CRITICAL SOFTWARE NO TOP GUN DOS CAÇAS SUECOS
2026-04-02 21:09:11

Tecnológica portuguesa desenvolve simulador de combate aéreo com base em IA para a Saab O programa é uma espécie de Maverick contra Iceman virtual para pilotos a sério e chama-se Top Gun AI. O nome hollywoodesco tem o apelo de um blockbuster para designar o projeto em que a empresa sueca Saab, fabricante dos caças Gripen, envolveu a tecnológica portuguesa Critical Software. A colaboração, que nasceu de um memorando de entendimento assinado pelas duas companhias em setembro, consiste no desenvolvimento de um simulador com base em inteligência artificial (IA) para treino dos pilotos dos caças que os suecos querem vender a Portugal para substituir os F-16 da Lockheed Martin. Apesar de ter as Forças Armadas portuguesas como clientes em vários projetos, a Critical Software continua a crescer no estrangeiro na área da Defesa, a fornecer serviços ao gigante alemão Rheinmetall na área dos drones, ou à Diehl Defence nos mísseis guiados, ou à Rohde & Schwarz. “Estes clientes estão com um ritmo de crescimento absolutamente estratosférico. Não têm mãos a medir e pedem-nos imensas coisas”, diz ao Expresso João Carreira, CEO da Critical Software. Se dependesse apenas do mercado interno de Defesa nos últimos 25 anos, a tecnológica, com escritórios na Alemanha, Reino Unido e EUA, “já tinha desaparecido”, diz o gestor. Os ramos portugueses das Forças Armadas por vezes pedem propostas, mas depois “não se sabe mais nada durante um ano” e os orçamentos são muito baixos. Embora a empresa não esteja, para já, a sentir o reflexo do aumento do investimento militar em Portugal, João Carreira espera que haja “mais movimento” nacional, porque “na Alemanha é uma loucura com os budgets”. A invasão da Ucrânia e o afastamento dos EUA face à Europa estão a mudar a indústria. A Critical Software tem as Forças Armadas como cliente em vários projetos e continua a crescer no estrangeiro na área da Defesa O projeto sueco Top Gun AI é um exemplo das parcerias estratégicas que a Saab quer estabelecer com empresas portuguesas, como um dos argumentos para a venda dos caças Gripen à Força Aérea. Johan Segertoft, vice-presidente da Saab para os aviões de combate, esteve recentemente em Lisboa a visitar a Critical Software. “Estamos a desenvolver uma solução com IA, gamification e data analysis para treino de pilotos dos Gripen”, explica João Carreira. “O piloto entra num simulador e tem todo um ambiente recriado, feito para IA, e tem um piloto de IA a combater contra ele.” “Isso é interessante porque é mais um elemento neste caminho para desenvolver pilotos de caças em IA, totalmente autónomos”, diz. No ano passado, a Saab anunciou ter completado um voo de um Gripen, com manobras complexas, controlado pelo Centauro, um sistema de IA da tecnológica alemã Helsig. Segundo o gestor, a Saab “já fez experiências com copiloto de IA”, em que “o piloto tem um copiloto de IA ao lado e em que pode não estar em controlo do avião, mas pode sempre intervir”. Adianta que “um piloto de IA reage mais rapidamente, está ligado instantaneamente a todos os sensores do avião e a todos os sistemas de armas. É inevitável que seja melhor do que um piloto humano”. Como se tem visto com a polémica entre a Anthropic e o Pentágono - a Administração norte-americana não aceita as diretrizes com limites éticos desta empresa tecnológica e castigou-a -, o uso de IA na área militar levanta dilemas. Quem define o que é um alvo? Quem avalia o grau de destruição de um ataque ou a perda de vidas humanas? João Carreira enquadra-se na linha da Anthropic e entende que as empresas devem ter limites neste domínio. “Nós temos uma filosofia”, enquadra. “Somos uma empresa cujo motto é safety, e é por isso que nos chamamos Critical Software, na medida em que fazemos sistemas fiáveis e que não podem falhar.” Segundo o gestor, a Critical tem “mecanismos de verificação, validação, certificação, safety, e portanto a IA introduz uma dimensão nova. O nosso posicionamento é: de facto, fazemos a IA com segurança. Alinho-me muito com as preocupações da Anthropic”. A empresa ainda não está a sentir o reflexo do aumento