RETROMOBILE 50 ANOS DESLUMBRAMENTO
2026-03-30 21:04:17

Meio século passado, o salão de Paris permanece como a grande referência. Não podíamos faltar a esta edição histórica, para contar como foi. A 14 de Outubro de 1899, a revista americana Literary Digest vaticinou: “A carroça sem cavalos é, actualmente, um luxo para os ricos e nunca terá um uso generalizado”. Esta profecia envelheceu mal e muito rapidamente, mas não foi a única. Há mais de dez anos que se ouve dizer em vários contextos que o automóvel clássico está condenado, e que num mundo cada vez mais condicionado por medidas ambientais e a caminho da condução autónoma. A evidência de que o movimento dos automóveis antigos e coleccionáveis é demasiado grande, demasiado robusto e demasiado valioso para algum dia ser extinto ou travado, está precisamente na Port de Versailles, todos os anos, aos olhos de quem quiser ver. Este ano foram 181.500 pessoas (um crescimento de 24%) que quiseram e puderam constatar que a Retromobile continua a crescer ao fim de 50 anos, tendo tido em 2026 umas das melhores edições de sempre, como seria de esperar. A zona principal da exposição foi acolhida por um renovado Hall 7, dividido em três vastos andares, e estendendo-se ainda ao Hall 4 que, além da habitual área dedicada à venda de automóveis abaixo dos 30.000EUR, incluía uma novidade, que podia ser visitada à parte: O Ultimate Supercar Garage reuniu quase todos os fabricantes de automóveis superdesportivos, com as suas novidades e ícones. Além das já referidas, o salão é composto por diferentes áreas: espaço dos clubes, zona de peças e automobilia, galeria dos artistas, stands de fabricantes de automóveis com exposições temáticas alusivas à sua história, zona dos grandes comerciantes de clássicos e o espaço do leilão oficial. Cada uma, isoladamente, daria um evento de referência, por isso, vamos por partes. Clássicos até 30.000EUR Esta secção foi criada para dar um sabor do “mundo real”, num salão em que a maioria dos automóveis presentes pertence ao universo da fantasia, para a maioria dos visitantes. Uma ideia muito boa e com uma adesão de expositores que tem vindo a crescer. Dentro das muitas dezenas de automóveis ali presentes, alguns destacavam-se. Por entre a natural predominância dos automóveis franceses, saltava à vista um Peugeot 205 GTI com carroçaria Dimma. No meio do reviva-lismo, os exemplares transformados pela Dimma parecem estar a ter cada vez mais atenção dos entusiastas. De entre os franceses, uma menção para a cada vez maior presença a preços mais elevados, dos Citroên CX. Os italianos estavam também muito bem representados, sendo obrigatória a menção dum fascinante Fiat 125 Samantha, o Coupé de carroçaria Vignale. Esta unidade podia ser comprada por 14.0006, mas a necessitar de um restauro completo. Outro coupé exótico de sangue italiano era o Neckar St. Trop, baseado no Fiat 1100, mas com uma elegante carroçaria OSI. Este exótico raro e bem-apresentado, podia ser adquirido por 28.000EUR. Uma nota para a forte presença dos Suzuki Santana e Samurai, modelos de culto ainda acessíveis, com preços a começar nos 7000EUR. Todos sabemos que OS Twingo estão na moda, mas só em França seria provável encontrar um dos raros exemplares da versão Lecoq, limitada a 50 unidades. Os 28.500EUR pedidos reflectiam e garantiam a exclusividade. EXPOSIçôES TEMaTICAS os insólitos da Bugatti Um dos pontos forte da Retromobile, como de qualquer salão, são as exposições temáticas e, este ano, uma das mais aguardadas era aquela dedicada à Bugatti. A peça central, contudo, não era um automóvel. A automotora de luxo concebida pela Bugatti, nasceu duma ideia do então director da ETAT, a companhia de caminhos de ferro do estado francês, com a proposta de criar a automotora movida por quatro motores do Royale, com 200cv cada um. Isso permitia a