EDITORIAL - PASSADO NO MUSEU
2026-04-02 21:09:11

Os fabricantes chineses de automóveis não possuem a riqueza histórica dos rivais europeus e norte-americanos que dominaram a indústria e o mercado por mais de 100 anos, mas o passado expõe-se em museus e não garante nenhum futuro. A concorrência é cada vez mais maior e a mudança de paradigma tecnológico, do motor de combustão para o elétrico, pode redesenhar o mapa do setor, com mais protagonistas novos e menos antigos. No ano passado, a BYD, empresa criada em 1995 como fabricante de baterias e que tem divisão automóvel (BYD Auto) apenas desde 2003, pela primeira vez, entregou mais carros novos do que a Ford, companhia fundada em 1903, e progrediu para a sexta posição no ranking dos maiores construtores, atrás apenas da Toyota, do Grupo Volkswagen, da Hyundai-Kia, da General Motors e da Stellantis. A primeira, chinesa, vendeu 4,6 milhões de unidades, e a segunda, norte-americana, 4,4 milhões. O crescimento da BYD demonstra a capacidade formidável da indústria automóvel chinesa, sobretudo em matéria de carros elétricos e híbridos, facto que aumenta a pressão sobre os gigantes tradicionais do setor a marca asiática, neste percurso, também “arrasou" a norte-americana Tesla, que produz apenas elétricos e vendeu 2,25 milhões de unidades no ano passado. Os mercados de exportação são cada vez mais importantes para a BYD Auto, mas representaram “apenas” 25% das vendas no ano passado, devido ao crescimento registado na China, de 25,6 milhões de automóveis em 2024 para 27,3 milhões em 2025 (+6,7%) , comparativamente, nos EUA, o progresso foi de 2,2%, de 15,9 para 16,3 milhões, e, na Alemanha, apenas 0,6%, com 3,2 milhões em vez de 3,1. E a conquista do mercado automóvel europeu pelos fabricantes chineses também tem expressão nos números. No ano passado, a Europa importou mais automóveis da China do que exportou, o que aumentou o défice na balança comercial. Assim, as receitas do Velho Continente baixaram 34%, para 16.000 milhões de euros, enquanto as do Império do Meio subiram 80%, para 22.000 milhões de euros. Em 2019, no frente a frente com a China, o excedente da Europa era de 23.000 milhões de euros! Também no mercado doméstico, os chineses estão cada vez mais em vantagem. Em 2025, crescimento de 4,8% na quota, para 65% das vendas (o que representou mais de 15 milhões de carros). A União Europeia (UE) estuda um plano para a salvação da indústria na região, mas serão trancas à porta depois de atingido este ponto de quase não retorno?! jcaetano@e-auto.pt JOSÉ CAETANO