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FOGUETÃO DA SPACEX - PORTUGAL LANÇA HOJE CINCO SATÉLITES DE UMA SÓ VEZ NO ESPAÇO

Público

2026-03-30 21:06:20

Quatro dos satélites são da empresa LusoSpace e têm nomes de poetas e escritores portugueses. Outro é da Força Aérea Portuguesa. Vão para o espaço no foguetão Falcon 9, da SpaceX Por Teresa Firmino Chamam-se Camões, Agustina, Pessoa e Saramago e farão parte da constelação de satélites Lusíada, da empresa LusoSpace. Têm a partida marcada para hoje a bordo do foguetão Falcon 9, da SpaceX, que descolará às 11h20 (de Lisboa) da base de Vandenberg, na Califórnia, EUA. Os quatro satélites seguem a bordo na companhia de um outro satélite da Força Aérea Portuguesa, o primeiro da Constelação do Atlântico. Este número de aparelhos portugueses a ir para o espaço de uma só vez é inédito -motivo para uma cerimónia no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, no momento da descolagem do foguetão. É pelo nome dos quatro satélites que Ivo Vieira, director-geral da LusoSpace e co-fundador da empresa em 2002, prefere começar a conversa, antes de entrar nos detalhes técnicos e para que servirão estes aparelhos. A ideia de a empresa aeroespacial portuguesa homenagear Luís de Camões, Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa e José Saramago surgiu a partir de um email da filha de Agustina Bessa-Luís, Mónica Baldaque, enviado à LusoSpace a poucos dias do lançamento do seu primeiro satélite, o PoSat-2, em Janeiro de 2025. "A filha da Agustina Bessa-Luís escreveu-nos a perguntar se podíamos pôr um livro da mãe no nosso satélite. Era uma forma de a homenagear. Faltavam 15 dias para o lançamento do PoSat-2 e o satélite já nem estava cá", conta Ivo Vieira. Tal proposta já não era exequível, portanto. "Mas fiquei a pensar nisso: podia ser uma boa ideia dar o nome de poetas e escritores aos nossos satélites", acrescenta. "Era complicado." Em vez de incluir livros nos satélites, uma vez que o peso a transportar para o espaço é sempre uma questão sensível, a LusoSpace pediu a familiares dos escritores que escolhessem uma frase e que a colassem nos respectivos aparelhos, enquanto a escolha de Camões coube à empresa. Como tudo surgiu a partir do contacto de Mónica Baldaque, o nome de Agustina Bessa-Luís só podia estar entre os escolhidos. "Luís de Camões, porque estamos a celebrar os 500 anos do nascimento. Fernando Pessoa foi um dos grandes poetas portugueses: não podia escapar de todo. E José Saramago, porque é um prémio Nobel", explica Ivo Vieira, contando que, além de Mónica Baldaque, os autocolantes com as frases foram colados pela filha da sobrinha-neta de Fernando Pessoa e pela viúva de José Saramago, Pilar del Río. Esclarecida que está a questão dos nomes, Camões, Agustina, Pessoa e Saramago vão estar a 500 quilómetros de altitude, numa órbita polar. "Vão do pólo Norte ao pólo Sul e, como a Terra roda, acabam por apanhar qualquer ponto do globo", assinada o director-geral da LusoSpace. Com a chegada dos quatro aparelhos ao espaço, com 14 quilos cada um de massa, a empresa aeroespacial portuguesa passará a ter uma constelação de satélites - chamada Lusíada, novamente uma homenagem a Camões -, que incluirá também o PoSat-2, este com 5,4 quilos. "Passamos a ter uma constelação de cinco satélites, que permitem providenciar comunicações marítimas para os navios", refere Ivo Vieira, atirando de seguida um dos objectivos futuros da empresa: "Através destas comunicações marítimas, vamos criar o ?Waze para os oceanos", como lhe chama. A constelação Lusíada A Lusíada, que virá a ter 12 satélites no total, num investimento de 15 milhões de euros, é a primeira constelação que terá o sistema de comunicações VDES, a sigla de VHF Data Exchange System. "A parte do VDES é inovadora. Somos a primeira constelação a nível mundial com VDES", realça o engenheiro aeroespacial. Por agora, há apenas um punhado de satélites isolados no espaço com a tecnologia VDES, não funcionando, portanto, numa