OS SETE PECADOS CAPITAIS SEGUNDO MÁRIO RUI OLIVEIRA
2026-03-31 21:09:07

Teólogo e especialista em direito canónico aborda os sete pecados capitais tratando-os como “relações deformadas”. Apresentação de livro contou com três conferencistas. A Comissão da Quaresma e Solenidades da Semana Santa e a Paulinas Editora promoveram ontem, na Capela da Imaculada Conceição - Espaço Vita - em Braga, a apresentação do livro A Estrela e o Espelho - Compreender hoje os Pecados Capitais , de Mário Rui Oliveira. “Este livro não é nada do que ouviram aqui, não o ponham na prateleira”, pediu o autor no fim da apresentação, que incluiu, após meia hora de autógrafos, cerca de uma hora e meia de conferências por Guilherme Macedo, presidente da Organização Mundial de Gastroenterologia e director de serviço no Hospital de S. João, por José Teixeira, engenheiro e presidente do grupo dst, e por D. Nélio Pita, bispo auxiliar de Braga e doutor em psicologia. Houve ainda uma intervenção (não estava no programa) da freira Eliete Duarte, da Paulinas Editora, que confessou ter sido “um desafio” a proposta feita pelo autor para a publicação do livro, “porque hoje as pessoas já não querem ouvir falar destes pecados”. Viam-se sentados na primeira fila entre outros, o arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, o seu antecessor, D. Jorge Ortiga, ou ainda a vereadora da Educação na Câmara Municipal de Braga, Hortense Santos, o provedor da Santa Casa de Misericória de Braga, Bernardo Reis e, mais atrás, entre cerca de uma centena de pessoas por exemplo, João Nunes, o presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários de Esposende. O primeiro conferencista a usar da palavra foi Guilherme Macedo, que considerou tratar-se de “um extraordinário livro de peregrinação interior”. Focou a sua intervenção no pecado da gula. Caracterizando o guloso como o que mantém relação deformada com a comida - nota: esta é uma concepção também utilizada pelo autor na página 29 - lembrou que as pessoas muitas vezes também comem por puro impulso social, para a celebrar, compensar estados emocionais ou mesmo por stress. “Comer é humano, mal comer é humano”, resumiu o médico. Por sua vez, José Teixeira, que na sua conferência versou sobre os pecados capitais na arte e na literatura referiu escritores como Sartre, Proust, Nietzsche, Vinicius de Moraes, Tolentino de Mendonça, ou Susan Sontag. Esta ensaísta americana, lembrou o presidente da dst, considerou que mesmo nas obras de pornografia “pode haver algum valor literário”. Também citou o bracarense padre João Torres, que considerou a Igreja uma organização “centralista” porque “tudo se decide em Roma”. O terceiro conferencista, Nélio Pita, abordou Evágrio Pôntico, o cartógrafo da alma e da psicologia humana avant Freud , com propostas de relação entre as ideias do monge do século IV e o dito pai da psicanálise. “Que a luta espiritual se tenha tornado tema de arquivo histórico mostra bem o quanto nos tornámos ignorantes acerca de nós próprios. Não será esta uma das mais graves iliteracias do nosso tempo”, começa por escrever, em prefácio, o bispo auxiliar de Lisboa, Alexandre Palma. Nas restantes cerca de cento e trinta páginas, o autor, que nasceu em Joane - Famalicão em 1973 e se ordenou sacerdote em Braga no ano de 1997, propõe um mapa interior para o deserto da alma, explorando como os pecados capitais (paixões) deformam a relação do ser humano com o corpo, os bens, o próximo e Deus. Começa com as paixões-mãe ou tentações primordiais, como se pode ler na página 15 “vendo a mulher que o fruto da árvore seria bom para comer...” e vai por fim ao orgulho ou soberba, que aborda como uma “relação deformada com Deus”. Pelo meio passa pela gula, e depois pela luxúria, pela avareza, pela ira ou cólera, pela tristeza e acédia - neste caso a “relação deformada com o espaço” e ainda a invéja e a vanglória. Mário Rui Oliveira, que estudou Teologia e Direito Canónico em Roma e aí vive e trabalha desde 2007 no Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, tendo sido nomeado em 2024 chefe da Chancelaria, procura com a “Estrela” simbolizar a luz, o alto e a graça que nos atrai, enquanto o “Espelho” representa o ego e as armadilhas da nossa própria imagem - e remete para o narcisismo. Rui Serapicos