esta invulgar e aerodinâmica criação, atingir os 196km/h (para desagrado de Ettore Bugatti, que desejava passar a meta dos 200km/h. Lamentavelmente, das 88 unidades produzidas, apenas resta a que esteve em exposição na Retromobile. Presente estava, uma vez mais, o T32 Tank, o modelo aerodinâmico que fez história pelo aspecto invulgar, mas também um outro exemplar de competição extraordinário, o T251 de 1955, criado por Gioacchino Colombo, e que foi o primeiro carro com motor transversal em posição central. Também ele único, o Type 64 foi um modelo desenvolvido já sob a égide Jean Bugatti, para suceder ao Type 57. O único exemplar completo recebeu uma carroçaria Gangloff aerodinâmica, de acordo com os requisitos técnicos de Jean Bugatti. Esse exemplar permanece conservado com as marcas do tempo. Entre os modelos menos conhecidos, destaque também para a presença do Type 73 Coupé de 1947, o modelo que pretendia lançar uma nova entrada de gama no pós-guerra, mas que se ficou pelo exemplar exibido. Também o Bugatti Type 101, o último modelo produzido pela Bu-gatti Molsheim, esteve representado com os dois exemplares do museu de Mulhouse. O espólio Macaluso O nome de Gino Macaluso chegou à ribalta no meio automóvel através do seu papel como navegador do piloto Raffaele Pinto, aos comandos dos Fiat 124 Abarth oficiais, chegando ao título de Campeão Europeu. Prosseguiu depois uma sóldia carreira no mundo da alta relojoaria que lhe permitiu tornar-se proprietário duma das mais relevantes colecções de automóveis de ralis do mundo, com dezenas de exemplares com excelente historial. Muitos deles estiveram na Retromobile, na mostra “L âge d or du Rallye”, cobrindo diferentes épocas, desde a génese da modalidade até ao Gr. A e mais além. Lancia Fulvia Coupé HF, Mini Cooper S, Ford Cortina Lotus, Alpine A110, Renault 5 Turbo, Fiat-Abarth X1/9 Prototipo, Lancia Stratos, 037 e Delta Integrale, além dos Audi Quattro, Peugeot 205 Turbo 16, eram alguns dos modelos representados, alguns deles exemplares com vitórias no WRC. No espaço da exposição houve também com uma tertúlia com a presença de Ari Vatanen. 50 anos de BMW Art Cars Este era, sem dúvida, o “ex-libris” da edição deste ano da Retromobile. Nos 50 anos do salão, houve lugar à celebração dos 50 anos dos BMW Art Car. Esta extraordinária “colecção”, teve como precursor o piloto e leiloeiro Hervé Poulain, ao decorar o seu BMW 3.0 CSL “Batmobile” com uma pintura encomendada a Alexander Calder. Naturalmente, esse era o modelo em destaque nesta mostra, que contava ainda com vários dos mais emblemáticos exemplares: o CSL por Frank Stella, o 320i Gr.5 por Lichtenstein, o M1 Gr. 4 por Andy Warhol (o único pintado directamente na carroçaria pelo artista), o V12 LMR por Jenny Holzer, o M3 E92 GT2 por Jeff Koons e o Hypercar M Hybrid v8 por Julie Mehretu. As exposições das marcas Um dos andares do pavilhão 7, estava maioritariamente ocupado pelos stands dos fabricantes de automóveis, que vão até à Retromobile tirar proveito do potencial de marketing do respectivos legados, montando exposições temáticas com muitos modelos do passado e, pelo meio, umas ou duas das mais recentes novidades da sua gama. DS, onde o passado é tudo.com o pretexto de promover mais um SUV indiferenciado, de nome DS7, a marca montou uma exposição que celebrou os mais importantes modelos... da Citroên, ao serviço oficial do Estado francês. Presente estava um dos DS21 que estiveram ao serviço do General De Gaulle, automóvel a que se manteve fiel, especialmente depois de um lhe ter salvado a vida no atentado de Petit-Clamart. Também na exposição estava o imponente Citroên DS Presidentielle, modelo carroçado pela Chapron e que, apesar da aparência semelhante ao DS, não partilha quase nada com este, sendo muito maior (6,53m), mais alto e espaçoso, com um enorme vidro côncavo a