constelação: o Ymir-1 (a empresa AAC Clyde Space); o Norsat2 (da Space Norway/Kongsberg); o Sternula-1 (da Sternula); e dois satélites da empresa japonesa ArkEdge Space, lançados em 2025. A tecnologia VDES permitirá fazer comunicações marítimas, bem como proceder à localização de navios no mar. Actualmente, para comunicar no mar, os navios perto da costa utilizam VHS e longe da costa é por satélite, como as constelações Starlink (de Elon Musk) e da Inmarsat. "Por VDES é muito mais barato", diz Ivo Vieira. Já a localização e identificação dos navios faz-se hoje pelo sistema AIS (Automatic Identification System). "Há o Starlink e outros sistemas que providenciam comunicações no oceano e noutros locais, mas são caros. Nós usamos outro sistema - o VDES, que é inovador e que permite enviar e receber mensagens curtas. Não é em tempo real, mas permite fazer isto a um preço mais acessível do que o Starlink e outros sistemas. E quando há tempestades, tem a vantagem de conseguir comunicar à mesma, porque tem outro tipo de comprimento de onda", destaca. Assim, a constelação Lusíada começará por oferecer um serviço de mensagens, que ainda está a ser desenvolvido. "A primeira fase vai ser um serviço de mensagens como o que existe com SMS ou WhatsApp. Na segunda fase, o ?Waze do oceano será uma plataforma como a da Waze: é uma plataforma de partilha de informação, que ajudará à navegação e melhorará a segurança nos oceanos", adianta Ivo Vieira. O sistema de mensagens deverá estar operacional no final de 2027, enquanto o "Waze do oceano" será pelo final de 2028. Relativamente ao serviço de mensagens através de VDES, Ivo Vieira esclarece que elas podem ser trocadas entre qualquer um de nós ou com as autoridades. "Da mesma forma que posso usar o meu telemóvel para enviar SMS para contactos conhecidos, posso enviar para um número de alguma autoridade. Não consigo dar pormenores adicionais, porque ainda não estamos a desenvolver esse serviço", diz. Adianta só que "vai permitir que entidades governamentais partilhem informação sobre o estado do mar, o fundo do mar, a meteorologia e alertas à navegação". Já este Verão, a empresa começará a vender dados dos seus cinco satélites, por sinal ainda será informação baseada no tradicional sistema AIS: "Isto vai ser a principal receita de financiamento do projecto. Esta informação é bastante valiosa. São empresas que querem analisar a probabilidade de a carga de um navio - cereais, petróleo... - chegar a tempo. E as seguradoras, e quem trabalha na bolsa, querem essa informação para perceber o nível de risco, agora com [a questão do conflito no Irão e do] estreito de Ormuz ainda mais." Estes dados serão vendidos a empresas que os processarão e, por sua vez, venderão a informação aos interessados. Quanto ao "Waze do oceano", a ideia é que as embarcações alimentem o sistema com informações que adquirem no mar, desde meteorológicas a outras, como a presença de uma mancha de óleo, de icebergues à deriva ou o avistamento de baleias. "Se se vir uma embarcação suspeita - existem zonas no globo onde há piratas do mar -, pode-se pôr um pin e alertar as autoridades e todas as embarcações. Se houver um sinal de emergência de uma embarcação que precise de auxílio, as embarcações ao lado recebem essa informação", exemplifica Ivo Vieira. "O Waze do oceano vai demorar mais, porque temos de criar a comunidade e é um sistema mais complexo." O modelo de negócio, que se centra na venda de serviços, ainda não está totalmente definido, admite, uma vez que a empresa teve de se focar no lançamento da infra-estrutura para aproveitar a "oportunidade do PRR", o Plano de Recuperação e Resiliência, que financia dez dos 15 milhões do custo da constelação, sendo os restantes cinco milhões oriundos de "empréstimos ao banco, capital de risco e autofinanciamento". "Tivemos de avançar para desenvolver e lançar os satélites", diz. As peças de hardware, como se de um lego se tratasse, foram compradas principalmente à empresa Clyde Space e