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ALÉM DO BOM JESUS, TEMOS O EFEITO DST EM BRAGA

Expresso Online

2026-04-03 17:51:03

Fábricas e obras de arte avançam lado a lado nas instalações da DST. Empresa acredita que a cultura traz negócio Na sede da DST em Braga há obras de arte espalhadas por todo o lado: há no exterior instalações e obras de artistas como Vhils, Rui Chafes, Manuela Pimentel, Ângela Ferreira, Pedro Cabrita Reis e de José Pedro Croft; há quadros e esculturas no interior dos escritórios e das cantinas; e há fábricas e edifícios - uns já construídos, outras em construção - assinados por grandes nomes da arquitetura como os portugueses Siza Vieira e Souto de Moura e o britânico Norman Foster, distinguidos com o prémio de arquitetura Pritzker. Há também uma capela, um restaurante, uma discoteca, um ginásio, uma escola, um espaço para eventos culturais como teatro ou o lançamento de livros, centro de saúde, lavandaria, cabeleireiro, zona de piqueniques ou uma horta comunitária. E até burros se veem por lá, nomeadamente a “Hortelã”, a pastar tranquilamente. E há ambição, a de colocar aquele espaço - o Campus DST - no mapa da cultura como “um museu a céu aberto”. Para que Braga tenha como argumentos para uma visita, “além do Bom Jesus, também o efeito DST”. O Campus DST em braga está a ser pensado como museu a céu aberto disponível a todos os que o queiram visitar José Teixeira é o arquiteto deste projeto que quer ser uma referência, um casamento perfeito entre a cultura e a economia. O presidente da DST, grupo empresarial que nasceu na área da construção, lembra casos de regiões de outros países que saltaram para a ribalta internacional - e geraram riqueza à conta disso - graças à aposta que fizeram na cultura e na arquitetura. O caso mais exemplar, por estar próximo de Portugal, é o de Bilbau, em Espanha. Ali, no entanto, não havia já uma cidade consagrada em termos de interesse cultural e turístico como Braga, também conhecida como a “Roma portuguesa” ou a “cidade dos arcebispos” devido às suas muitas igrejas de que o Santuário do Bom Jesus é o exemplo mais relevante. Bilbau era uma cidade decadente, a partir de 1997 passou a estar no roteiro dos museus mundiais com o icónico Museu Guggenheim, do arquiteto norte-americano Frank Gehry. E Braga também terá em breve um novo museu no seu centro histórico: Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea DST, criado pela empresa e que abrirá ao público no dia 25 de abril. “Isto pode parecer um bocadinho arrogante, mas costumo falar de um efeito DST , inspirado no efeito Bilbau, onde foi o poder da cultura que transformou toda aquela região”, refere o empresário. “Quero que as pessoas digam vou ter de ir a Braga . E porque é que vou ter de ir a Braga? Por causa do Bom Jesus e da DST.” Cultura furiosa O empresário não esconde o interesse em abrir à população o Campus DST - onde já é possível fazer visitas. Mas rejeita a ideia de cobrar entradas. “Cobrar não, de maneira nenhuma. Mas existirá um programa de visitas organizadas. Todos os dias recebemos aqui visitas e de alguma maneira precisamos de as sistematizar, de ter um roteiro, e há as questões de segurança, nas fábricas, que temos de ter em conta.” Um dos projetos que mais expectativas tem gerado chama-se Living Lab e foi anunciado em 2022. É assinado por Norman Foster e está em execução com a criação de cinco áreas funcionais através de módulos -a construção modular ou, como se prefere dizer na DST, a construção industrializada. Trata-se de produzir partes das casas em fábricas e depois montá-las, o que liberta as cidades dos intermináveis estaleiros de obras e da poluição sonora, atmosférica e visual, diminuindo o tempo de construção. Passará a haver ali uma torre de apartamentos, um hotel, residências de estudantes e para seniores, um centro de saúde, num exemplo do que poderá ser uma cidade liberta de obras, e a ideia é que esteja tudo pronto até setembro. A fábrica