDIT A REVOLUÇÃO 997 DE PETR NOVAGUE

Topos & Clássicos

2026-03-30 21:03:07

Num mundo em que um novo projecto restomod parece surgir semana sim, semana nao, o designer checo Petr Novague optou por uma abordagem iconoclasta, partindo de um 997 e fazendo um backdate. O resultado deste projecto de Petr Novague, simplesmente chamado Edit, é um dos restomods mais interessantes que vimos nos últimos tempos, um automóvel que liga diferentes gerações com tal subtileza que mesmo entusiastas experientes muitas vezes não percebem que não se trata de um clássico original. A relação de Petr Novague com a Porsche é profundamente pessoal, moldada pelas realidades políticas da sua infância na Checoslováquia comunista. “Passei parte da minha infância num país governado pelo comunismo e quem nunca viveu sob esse regime não consegue compreender verdadeiramente o quão devastador ele foi. Eu sentia isso ainda em criança, e não conseguia imaginar que eu ou alguém à minha volta pudesse um dia ter um Porsche. As pessoas não podiam ser diferentes, nem destacar-se da multidão.” Nesse mundo cinzento de conformismo imposto, um Porsche representava muito mais do que excelência automóvel. Simbolizava a própria liberdade, bem como individualidade e o direito de aspirar a algo extraordinário. O 911, com a sua silhueta inconfundível e o som característico do motor boxer de seis cilindros, era o oposto de tudo aquilo que o regime opressivo representava. Mesmo depois da queda da Cortina de Ferro, a marca continuou fora do alcance da maioria. “só comecei realmente a ter contacto com Porsche durante o meu estágio numa escola de design na Alemanha. Via-os nas ruas e nos parques de estacionamento dos centros comerciais. Na altura, O 996 era o modelo novo e não me dizia muito, mas todos os anteriores me fascinavam. Fiquei tão impressionado que comecei a desejar seriamente ter um 911.” Quando Novague começou a ganhar o seu próprio dinheiro, foi passando gradualmente por vários modelos Porsche, cada um ensinando-lhe algo diferente sobre a filosofia da marca. O primeiro foi um 997, seguido de um Panamera, depois um Cayenne e, mais tarde, até um Taycan, que adquiriu no âmbito de uma colaboração como embaixador, directamente com a Porsche. Foi o primeiro proprietário de Taycan na República Checa. Esta progressão pela gama Porsche deu-lhe uma compreensão abrangente da forma como a marca aborda diferentes segmentos mantendo uma linguagem de design coerente. O Panamera mostrou como a Porsche podia criar um quatro portas prático sem perder o ADN desportivo. O Cayenne demonstrou que um SUV Porsche podia continuar a conduzir como um Porsche. E o Taycan provou que a electrificação não significa abdicar da performance nem daquele carácter Porsche difícil de definir. “Para utilização diária, no entanto, o que melhor se adaptava a mim era o Carrera 4s normal. Nas nossas condições na República Checa chove ou neva frequentemente, e cheguei à conclusão de que o 997 é ideal graças à sua compacidade, potência suficiente e funcionamento muito fiável e financeiramente razoável. Além disso, é o último 911 com direcção hidráulica, e provavelmente o último 911 verdadeiramente analógico antes de a electrónica começar a dominar a experiência de condução.” Mas Novague, sendo designer, via aspectos que podiam ser melhorados. “Com o tempo, o interior começou a incomodar-me, sobretudo a consola central, e nunca gostei das luzes traseiras. Por isso decidi ir alterando o carro gradualmente.” Para isso, estudou em detalhe todas as gerações do 911. As proporções do carro são definidas principalmente pela silhueta e pela posição baixa das luzes traseiras, colocadas perto da estrada. é isso que faz do 911 um ícone.” Reparou também como essas proporções foram mudando ao longo das várias evoluções do modelo. “Com o passar do tempo, as luzes traseiras foram subindo e as proporções confiantes originais começaram a perder-se.” é uma observação subtil, mas importante. Compare-se um Carrera RS de 1973 com um 997 e percebe-se imediatamente: no modelo mais antigo, as luzes estão baixas e afastadas, reforçando a postura do carro e dando-lhe um aspecto plantado e decidido. Na era do 997, as regulamentações e a necessidade de grupos ópticos maiores obrigaram a