separar o motorista dos passageiros, detalhe de que Charles de Gaulle não era adepto, o que motivou o escasso uso deste exemplar. Também presente esteve o exuberante Citroên SM descapotável, um de dois encomendados por Georges Pompidou, e que teve a honrosa tarefa de transportar a Rainha Isabel Segunda, numa visita oficial a Paris em 1972. Citroên, uma lição sobre futurismo Mais interessante ainda era a exposição da casa-mãe, Citroên, que cativou sobretudo pelos emblemáticos concept-cars expostos. O mais marcante e significativo de todos era o protótipo do 2cv, de 1939. Este exemplar restaurado era o único sobrevivente conheciso dos 250 produzidos, todos eles destruídos para que os invasores alemães não conhecessem os planos e não os utilizassem para fins militares. Contudo, em 1995 foram descobertos outros três exemplares escondidos no “gabinete de estudos” em Ferté-Vidame. o exemplar esteve exposto com a cesta de ovos no banco traseiro, que faz parte da história do modelo. Presente esteve também o extraordinário c10 de 1956, um pequeno utilitário aerodinâmico, em forma de gota, com habitabilidade para quatro ocupantes.com carroçaria de alumínio, janelas em acrílico e suspensão hidropneumática, é movido pelo motor do 2cv e pesa apenas 382kg. Expostos estiveram também o concept Activa e o mais recente Elo mas, para nós, o grande destaque foi o exuberante Karin, o “carro pirâmide”, de três lugares e posição central. Desenhado por Trevor Fiore, este modelo construído em compósito previa também o uso de suspensão hidropneumática. Templo GTI A Peugeot levou até à Retromobile o seu novíssimo 208 E-GTI, e como todos sabemos o quão difícil é para as marcas convencerem os entusiastas de que um EV pode ser desportivo ou excitante, a Peugeot evocou com toda a força o espírito do 205 GTI, com uma mostra espectacular, que além de reunir todas as versões do GTI e CTI, incluindo edições especiais, juntava ainda o Turbo 16 e um exemplar imaculado transformado pela Dimma, com o tradicional “wide-body”. Destaque para o imenso merchandising à venda no stand, em torno do tema 205 GTI. Ode aos pequenos desportivos o outro gigante francês, a Renault, trouxe à Retromobile o seu novo Clio, sujo maior cartão de visita não será o seu aborrecido desenho, mas antes a lista de antepassados. A marca puxou dos galões e levou a Paris um extraordinário conjunto de exemplares históricos que incluíam o primeiro exemplar produzido do Clio Williams, um Clio Sport 172, o Clio v6 e ainda os ícones dos ralis, como o Clio Williams e o Clio Maxi de Ragnotti, além das gerações posteriores. A Renault aproveitou também o salão para promover a sua linha de componentes e acessórios para os seus veículos clássicos. Num stand à parte estava a Alpine, com um bonito A110 SC verde, um Gr.4 de fábrica e aquele que é talvez o desportivo mais caro e especial alguma vez produzido pela marca, O A110 R Ultime. Alemães e derivados A Volkswagen usou a Retromobile para celebrar a história do Golf GTI no seu 500 aniversário. No seu espaço estavam representadas todas as gerações e mesmo algumas versões raras. O espaço da Skoda era realmente especial, com um Fabia WRC “cortado ao meio”, um Skoda 130RS de Grupo 2, e ainda outros ícones de competição da marca. Também da Alemanha, a Porsche montou um espaço onde os modelos modernos tinham talvez demasiado protagonismo, deste O GT3 Touring ao Cayenne eléctrico, mas compensava com dois belos "monstros”: o 919 Hybrid que a equipa Porsche Marc Lieb, Romain Dumas e Neel Jani levou à vitória em Le Mans em 2016 e o 924 GTR, um dos três que alinharam na mesma prova em 1982, movidos por um motor 2.0 Turbo de 375cv. Tesouros do sol nascente As duas marcas japoneses presentes não poderiam ter missões e impactos mais distintos na sua participação na Retromobile. Para a Honda, o objectivo era o de