do investimento militar em Portugal mas espera que haja “mais movimento” E compara o projeto com a Saab à parceria com a BMW, que resultou na joint-venture Critical TechWorks para a conceção da nova linha Neue Klasse, um software-defined car, ou seja, um automóvel elétrico concebido a partir da programação para a parte industrial, e não o contrário, como era tradicional no sector. “No caso da Defesa”, argumenta o gestor, “acho interessante que na Saab estão a fazer um software-defined jet. Começaram a desenhar o modelo Gripen E como sendo um computador, que depois tem um sistema de armas, tem jato, tem sensores, tem radares, mas o core é um computador”. De resto, o mantra da empresa sueca como argumento para vender a flexibilidade do caça é “fazer código de manhã para voar à tarde”, num momento em que os F-35 norte-americanos da Lockheed Martin - os preferidos da Força Aérea portuguesa, tidos como os mais avançados do mundo - estão com problemas ao nível de software. Outro cliente no sector da Defesa é a Rheinmetall, com a qual a tecnológica portuguesa trabalha na área dos drones, mas João Carreira não revela detalhes, por serem projetos “confidenciais”. No caso da igualmente alemã Diehl Defence, a Critical Software integra o consórcio europeu do projeto BEAST (Boosting European Advanced Missile System Technology), que está a desenvolver um sistema de mísseis de curto alcance com IA, uma das lacunas da Europa - financiado em EUR35 milhões pelo Fundo Europeu de Defesa. “Somos os responsáveis por introduzir IA no sistema de guidance dos mísseis”, informa João Carreira, que também espera explorar oportunidades semelhantes nos EUA, onde a Critical comprou recentemente uma empresa, em Pittsburgh, que trabalha em áreas críticas na ferrovia, saúde e defesa. A Critical Software trabalha há muitos anos com as Forças Armadas portuguesas, fornecendo o Combat Management System para a Marinha, o Battlefield Management System para o Exército, “um sistema que mostra o campo de batalha com dados de diferentes sensores e alvos”, diz João Carreira, e outro sistema semelhante para a Força Aérea, mas que foi menos desenvolvido. Defesa investe EUR5,8 mil milhões Portugal recorreu ao programa europeu Security Action For Europe (SAFE) - que no total vale EUR150 mil milhões - para financiar compras de equipamento militar no valor de EUR5,8 mil milhões, e que pode chegar aos EUR8 mil milhões com juros. Os primeiros dez anos são de carência no pagamento de capital, e o empréstimo europeu pode ser pago até 2080. O valor deste investimento equivale ao total da Lei de Programação Militar para 12 anos, e que será revista este ano, significando que o investimento em defesa vai subir. Mais de EUR3 mil milhões em fragatas A maior fatia do empréstimo europeu será para a Marinha comprar três fragatas aos estaleiros italianos Fincantieri, que deverão custar mais de EUR3 mil milhões. Os detalhes do pacote ainda são desconhecidos, mas serão ainda adquiridos veículos médios de combate, viaturas táticas, artilharia de campanha, munições e sistemas antiaéreos, satélites de alta definição e drones. A compra das fragatas terá como contrapartida o investimento de EUR200 milhões no Arsenal do Alfeite, a aquisição de viaturas Boxer à Rheinmetall deve levar à instalação de uma fábrica em Portugal, os satélites são portugueses e fabricados em Alverca e os drones também devem ser adquiridos a empresas nacionais. Compra de caça por definir A Critical Software está a desenvolver o projeto do simulador com os suecos da Saab, que está ativamente a tentar vender os caças Gripen à Força Aérea, embora ainda não tenha sido aberto um procedimento para a substituição dos aviões de combate F-16. Apesar de o ministro da Defesa, Nuno Melo, já ter manifestado reticências à compra de material norte-americano, o principal concorrente são os caças invisíveis F-35 da Lockheed Martin, de 5ª geração, mas os Rafale da francesa Dassault também estão na corrida. O ministro disse no Parlamento que terá de começar a pensar na substituição dos caças na Lei de Programação Militar que deve ser revista este ano. Vítor Matos Jornalista Vítor Matos / Nuno Botelho