“NA DST, A ECONOMIA É FUNDADA NA CAPACIDADE DE LOUCURA QUE TEMOS INSTALADA NO GRUPO”
2026-04-04 11:08:03

“Além do Bom Jesus, temos o efeito DST” em Braga” Investimentos Fábricas e obras de arte avançam lado a lado nas instalações da DST. Empresa acredita que a cultura traz negócio Foto Rui DUARTE SILVA a sede da DST em Braga há obras de arte espalhadas por todo o lado: há no exterior instalações e obras de artistas como Vhils, Rui Chafes, Manuela Pimentel, angela Ferreira, Pedro Cabrita Reis e de José Pedro Croft; há quadros e esculturas no interior dos escritórios e das cantinas; e há fábricas e edifícios , uns já construídos, outras em construção assinados por grandes nomes da arquitetura como os portugueses Siza Vieira e Souto de Moura e o britânico Norman Foster, distinguidos com o prémio de arquitetura Pritzker. Há também uma capela, um restaurante, uma discoteca, um ginásio, uma escola, um espaço para eventos culturais como teatro ou o lançamento de livros, centro de saúde, lavandaria, cabeleireiro, zona de piqueniques ou uma horta comunitária. E até burros se veem por lá, nomeadamente a “Hortelã”, a pastar tranquilamente. E há ambição, a de colocar aquele espaço O Campus DST , no mapa da cultura como “um museu a céu aberto”. Para que Braga tenha como argumentos para uma visita, “além do Bom Jesus, também o efeito DST”. José Teixeira é o arquiteto deste projeto que quer ser uma referência, um casamento perfeito entre a cultura e a economia. O presidente da DST, grupo empresarial que nasceu na área da construção, lembra casos de regiões de outros países que saltaram para a ribalta internacional , e geraram riqueza à conta disso graças à aposta que fizeram na cultura e na arquitetura. O caso mais exemplar, por estar próximo de Portugal, êO de Bilbau, em Espanha. Ali, no entanto, não havia já uma cidade consagrada em termos de interesse cultural e turístico como Braga, também conhecida como a “Roma portuguesa” ou a “cidade dos arcebispos” devido às suas muitas igrejas de que O Santuário do Bom Jesus é o exemplo mais relevante. Bilbau era uma cidade decadente, a partir de 1997 passou a estar no roteiro dos museus mundiais com o icónico Museu Guggenheim, do arquiteto norte-americano Frank Gehry. E Braga também terá em breve um novo museu no seu centro histórico: Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea DST, criado pela empresa e que abrirá ao público no dia 25 de abril. “Isto pode parecer um bocadinho arrogante, mas costumo falar de um efeito DST , inspirado no efeito Bilbau, onde foi o poder da cultura que transformou toda aquela região”, refere o empresário. “Quero que as pessoas digam vou ter de ir a Braga . E porque é que vou ter de ir a Braga? Por causa do Bom Jesus e da DST.” Cultura furiosa ... O empresário não esconde o interesse em abrir à população o Campus DST , onde já é possível fazer visitas. Mas rejeita a ideia de cobrar entradas. “Cobrar não, de maneira nenhuma. Mas existirá um programa de visitas organizadas. Todos os dias recebemos aqui visitas e de alguma maneira precisamos de as sistematizar, de ter um roteiro, e há as questões de segurança, nas fábricas, que temos de ter em conta.” Um dos projetos que mais expectativas tem gerado chama-se Living Lab e foi anunciado em 2022. ê assinado por Norman Foster e está em execução com a criação de cinco áreas funcionais através de módulos a construção modular ou, como se prefere dizer na DST, a construção industrializada. Trata-se de produzir partes das casas em fábricas e depois montá-las, o que liberta as cidades dos intermináveis estaleiros de obras e da poluição sonora, atmosférica e visual, diminuindo o tempo de construção. Passará a haver ali uma torre de apartamentos, um hotel, residências de estudantes e para seniores, um centro de saúde, num exemplo do que poderá ser uma cidade liberta de obras, e a ideia é que esteja tudo pronto até setembro. A fábrica para as peças da construção industrial está a ser finalizada pela mão de Siza Vieira, para a empresa Zethaus, embora já esteja operacional. Mesmo ao lado fica a fábrica feita por Souto Moura, da Lyrical Design Windows, de caixilharias minimalistas Está também ali a nascer uma