EXPANSÃO VIKING
2026-04-02 21:09:12

Do Ikea às bazucas da Saab. Suécia aposta forte em Portugal Investimento As 260 empresas suecas presentes em Portugal empregam 18 mil pessoas e contribuíram com 4,2 mil milhões de euros para a economia portuguesa nos últimos cinco anos. No mesmo período, estas empresas investiram mais de 1,1 mil milhões de euros no país. asarmento@medianove.com Debaixo das ruas tranquilas de Estocolmo, onde a cidade respira história e modernidade à superfície, existe um mundo subterrâneo dedicado à exploração de recursos minerais. Poucos imaginam que, sob a sede da Epiroc (que significa “rocha” em português), se estende uma mina artificial com mais de 3,3 quilómetros de túneis , um verdadeiro laboratório onde o futuro da indústria mineira é testado diariamente. e neste ambiente controlado que as máquinas ganham vida. Equipamentos de perfuração avançam pela rocha com uma precisão quase cirúrgica, enquanto engenheiros monitorizam cada movimento, cada vibração, cada detalhe. A Epiroc, gigante do setor, com atividade em 150 países, fornece equipamento de perfuração e exploração de superfície e subterrânea, transporte e carregamento, acessórios hidráulicos e aço de perfuração.com presença em Oeiras e Aljustrel, onde conta com um centro de serviços, trabalha diretamente com a maior mina do país, a Somincor , Sociedade Mineira de Neves-Corvo, estando ainda presente na Almina Aljustrel, fazendo ainda parte do projeto Linha Ruby do Metro do Porto. “Estamos atentos a novas oportunidades de negócio em Portugal”, diz Ola Kinnander, media relations da empresa que emprega atualmente 52 pessoas em Portugal, ao Jornal Económico. Este dinamismo empresarial insere-se num contexto de forte relação económica entre Portugal e a Suécia. Entre 2020 e 2024, as empresas suecas investiram 1,1 mil milhões de euros em território nacional, gerando um valor acrescentado bruto de 4,2 mil milhões de euros e, em 2024, empregavam mais de 18 mil pessoas. "Portugal tem vindo a afirmar-se como um dos principais centros tecnológicos da Europa, como plataforma para a expansão global, bem como um local atrativo para a relocalização de operações globais. A combinação entre custos competitivos e qualidade, aliada a uma infraestrutura tecnológica e uma elevada qualidade de vida, tem permitido a expansão de várias empresas suecas ao longo das últimas décadas”, diz Jennifer Ekstrõm, presidente da Câmara de Comércio Luso-Sueca, ao Jornal Económico. A balança comercial entre os dois países é equilibrada. De acordo com dados da Câmara de Comércio Luso-Sueca, as exportações de bens portugueses para a Suécia totalizaram 1,14 mil milhões de euros em 2024, com um aumento de 113% entre 2020-2024, enquanto as exportações de bens suecos para Portugal totalizaram 875 milhões em 2024, tendo crescido 41% entre 2020-2024. A Suécia é já o 110 destino das exportações portuguesas , à frente de países como O Bra-sil e Marrocos. “A Suécia e Portugal têm uma relação de longa data e continuam a reforçar os laços comerciais. Os dois países revelam várias sinergias, com destaque para o comércio, funcionando como portas de entrada para mercados globais e como mercados de teste atrativos, com boas infraestruturas e pessoas curiosas e inovadoras”, acrescenta Jennifer Ekstrõm. Da mineração à defesa A engenharia sueca destaca-se também nos céus. No setor da Defesa, o caça Gripen E, produzido pelo grupo sueco Saab, é apontado como alternativa para substituir OS F-16 na Força Aérea Portuguesa. “Acreditamos que este Gripen E é um excelente produto para Portugal, se decidirem nesse sentido. e um avião muito eficiente em termos de custos. Foi desenhado assim desde o primeiro dia. E não é algo que possa ser mudado posteriormente”, afirma Daniel Boestad, vice-presidente de desenvolvimento de negócios do programa Gripen, ao Jornal Económico. A aproximação do grupo sueco de defesa e segurança a Portugal não começou agora. Em setembro do ano passado, a Saab aterrou em Lisboa para assinar dois memorandos de entendimento com a OGMA e a Critical Software. Mais tarde, foi a vez do AED Cluster Portugal (cluster português para as indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa) deslocar-se à Suécia para rubricar um novo acordo que aprofunda ainda mais a cooperação entre os dois países. A empresa sueca já fornece uma ampla gama de equipamentos às forças de defesa nacional, incluindo sensores, tecnologias de camuflagem, bazucas e radares. O submarino A26, que lança drones, mergulha até ao fundo do mar e opera invisível aos radares em missões secretas da NATO, poderá ser uma das próximas apostas da marinha portuguesa. Também a Essity, líder global no setor de higiene e saúde, conta com 400 colaboradores em Portugal. Em 2022, criou o centro de serviços partilhados da empresa, localizado