promover o muito pouco convincente Prelude, marcado pelo design amorfo e pela caixa CVT, trazendo consigo um exemplar do primeiro Prelude e também um outro a da série BA, o primeiro modelo de grande produção com quatro rodas direccionais. Já a Mazda, dispensou levar a Paris qualquer modelo da gama actual. Apesar do muito material promocional do MX-5, a marca optou por promover o legado do motor rotativo com três exemplos muito especiais: o elegante Cosmo, o primeiro RX-7 e o monstruoso RB717 vencedor de Le Mans em 1991, que estava constantemente rodeado de fãs de todas as idades, mas sobretudo dos mais jovens, provando o impacto cultural de uma vitória inesperada na mais importante corrida do mundo. O leilão A reboque da Retromobile, acontecem em Paris vários leilões de algumas das maiores leiloeiras do mundo. Normalmente acontecem em simultâneo, mas este ano, alguns começaram e acabaram antes mesmo da abertura do salão. Dentro de portas da Retromobile acontece sempre o leilão oficial do salão, que este ano esteve a cargo da recentemente formada Gooding Christie s.com um lote de veículos excepcional, era o mais aguardado e, como sempre, é visto como um forte indicador do estado e tendência do mercado de clássicos. Uma boa parte dos lotes mais interessantes, era oriunda da famosa “Pearl Collection” do coleccionador Fritz Burkard. De um modo geral, o leilão foi bem-sucedido, com a maioria dos lotes a encontrar comprador. A maioria deles, dentro das estimativas. De entre os automóveis mais antigos, era possível detectar algumas estimativas bastante irrealistas, que não foram alcançadas, o que só vem exacerbar a noção de que o mercado está hoje muito mais voltado para os clássicos de gerações recentes. Por vezes leva-nos mesmo a questionar se não há nisso alguma intencionalidade. Apesar disso, houve algumas surpresas entre os modelos mais antigos e o exemplo mais surpreendente foi talvez o Bedelia BD2 10CV Tandem Cyclecar de 1912, um estranho veículo movido por um motor v2 de 1056cc (em que o passageiro se senta à frente do condutor). Vindo das reservas da colecção Schlumpf, este lote mais do que duplicou a estimativa máxima, atingindo os 94,3006. Também a curiosa Chevrolet Corvair 95 Rampside Pickup de 1963 vinda da Pearl Collection, superou a estimativa máxima em mais de 25%, ao chegar aos 43.700EUR. Destaque ainda para um Mini Cooper S Mkl que superou a estimativa máxima, sendo vendido por 43.700EUR. Acima das expectativas chegou também um Ferrari 250 GTE Serie 3, muito bem restaurado, que foi vendido por 410.0006, valor superior ao habitual para este modelo nos últimos anos. O Lancia Stratos “Stradale” atingiu também um notável resultado de 815.0006, perto da estimativa maxima. Mas também entre automóveis mais modernos houve algumas desilusões, como foi o caso do Porsche 930 Turbo de 1976, exemplar preservado, na cor pérola com os raros mas emblemáticos autocolantes decorativos específicos do modelo, bancos desportivos, autoblocante e tecto de abrir, que foi vendido por 184.0006, bem abaixo da estimativa mínima de 200.0006, em contraste com outro exemplar da versão 3.3, que superou a expectativa máxima, sendo vendido por 314.375EUR. Também se esperava mais do sedutor Venturi 400 Trophy convertido para estrada, vendido por 308.000EUR, apesar do intervalo de estimativa começar nos 350.000EUR Obviamente, é nos automóveis mais antigos que há mais surpresas desagradáveis. O maior exemplo talvez seja o importante Alfa Romeo 6C 1750 Super Sport Series III Tourer de 1929, que foi o primeiro exemplar da marca a alinhar nas 24H de Le Mans. A estimativa começava nos 600.000EUR, mas seria vendido por somente 342.500EUR. Absolutamente decepcionante foi o resultado do Fiat Campagnola 1107 com currículo no Paris Dakar. Este exemplar participou nas edições de 1986 e 1987 do rali mais duro do mundo, mas o seu grande motivo de interesse é o facto de ser movido por um motor do Lancia 037. A estimativa começava nos 135.000EUR, mas o martelo baixou aos 28. 