creche que deverá ser inaugurada ainda este ano. ê assinada pelo arquiteto Carvalho Araújo, que teve também em mãos a recuperação do edifício onde está instalado o Muzeu. José Teixeira não está na visita rápida feita pelo Expresso ao Campus DST “comigo a explicar são quatro horas”, graceja mas o espaço está desenhado à medida deste empresário que tem colocado a cultura também como um instrumento de crescimento do seu grupo. Os investimentos fabris caminham a passos largos com os investimentos culturais, em que o seu grupo se tem destacado no apoio ao teatro ou à literatura. A cultura tem de estar acessível a todos, é outro ponto assente nas políticas seguidas pela DST. E por isso os trabalhadores são convocados a enviar poemas para serem selecionados e depois lidos. Há também a “Leitura furiosa às quintas”, inicia-tiva através da qual são incentivados a partilhar algo que leram. ... no horário de trabalho “Nós fazemos todas as atividades culturais no interior do grupo em horário de trabalho. e um investimento. Se calhar é este exercício que faz com que os novos negócios apareçam. Há aqui uma energia criativa, há aquilo a que eu chamaria uma imaginação disseminada por um grande número de trabalhadores. Costumo sempre dizer que a economia já foi fundada na experiência, no conhecimento, na criatividade. Hoje ela é fundada na imaginação, na capacidade de loucura que nós temos instalada no grupo”, adianta. A inovação, apontada como um pilar da empresa, passa por aqui. A produtividade, onde “ainda há muito caminho a fazer”, também. “Não quero uma empresa que obedeça. Quero uma empresa que diga não . Tem de haver espaço de liberdade para isso. E, aí, nós vamos gerar, de facto, situações que conduzem a economia a gerar mais valor, com produtos que conseguem competir nos mercados concorrenciais”, afirma José Teixeira. “As empresas com sindicatos organizados são mais produtivas”, acredita o empresário com base em estudos sobre o tema. Por isso, assume estar interessado em trabalhar na aproximação ao modelo alemão de gestão, com trabalhadores eleitos na administração das empresas. Origens no 19 de Maio As origens do grupo DST remontam a 1946 pela mão de Domingos Silva Teixeira, pai de José, cujas iniciais dão a marca ao grupo. Começou com a atividade de extração de inertes sendo que nos anos 70 forneceu materiais para a construção do estádio 10 de Maio. Nos últimos anos José Teixeira tem vindo a diversificar as áreas de negócio, sempre com a interrogação porque não eu?. Foi assim, explica, que enveredou pelo negócio da produção de comboios em Portugal. “Houve aqui um concurso, com uma base de mil e tal milhões de euros, para o fornecimento de comboios à CP. E eu disse porque não eu? E de repente juntei-me à Alstom num consórcio. A DST não é um fabricante de comboios mas pode fabricar peças e pode fabricar partes da carruagem, pode entrar numa nova área de negócio.” á imaginação junta a importância da curiosidade: “A curiosidade devia ser disciplina obrigatória na escola. Vamos lá ser curiosos.” doso@expresso.impresa.pt DST cresce e abre as portas a novos negócios “Não há uma barreira se se trabalhar a imaginação”, diz José Teixeira, com vários projetos a arrancar As raízes da DST estão na construção, mas “hoje, na realidade, menos de 50% da nossa atividade é construção”, afirma José Teixeira na apresentação do grupo a que preside, com negócios nas áreas da engenharia e construção, ambiente, telecomunicações, energias renováveis, imobiliário e capital de risco, pronto a abrir as suas portas a novas atividades, da ferrovia às baterias ou ao nuclear. “Não há uma barreira se se trabalhar a imaginação”, diz o empresário, que fala no “melhor ano de sempre” em 2025, com várias empresas a bater recordes, mas ainda não tem resultados para apresentar. Um dos indicadores de que o grupo está a crescer é o Campus DST, em Braga, onde vão surgindo novas fábricas, como os projetos de Siza Vieira e Souto Moura dedicados à construção industrial e às caixilharias minimalistas, e onde já arrancou “a terceira fábrica europeia de baterias”, num investimento de EUR17 milhões, para reciclar baterias em fim de vida, que poderá ser seguido de mais um