depois montadas e testadas na LusoSpace. Ainda assim, as antenas de VDES foram desenvolvidas pela LusoSpace, com a participação do Instituto de Telecomunicações, do INEGI - Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial e da empresa portuguesa Frezite High Performance. Já o ISQ fez os testes aos satélites. Se parte do software também foi comprado a uma empresa britânica, o software do sistema de operação está a ser desenvolvido pela LusoSpace. A Marinha Portuguesa está também envolvida neste projecto, indo testar as comunicações através da tecnologia VDES com os satélites da constelação Lusíada. O país "poderá ter um sistema soberano, controlado em Portugal, para comunicações com navios", salienta Ivo Vieira. E a Constelação do Atlântico Por sua vez, a Força Aérea Portuguesa (FAP) avança para o primeiro satélite que detém, comprado à empresa finlandesa Iceye. Trata-se de um satélite radar de abertura sintética (SAR). "É o primeiro de uma rede de 12 satélites SAR, tendo a designação CA01, de Constelação do Atlântico 01", realça o coronel Pedro Costa, chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea. "A operação será integralmente realizada pela Força Aérea, num quadro de dual-use [uso duplo, civil e militar], salvaguardando a segurança do fluxo da informação." Este satélite tem outra tecnologia e outros propósitos. "O CA01 será o primeiro satélite da Constelação do Atlântico na tecnologia SAR, que permite ver através das nuvens e em momentos de baixa luminosidade, contrariamente à tecnologia óptica, que está dependente da luz e meteorologia", diz Pedro Costa. "Até 2030, pretende-se lançar 12 deste género, para garantir um tempo de revisita [do mesmo ponto da Terra] igual ou inferior a 30 minutos." Portuguesa e espanhola, a Constelação do Atlântico prevê no seu braço português 26 satélites - 12 SAR e 14 ópticos, num investimento à volta de 150 milhões de euros do PRR. O braço português foi construído com requisitos de defesa, para uso duplo, tendo todos os satélites uma resolução de 25 a 30 centímetros por pixel, enquanto a resolução dos satélites do braço espanhol é apenas de 2,5 metros. "O lado português da constelação está a ser todo edificado de acordo com os requisitos de defesa nacional e europeus", frisa. E se os 12 satélites SAR são da responsabilidade da FAP, a operação dos 14 satélites ópticos é da empresa portuguesa Geosat e o desenvolvimento é do Ceiia - Centro de Engenharia e Desenvolvimento. Outra particularidade é a criação do Centro de Tecnologia e Inovação Aeroespacial, que junta a FAP, o Ceiia e a Geosat para vender os serviços da constelação: "Será a entidade que permitirá uma aplicação do duplo uso da tecnologia, procurando potencial a comercialização de serviços e garantir a sustentabilidade da constelação", diz. "Todos os satélites SAR vão operar na altitude de 560 quilómetros, ligeiramente acima da constelação Starlink, em órbita baixa, com características polares. Excepto o CA03 e o CA07, que terão órbitas inclinadas dedicadas, para apoio particular aos Açores e da Madeira." Embora tenha cobertura global, a constelação está a ser construída "para um apoio prioritário à região do Atlântico sob responsabilidade nacional", que "tem a dimensão próxima do território terrestre da Europa". "Nesta área, a defesa nacional assume responsabilidade no apoio marítimo, mas também na busca e salvamento, bem como no tráfego ilícito de matérias e tráfego humano, por exemplo", destaca Pedro Costa, para quem as novas capacidades do país a partir do espaço serão importantes para apoiar missões aéreas e navais. Já durante este ano, a Força Aérea espera lançar um total de quatro satélites da tecnologia SAR, todos comprados à Iceye, tendo cada um 120 quilos. "Os primeiros quatro satélites vão permitir o desenvolvimento de competências, adaptação de processos, mas sobretudo formação de pessoas qualificadas para depois, a partir do CA05, serem totalmente integrados em Portugal, na ?fábrica de satélites de