oloca-los mais acima na carroçaria, diminuindo ligeiramente esse aspecto agressivo e colado à estrada. O conceito Edit ganhou identidade de forma gradual, através de um processo iterativo de design e feedback. A ideia principal é oferecer um carro cujo design retro agrade a quem não quer um veículo produzido em massa cheio de ecrãs tácteis, mas que ao mesmo tempo pretende estar sentado num habitáculo moderno e seguro, com muitos airbags e uma direcção hidráulica muito precisa.” O próprio nome é deliberadamente simples. “Edit significa alterar ou modificar, e capta perfeitamente o princípio de um restomod, em que o conceito base do carro se mantém, mas determinadas partes são transformadas.” A visão inicial de Novague era austera. “No início desenhei o Edit para ser mais minimalista, com menos formas e uma aparência geral simplificada. Concentrei-me sobretudo no interior, removendo tudo aquilo que, na minha opinião, não era essencial.” Transformação abrangente, mas focada. No exterior, são alterados os dois pára-choques, as asas traseiras, todos os faróis e o capot do motor. No interior, recebem atenção a consola central, os bancos, os painéis das portas e o volante. e suficiente para mudar completamente o carácter do carro sem exigir uma desmontagem integral. Sob a carroçaria também há alterações. Cada motor é desmontado, reconstruído e equipado com um novo veio IMS, novas camisas de aço forjado, pistões de competição em aço forjado, correntes de distribuição e substituição de quaisquer componentes desgastados. Com um sistema de admissão de competição e várias melhorias de performance da FVD Brombacher, a potência sobe para cerca de 400cv. Recebe ainda uma nova embraiagem e volante bimassa, novos braços de suspensão e nova caixa de direcção, para que a resposta seja tão precisa como num carro novo. O sistema de escape, responsável pelo som metálico e envolvente, é um sistema de alto desempenho da própria Porsche. Amortecedores reguláveis ohlins asseguram o controlo da suspensão, enquanto a travagem fica a cargo de travões carbono-cerâmica originais Porsche. As luzes traseiras são do 993 e as dianteiras são modificadas a partir das do 997.2 facelift. A questão das jantes revelou-se particularmente complexa. “A história de encontrar jantes adequadas foi complicada. As pessoas têm gostos diferentes. No início usámos jantes de um fabricante italiano. o primeiro carro foi vendido com elas, mas houve críticas por serem demasiado modernas, por isso experimentámos jantes retro com desenho Fuchs. Finalmente descobrimos uma pequena empresa na Alemanha capaz de produzir jantes semelhantes ao design Turbo do 993, no tamanho exacto que eu queria. Foi um processo que demorou três anos, mas valeu a pena, porque um projecto só está terminado quando estou completamente satisfeito.” As raízes checas influenciam a abordagem ao design. “As minhas origens moldaram a minha forma de trabalhar, que é muito pragmática. Retiro tudo o que é desnecessário, concentro-me na essência do produto e crio uma estética que reflecte honestamente os seus valores internos e comunica de for-ma clara com o cliente.” o que mais agrada a Novague no resultado final é a naturalidade do conjunto. “Fico satisfeito por o carro parecer natural. Muitas pessoas que não conhecem bem as diferentes gerações do Porsche 911 nem se apercebem de que não se trata de um modelo original.” ê o maior elogio que um backdate pode receber. Ao partir de um 997, Novague garante que o carro se conduz como um Porsche moderno: rápido a reagir, inspirador de confiança e fácil de utilizar no dia-a-dia. O Edit é o melhor de dois mundos para quem gosta da estética dos primeiros 911 mas não quer lidar com as idiossincrasias mecânicas e as limitações de segurança dos clássicos. O preço da conversão reflecte esta abordagem artesanal. Novague oferece duas opções: o cliente pode fornecer o seu próprio 997, ou a empresa trata de encontrar um carro base com menos de 80.000 km, por cerca de 80.000EUR. O trabalho de restomod é modular: as alterações exteriores começam nos 35.000 EUR, e o interior nos 15.000 EUR. As melhorias mecânicas seguem preços normais de oficina especializada, podendo as versões turbo atingir até 1000cv. Um Edit completo pode aproximar-se