3.750EUR. Esperava-se resultados acima da média em alguns dos automóveis mais modernos do leilão e isso confirmou-se, também graças à qualidade dos exemplares em causa. Foi esse o caso do ultra-raro Ferrari 512TR Speciale, do qual apenas 15 exemplares foram produzidos, que tinha o intervalo de estimativa a terminar os 600.000EUR, mas atingiu os 747.500EUR. Também em Maranello nasceu o recordista do leilão, o 288 GTO com apenas 1500km registados, e que foi vendido por 9.1117.5006, bem acima dos 7 milhões de estimativa máxima. Outro Ferrari, neste caso um Ferrari FXX K Evo, superou a estimativa ao ser vendido por 6.980.000EUR. Um raro Maserati Shamal preto, superou também a estimativa máxima, chegando aos 109.000EUR, apesar de não se apresentar com as jantes originais. Uma das estrelas do leilão e da Retromobile, o Talbot-Lago T150C SS Teardrop Coupe, superou a estimativa mínima ao ser vendido por 6.755.000EUR, ainda assim quase metade do valor pelo qual tinha sido vendido o mais famoso exemplar deste belíssimo ícone da art-deco. Os exemplares submetidos a leilão com preço de reserva não eram muitos e, nesses casos, foi frequente a não concretização da venda. Isso aconteceu numa das estrelas do leilão, o Ballot 3, 8 cilindros de dois lugares, um carro de corrida de grande relevância histórica, que participou por três vezes nas 24h de Le Mans e que se apresenta com um espectacular nível de originalidade. A estimativa começava nos 3,5 milhões e ia até aos 6, mas o interesse dos compradores não foi suficiente para se concluir a venda. O mesmo aconteceu com dois carros que estão entre os nossos preferidos de todo o evento. O primeiro deles é o Fiat 750 Pulidori, um modelo de competição desenvolvido a partir dum Fiat 500, com motor Gianinni e uma carroçaria especial feita pelo artesão Dario Pulidori. Acredita-se que seja o único exemplar sobrevivente e está devidamente documentado com fotos de competição da época, mas não atingiu o valor de reserva e, muito menos a estimativa que estava entre OS 200 e os 300 mil euros. A mesma sorte teve o elegantíssimo e bem restaurado Fiat 1100 Coupé Speciale Allemano de 1953. A extraordinária carroçaria tem desenho de Giovanni Michelotti e este é um de apenas dois exemplares produzidos. As leiloeiras e os portais de vendas Todas as grandes leiloeiras tinham no espaço da Retromobile os seus stands a promover futuros leilões e, como sempre, com magníficos lotes. A Aguttes on Wheels apresentou um imaculado Stratos “Stradale”, ao lado de um Lancia Delta S4 Corsa, dum Alfa Romeo Giulietta SZ “Coda Tronca” e de um Daytona Gr.4, além dum Bizzarrini 5300 GT com uma exuberante “patine”. A RM Sotheby s foi talvez a leiloeira que mais atenções atraiu. Não pelo reluzente Ferrari 250 GT SWB, nem pelo absurdo Singer DLS Turbo. Uma das estrelas do espaço era o McLaren F1 GTR “Longtail”, com historial no campeonato britânico de GT, mas também no campeonato FIA GT, e agora convertido para uso em estrada pela Lanzante. Mas mesmo o McLaren foi facilmente ofuscado pela presença do Lotus 98T-3 com que Ayrton Senna disputou boa parte do campeonato de 1986, vencendo duas corridas. A estimativa situa-se entre os 8 e os 10 milhões de euros, e não será surpresa se os superar. A Artcurial expôs no seu espaço um belíssimo Ferrari Daytona da primeira geração, com faróis cobertos por plexiglass mn em vez dos posteriores escamoteáveis e em verde metalizado. A Carjager exibiu um Lamborghini Countach 5000s branco e um curioso “restomod”: o Citroên DS Grand Palais, uma inédita versão Coupé desenhada por Gérard Godfroy, um dos autores do desenho do Peugeot 205 e do Alpine V6. A Collecting Cars teve também uma