Alverca", refere. A partir do quinto, os satélites SAR da constelação terão 230 quilos. Para já, o primeiro satélite custou à volta de dez milhões de euros do PRR - investimento que inclui o satélite, uma antena em Paços de Ferreira e a rede de fibra óptica para interligação ao Centro de Comando e Controlo da Força Aérea, segundo Pedro Costa, dizendo que a aquisição do satélite CA01 permitiu desenvolver competências e infra-estruturas como antenas. A este propósito, o segundo satélite inclui uma antena na ilha do Porto Santo e acesso a 17 no mundo. De uma assentada, os cinco novos satélites portugueses deverão juntar-se hoje a outros cinco já no espaço. Mais de 30 anos após o envio do PoSat-1, o primeiro satélite português, em 1993, e hoje inoperacional, Portugal voltava a lançar satélites: em Março de 2024, o Aeros (desenvolvido pela Thales Edisoft e pelo Ceiia); e em Julho, o ISTSat-1 (de estudantes e professores do Instituto Superior Técnico). Em Janeiro de 2025, seguia o PoSat-2 e o Prometheus-1 (destinado a alunos da Universidade do Minho). Resta revelar as frases de cada poeta e escritor. De Luís de Camões: "Que quem quis, sempre pôde." De Agustina Bessa-Luís: "A terra é o eterno movimento do tempo bíblico. Ela é criada para o homem, e é-lhe negada depois; é repartida, destruída, prometida sucessivamente. [...] Começa por ser feita de poeira e de ervas que secam, depois amplia-se até às estrelas, até ao mais íntimo segredo dos homens." De Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena." Por fim, de José Saramago: "Nós somos o outro do outro." Três, dois, um - partida do Camões, Agustina, Pessoa e Saramago. Em Junho, o Falcon 9 lançará mais três satélites da Lusíada e os restantes quatro entre Outubro e início de 2027. Também 2026 será movimentado para a Constelação do Atlântico, com lançamentos no Falcon 9 para Maio (CA02), Setembro (CA3) e Outubro (CA4). Em suma, mais seis satélites portugueses (pelo menos) estarão a caminho do espaço este ano. Fábrica de satélites nasce em Alverca Encontra-se em construção uma fábrica de satélites em Alverca, que deverá estar concluída em meados deste ano, avança o chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea, Pedro Costa. Esta fábrica - cujo nome é Alverca Space Hub - começará por se dedicar à construção de oito satélites de radar de abertura sintética (SAR) da Constelação do Atlântico, que hoje verá o seu primeiro aparelho lançado. Enquanto os primeiros quatro satélites SAR da Constelação do Atlântico, entre os 12 deste tipo no total, são comprados a uma empresa finlandesa, os restantes oito já serão construídos de raiz em Alverca. São satélites que terão à volta de 230 quilos. Situada nas instalações da Força Aérea em Alverca, e custando a sua construção à volta de 1,5 milhões de euros, os planos para a fábrica extravasam a Constelação do Atlântico, uma vez que se pretendem montar aí também satélites para outros países. "Um satélite é um objecto estratégico. Pode-se pôr num satélite uma coisa para a defesa que não quere- mos que seja numa fábrica onde passa toda a gente. A Europa não tem instalações onde haja condições de segu- rança para fazer satélites para aplicações de defesa. Olha muito para o espaço para fins comerciais e não para fins de aplicações de segurança e defesa", assinala. Por isso, os países europeus, explica, mon- tam os seus satélites militares em fábricas civis. "Há esta lacuna. Estamos atentos e a procurar aproveitar esse facto, construindo instalações onde se possam montar satélites com aplicações de defesa para países europeus", diz Pedro Costa, pelo que a fábrica de Alverca vai "permitir integrar satélites em instalações de segurança". "A ideia é termos um modelo de negócio em torno da Constelação do Atlântico que seja sustentável", diz. "No futuro pode ter outras tecnologias, mas por agora será para tecnologia SAR." Em Portugal, esta será a primeira fábrica de satélites de tecnologia radar, que permite ver o planeta com o céu nublado e de noite.