no Parque das Nações. “Portugal é um hub estratégico para nós”, diz Per Lorentz, vice-presidente de comunicações corporativas, ao Jornal Económico. Empresas como Securitas (4.470 trabalhadores), Ikea (3.200), Ikea Industry (1.752) e Boliden Somincor (1.324) destacam-se como os maiores empregadores suecos no país. Esta última, produtor europeu de metais sustentáveis, é uma das maiores exportadoras do país e está entre as 100 maiores empresas de Portugal. Localizada na região do Alentejo, no sul de Portugal, a Somincor é uma mina subterrânea que produz principalmente cobre, zinco, chumbo e prata. A fábrica é altamente automatizada e utiliza vários métodos de mineração. Grande parte do concentrado produzido na Somincor é vendido às fundições da Boliden no norte da Europa, apoiando assim a cadeia de valor europeia dos metais básicos, que tem sido destacada pela Comissão Europeia. Além destas, outras empresas suecas com presença relevante em Portugal incluem a AstraZeneca (biofarmacêutica), Ericsson (Telecomunicações). Mercator (Imobiliário), Diaverum (Saúde), Nimblr (Segurança), Volvo (Automóvel), Universal Kraft (Renováveis), Sectra (Imagiologia médica) e Atlas Copco (Indústria). “Pela nossa experiência, o talento português é muito valorizado pelas empresas suecas. Destacam-se, sobretudo, a qualificação técnica, a adaptabilidade e a capacidade de integração internacional. Ao cruzar as culturas sueca e portuguesa, temos observado uma dinâmica positiva nas empresas suecas em Portugal, com impacto favorável na cultura de gestão, na liderança e no desempenho. Estes fatores têm sido determinantes para a expansão de empresas suecas no mercado português”, explica Jennifer Ekstrõm, presidente da Câmara de Comércio Luso-Sueca. Num futuro próximo, a defesa deverá assumir um papel central, com potencial de cooperação industrial, a par da inovação tecnológica e da sustentabilidade. “o ambiente regulatório em Portugal é globalmente favorável, beneficiando de estabilidade institucional e da integração europeia. Ainda assim, os nossos membros e as empresas suecas identificam margens para melhoria, nomeadamente na redução da burocracia, na carga fiscal sobre as empresas, na aceleração dos processos e no reforço da previsibilidade. A questão do acordo para evitar a dupla tributação entre Suécia e Portugal é, também, um tema que empresas e investidores gostariam de ver materializado num futuro próximo”, conclui Jennifer Ekstrõm. Há 260 empresas suecas em Portugal. Dão emprego a 18 mil pessoas. E há mais investimento a caminho da indústria, energias renováveis e tecnologia. P.24-25 A combinação entre custos competitivos e qualidade, aliada a uma infraestrutura tecnológica e elevada qualidade de vida, tem permitido a expansão de várias empresas suecas em Portugal Defesa e segurança Empresas procuram talento em engenharia e telecomunicações A Defesa e a Segurança têm uma relevância estratégica cada vez maior nos investimentos suecos em Portugal. Ao mesmo tempo, áreas como a tecnologia, as energias renováveis e a indústria avançada continuam a ser particularmente atrativas. “A Câmara de Comércio Luso-Sueca conta com cerca de 100 empresas associadas, desde startups a líderes globais, o que cria uma combinação equilibrada, que estimula a inovação e a criatividade. Temos uma diversidade setorial, que vai do digital avançado à indústria, retalho e defesa”, Jennifer Ekstrõm, presidente da Câmara de Comércio Luso-Sueca. Segundo a responsável, existe uma procura clara por perfis de engenharia, IT e várias áreas de tecnologia e cibersegurança. Ao mesmo tempo, cresce também a necessidade de especialistas em defesa, sistemas avançados e sustentabilidade. “Esta tendência reflete uma evolução para setores de maior intensidade tecnológica”, acrescenta. Dados As empresas com capital ou identidade sueca empregavam 18.133 pessoas em 2024 e geraram um volume de negócios agregado de 13,1 mil milhões de euros entre 2020 e 2024 As exportações de bens portugueses para a Suécia cresceram 113% nos últimos cinco anos para 1,14 mil milhões de euros As exportações de bens suecos para Portugal totalizaram 875 milhões em 2024 e cresceram 41% Principais empregadores suecos em Portugal (colaboradores) Securitas 4.470 Ikea 3. 200 Ikea Industry 1.752 Diaverum 1.618 Boliden Somincor 1.324 Top 3 empresas suecas investidoras (valor investido) Boliden Somincor: 430 milhões de euros IKEA Industry: 60 milhões de euros Volvo Financial Services: 36 milhões de euros Jennifer Ekstrõm Presidente da Câmara de Comércio Luso-Sueca O foco do investimento sueco está concentrado em setores de alta intensidade de trabalho e elevado valor. A Boliden Somincor representa a maior injeção de capital, tendo contribuído com 430 milhões de euros em investimento agregado de 2020 a 2024 António Sarmento