presença forte, com um espaço repleto de clássicos modernos, incluindo um Koenigsegg Agera e um 911 GT3 Rennsport, entre outros. Comerciantes, o prato forte. As exposições temáticas tendem a ser o maior atractivo da maioria dos salões, mas na Retromobile, por norma, os “dealers” trazem uma oferta de tal modo estratosférica, que acabam por superar tudo o resto. No 500 aniversário do salão, com toda a atenção mediática, todos se esmeraram. No mundo dos grandes coleccionadores, os modelos de competição são, cada vez mais, alvo de procura. A JMB Classic levou a Paris um conjunto incrível de protótipos de resistência: um Peugeot 908 HDI de 2008, dois Pescarolo, o 01 e o c60 e ainda um BMW V12 LM de 98. E para complementar a oferta, a mesma empresa trouxe um dos dez Bugatti Cientodieci... Como sempre, o espaço da Girardo & co., além de especialmente bem decorado, estava repleto dos Ferrari mais especiais que se possa imaginar. Entre os “previsíveis”, estava a linhagem completa: 288 GTO, F40, F50, Enzo e LaFerrari. A estrela maior do stand foi o 365P #0816, o chassis vencedor das edições de 1963 e 1964 das 24H de Le Mans. Recuando no tempo, fez história o 750 Monza exposto, que foi pilotado na sua época por Carrol Shelby e Phil Hill, para alcançar o segundo lugar nas 12H de Sebring de 1955. A mesma empresa expôs também dois 275 GTB, sendo que um deles foi originalmente pertença de Jean-Paul Belmondo, com vários detalhes de personalização feitos a pedido do actor, para além de uma cor exclusiva pedida expressamente por Ursula Andress, então sua companheira. Outro nome incontornável entre os grandes comerciantes do ramo é o de Simon Kidston, que apresentou um stand com inspiração nos filmes da saga 007 de que é assumido fã. Simon é também fã dos McLaren F1 e, como tal, apresentou dois exemplares: o chassis #007 = que já foi seu automóvel pessoal , e também o GTR Longtail com as cores da Gulf, pilotado por Derek Bell, Gilbert Scott e Masanori Sekiya nas 24H de Le Mans. Além dum Daytona Spyder dum Aston Martin V8 Vantage, entre outros, Kidston expôs o que pode ser considerado um dos mais belos automóveis do salão: um Ferrari 166MM Le Mans Berlinetta. Um exemplar perfeito, num azul único e com um longo historial de competição que inclui três participações nas Mille Miglia originais. Outros expositores impressionavam pelo insólito. A Galerie des Damiers levou ao salão dois exemplares únicos. Um deles era o desconhecido Michelotti Boudot Conrero Coupé. Este exótico modelo nasceu da vontade dum entusiasta em transformar o seu Renault Dauphine em algo exclusivo. Michelotti vestiu-o com uma carroçaria não muito longe do estilo o Alpine A108, Virgilio Conrero preparou um motor de origem Alfa Romeo, elevando-o aos 95cv e Roger Boudot tratou da adaptação do chassis. O outro automóvel do stand era o já famoso OSI Silver Fox, o verdadeiro “catamaran” sobre rodas. Este estranho modelo era uma radical experiência aerodinâmica e saiu da imaginação de Piero Taruffi e monta um motor 1000cc Alpine. As empresas Niki Hasler, P&A Wood e Lukas Huni partilharam o espaço na Retromobile, criando uma das áreas mais especiais do salão. No espaço de Niki Hasler, destaque para dois exemplares excepcionais: um 365 GT4 BB em bronze (Nocciola Metalizatto), com um restauro notável, um 365 GTB/4 “Daytona” em violeta (Viola Dino Metallizato). Além destes, estavam presentes um 250 GTE 2+2, um 250 GT Boano e um 250 GT Lusso, todos em estado de concurso. A Lukas Huni colocou ainda a fasquia mais alta, com um 250GT SWB com longo historial de competição, um 250 GT TdF, um Lancia Flaminia Sport Zagato, um Mercedes-Benz 300SL “azulão”, com jantes Rudge e o Ferrari 333SP vencedor em Sebring. Para os coleccionadores e entusiastas para quem o historial de competição é o maior argumento, o lote de máquinas da Fiskens era