dos 200.000 EUR. A transformação de um 997 num Edit demora pelo menos três meses e é feita integralmente nas instalações da empresa. “No início tentei trabalhar com especialistas externos, mas não é o caminho certo, porque tudo tem de estar sob controlo”, explica Novague. A oficina checa reúne uma pequena equipa: um especialista em carroçaria, mecânico, auto-electricista, estofador, pintor, designer e dois engenheiros. “Somos uma espécie de projecto boutique. Na minha experiência, o gosto é algo complicado. Existem milhares de milhões de pessoas no planeta e cada uma tem uma opinião. Aprendi que as pessoas expressam verdadeiramente a sua opinião com a carteira. Trabalhamos com clientes sérios, com quem discutimos as suas ideias para que o carro final seja realmente deles, e para que fiquem satisfeitos com aquilo em que gastaram o seu dinheiro.” O verdadeiro teste de qualquer restomod não é um tempo por volta nem um gráfico de banco de potência, mas sim perceber se gostaríamos realmente de viver com ele. Durante três dias pelas estradas do interior da República Checa, o Edit respondeu a essa pergunta de forma clara. Este exemplar, em particular, apresentava a especificação preta mais discreta, com traseira de inspiração mais clássica com farolins do 993, e um motor boxer atmosférico de 3,8 litros ligeiramente preparado, respirando através do sistema de escape desportivo da Porsche. Ao ligar o motor e arrancar com decisão, a sonoridade recorda imediatamente os clássicos aspirados, com aquele timbre mecânico típico, cru e orgânico, especialmente vivo nos regimes médios, em que o seis cilindros boxer encontra a sua verdadeira voz. Mas é a usabilidade que mais impressiona.com quase 1,90m de altura, estou habituado a que os bancos Porsche me tratem como um intruso, e algumas horas no meu próprio Cayman costumavam deixar-me à procura de um quiroprático. Os bancos do Edit, pelo contrário, revelaram-se genuinamente confortáveis mesmo em viagens longas. O génio do design de Novague revela-se constantemente. Estaciona-se o carro, afasta-mo-nos alguns passos, e o olhar tem dificuldade em situá-lo no tempo. As proporções = com as luzes traseiras colocadas mais abaixo, exactamente como ele pretendia resultam na perfeição, mas o conjunto mantém um aspecto moderno e coerente, sobretudo com os faróis actuais. Não é uma réplica nem uma simples recriação, mas algo que existe com identidade própria. Por onde quer que parámos, atraiu atenções, daqueles olhares demorados que mostram que as pessoas percebem que há ali algo especial, mesmo sem saberem explicar porquê. O motor 3.8 tem reservas generosas de binário e parece sempre pronto a disparar ao mínimo toque no acelerador, mas mantém-se suficientemente dócil para uma condução tranquila, mesmo no trânsito intenso de Praga. é o carácter da geração 997 no seu melhor: rápido a reagir, inspirador de confiança, utilizável em cidade mas com performance pronta a surgir quando a estrada se abre. A direcção hidráulica totalmente nova, que Novague valoriza tanto, oferece aquele peso natural e aquele feedback cada vez mais raros nos automóveis modernos, embora as suas qualidades se revelem de forma subtil, sem necessidade de chamar a atenção. Ao longo de três dias, o Edit nunca pareceu delicado nem exigente. Não surgiram caprichos, nem compromissos inesperados. Funcionou simplesmente como Novague pretendia: um carro para conduzir, não para preocupar. Tudo com a fiabilidade que se espera de um Porsche moderno, envolto numa estética que celebra a era dourada da marca. O Edit representa uma nova direcção no mundo dos restomod, privilegiando a utilização e a estética em vez da performance absoluta. é um 997 que olha para trás enquanto anda para a frente, um automóvel de uso diário disfarçado de clássico, oferecendo o romantismo do passado com a fiabilidade e a segurança do presente. Ao escolher este caminho, Novague criou algo que preenche um espaço vazio no mercado: um 911 com backdate que pode ser usado todos os dias sem preocupações, que capta a essência visual dos modelos clássicos mas oferece capacidades modernas. Uma abordagem profundamente pragmática a um tema profundamente emocional , O que, talvez, seja a coisa mais checa de todas. Robb Pritchard