para as peças da construção industrial está a ser finalizada pela mão de Siza Vieira, para a empresa Zethaus, embora já esteja operacional. Mesmo ao lado fica a fábrica feita por Souto Moura, da Lyrical Design Windows, de caixilharias minimalistas. Está também ali a nascer uma creche que deverá ser inaugurada ainda este ano. É assinada pelo arquiteto Carvalho Araújo, que teve também em mãos a recuperação do edifício onde está instalado o Muzeu. José Teixeira não está na visita rápida feita pelo Expresso ao Campus DST - “comigo a explicar são quatro horas”, graceja - mas o espaço está desenhado à medida deste empresário que tem colocado a cultura também como um instrumento de crescimento do seu grupo. Os investimentos fabris caminham a passos largos com os investimentos culturais, em que o seu grupo se tem destacado no apoio ao teatro ou à literatura. A cultura tem de estar acessível a todos, é outro ponto assente nas políticas seguidas pela DST. E por isso os trabalhadores são convocados a enviar poemas para serem selecionados e depois lidos. Há também a “Leitura furiosa às quintas”, iniciativa através da qual são incentivados a partilhar algo que leram. no horário de trabalho “Nós fazemos todas as atividades culturais no interior do grupo em horário de trabalho. É um investimento. Se calhar é este exercício que faz com que os novos negócios apareçam. Há aqui uma energia criativa, há aquilo a que eu chamaria uma imaginação disseminada por um grande número de trabalhadores. Costumo sempre dizer que a economia já foi fundada na experiência, no conhecimento, na criatividade. Hoje ela é fundada na imaginação, na capacidade de loucura que nós temos instalada no grupo”, adianta. Nos últimos anos josé teixeira tem diversificado as áreas de negócio, sempre com a interrogação porque não eu? A inovação, apontada como um pilar da empresa, passa por aqui. A produtividade, onde “ainda há muito caminho a fazer”, também. “Não quero uma empresa que obedeça. Quero uma empresa que diga não . Tem de haver espaço de liberdade para isso. E, aí, nós vamos gerar, de facto, situações que conduzem a economia a gerar mais valor, com produtos que conseguem competir nos mercados concorrenciais”, afirma José Teixeira. “As empresas com sindicatos organizados são mais produtivas”, acredita o empresário com base em estudos sobre o tema. Por isso, assume estar interessado em trabalhar na aproximação ao modelo alemão de gestão, com trabalhadores eleitos na administração das empresas. Origens no 1º de Maio As origens do grupo DST remontam a 1946 pela mão de Domingos Silva Teixeira, pai de José, cujas iniciais dão a marca ao grupo. Começou com a atividade de extração de inertes sendo que nos anos 70 forneceu materiais para a construção do estádio 1º de Maio. Nos últimos anos José Teixeira tem vindo a diversificar as áreas de negócio, sempre com a interrogação porque não eu? . Foi assim, explica, que enveredou pelo negócio da produção de comboios em Portugal. “Houve aqui um concurso, com uma base de mil e tal milhões de euros, para o fornecimento de comboios à CP. E eu disse porque não eu? E de repente juntei-me à Alstom num consórcio. A DST não é um fabricante de comboios mas pode fabricar peças e pode fabricar partes da carruagem, pode entrar numa nova área de negócio.” À imaginação junta a importância da curiosidade: “A curiosidade devia ser disciplina obrigatória na escola. Vamos lá ser curiosos.” Frases “Quero que as pessoas digam: vou ter de ir a Braga. E porque é que vou ter de ir a Braga? Por causa do Bom Jesus e da DST” “Há aqui uma energia criativa, há aquilo a que eu chamaria uma imaginação disseminada por um grande número de trabalhadores” “A economia é fundada na imaginação, na capacidade de loucura que nós temos instalada no grupo” “A curiosidade devia ser disciplina obrigatória na escola. Vamos lá ser curiosos” José TeixeiraPresidente da DST Margarida Cardoso Jornalista Margarida Cardoso / Pedro Lima / Rui Duarte Silva