investimento de EUR12 milhões na hidrometalurgia, para extrair lítio das baterias, porque “a sustentabilidade é uma oportunidade e não uma barreira à economia”. No país, há outros projetos. Na Figueira da Foz está em construção uma fábrica, com 30 mil metros quadrados, para a prefabricação de betão, desenhada por Carvalho Araújo, e foi comprada uma unidade que tinha falido para duplicar a área inicial do projeto, de forma a responder à procura. A isto acrescenta-se o investimento na ferrovia, em consórcio com a Alstom, a construção de um hub dedicado a comboios e oficinas em Condeixa, de olhos postos na prestação de serviços de reparação à CP, ou o projeto de uma indústria de alumínio para carroçarias. Juntam-se ainda os centros logísticos no Seixal e em Pombal, a compra da Prioridade, uma empresa na região Centro que faz estradas e pavimentos, ainda a aguardar luz verde da Autoridade da Concorrência, e várias centrais de betão, entre outros projetos. A investir EUR66 milhões A DST está também a abrir escritórios em vários pontos do país para disponibilizar “locais de trabalho de proximidade” aos seus 4 mil trabalhadores e contrariar a tendência do teletrabalho. No exterior, em Angola, está em curso a ampliação do estaleiro com uma fábrica de estruturas metálicas. O nuclear é mais uma possibilidade em cima da mesa: “Adoraria”, afirma o empresário, que já fez peças para o CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear). Ao todo, o investimento em edificado previsto para este ano ronda os EUR66 milhões, avança José Teixeira, que continua a apostar na formação, porque “os trabalhadores qualificados geram mais valor”. Entre os novos projetos nesta área fala da hipótese de abrir um curso para técnicos de manutenção da ferrovia. Prioritária na estratégia do grupo é a inovação, fomentada com iniciativas como a caixa de inovação e os prémios monetários atribuídos às ideias que se transformam em negócio, a par de uma aposta constante em patentes. e também aqui que encaixa a abertura do grupo ao capital de risco, com apoio a startups como a britânica Gazelle, que reduz em 30%e o peso das plataformas offshore para eólicas, e a criação de startups internamente, como um novo projeto focado em câmaras de segurança e inteligência artificial. Em termos formais, o grupo está organizado em três segmentos: a DST SGPS, a Cari (reabilitação e restauro de património urbano) e a Adaúfe, que concentra os negócios de capital de risco e as spin-off, soma uma faturação de EUR60 milhões, segue um modelo de gestão em que trabalhadores são chamados a .ser sócios e terá como próximo projeto uma spin-off dedicada a ofícios tradicionais, dos móveis aos estuques e dourados. Grupo de construção DST diversifica negócios à boleia da “energia criativa” gerada pela aposta que faz na cultura. O seu líder, José Teixeira, vê o “efeito DST” a concorrer com O Bom Jesus em Braga na atração de interesse cultural para a região E16 0 CAMPUS DST EM BRAGA ESTaA SER PENSADO COMO MUSEU A CêU ABERTO DISPONiVEL A TODOS OS QUE 0 QUEIRAM VISITAR 66 Quero que as pessoas digam: vou ter de ir a Braga. E porque é que vou ter de ir a Braga? Por causa do Bom Jesus e da DST Há aqui uma energia criativa, há aquilo a que eu chamaria uma imaginação disseminada por um grande número de trabalhadores A economia é fundada na imaginação, na capacidade de loucura que nós temos instalada no grupo A curiosidade devia ser disciplina obrigatória na escola. Vamos lá ser curiosos José Teixeira Presidente da LDST NOS ULTIMOS ANOS, JOSe TEIXEIRA TEM DIVERSIFICADO AS áREAS DE NEGOCIO, SEMPRE COM A INTERROGAçáO “PORQUE NáO EU?” NUMEROS 4 mil éc número de trabalhadores da DST 5 é o número de países onde aDST tem presença física fora de Portugal: Angola, Espanha, França, Países Baixos e Reino Unido; mas trabalha em “muitos outros” 66 milhões de euros é o valor do investimento previsto pela DST para este ano em edificado industrial José Teixeira, líder da DST, espalhou obras de arte por todo o lado nas instalações do grupo fundado pelo seu pai nos anos 40 Fábrica da construção industrial, desenhada pelo arquiteto Siza Vieira, está a ser finalizada FOTOD.R. MARGARIDA CARDOSO; PEDRO LIMA