arrebatador. Logo à entrada o sexto Shelby Cobra 260 produzido e usado pela escola de Shelby no treino dos actores James Garner (Grand Prix) e Steve McQueen (Le Mans) e usado no filme “The Killers”. Mais atrás, um 289 com que Jo Schlesser venceu algumas provas na época. Ao lado, o chassis 001/01 do Brawn de F1, levado por Barrichelo a vários pódios e oferecido a Button pelo título obtido. Em destaque, o Porsche 956B com que Schuppan, Jarrier e Alan Jones lideraram boa parte das 24H de Le Mans de 1984, que terminaram em sexto. Encantador era também o vitorioso Jaguar D-type de Peter Blond, mas não tanto como o originalíssimo Ferrari Mondial 500 de 1955 ex-André Villas-Boas, que está novamente no mercado, anos depois de ter saído de Portugal. O tema da competição era apenas parte do encanto do stand de Joe Macari onde estava presente, por exemplo, o McLaren F1 chassis 16R do Team Bigazzi, pilotado por Jacques Laffite, Marc Duez e Steve Soper nas 24h de Le Mans de 1996, terminando em 110. Ao lado estava o Maserati MC12 GTI com que Andrea Bertolini e Karl Wendlinger conseguiram alguns resultados de relevo, perto do Mercedes-Benz C AMG que Hakkinen pilotou no DTM em 2005. Destaque ainda para um Audi R18 TDI usado por Allan McNish e Tom Kristensen na Intercontinental Le Mans Cuo de 2011. Juntamente com os modelos de competição, Macari exibiu ainda modelos como os Ferrari 275 GTB/4 de alumínio e 250 G? SWB California Spider, além de um Singer. No centro de tudo, o modelo, encomendado especialmente por Joe Macari a Gordon Murray: GMSV Le Mans GTR, baseado no GMA T50, mas com um desenho exclusivo. Numa dinâmica radicalmente diferente, o especialista suíço Axel Schuette encantou o público com um conjunto de três automóveis de carroçarias “art deco”: Um Talbot Lago T26 carroçado pela Antem, outro carroçado pela Saoutchik e um terceiro carroçado pela Figoni et Falaschi. Um conjunto absolutamente excepcional. A holandesa Gallery Aaldering levou para Paris uma montra composta sobretudo por modelos mais modernos da Ferrari (F40, Enzo La Ferrari Aperta) e de de outras marcas como a Bugatti, e, como aconteceu em casos semelhantes, vários tinham o letreiro “vendido” no primeiro dia do salão. A marca de Portugal e Numa estreia absoluta na Retromobile e sendo único a representar o saber português na arte do restauro, esteve a KTX. A empresa nortenha foi testar a reacção da melhor clientela internacional ao seu trabalho de restauro, sobretudo nas vertentes cuja qualidade pode ser constatada no local. O trabalho de chapa, montagem e de estofos e interiores, estava bem representado através de dois projectos da empresa: um Land Rover Defender personalizado, tanto no exterior como no interior, e um “restomod” dum Porsche 911 Targa, que evidenciava um nível de acabamentos muito superior ao modelo original e feito segundo as especificações do cliente. Segundo os responsáveis da empresa, o interesse demonstrado pelos visitantes, alguns deles comerciantes do sector, superou as expectativas, mas há ainda um longo trabalho a fazer para afirmar o país enquanto produtor de restauros de elevada qualidade, pois a expectativa do mercado é a de que os países periféricos trabalham com base no argumento do preço, “o que no nosso caso não é verdade. Se compararmos outro trabalho de igual nível num país do norte da Europa, vamos ser sempre competitivos, mas o nosso objectivo é fazer perfeito e não barato.” Muito mais para dizer e muito mais para ver Apesar da extensão desta reportagem, muito ficou por dizer e por mostrar acerca desta exposição cada vez mais gigante. é um concentrado do universo dos entusiastas em quase todas as vertentes, tornando-se mais completo a cada edição e cada vez mais uma visita obrigatória. 14 Reportagem RETROMOBILE Reportagem exclusiva da histórica 50a edição do maior salão mundial. Hugo Reis