FÁBRICAS AINDA FECHADAS NA REGIÃO CENTRO
2026-04-05 21:08:56

REPORTAGEM Gestores sob pressão para salvarem as empresas Centro Dois meses após a tempestade, ainda há firmas fechadas e empresários com dificuldades de produção. Para cumprir encomendas, tem-lhes valido a ajuda da concorrência locais@jn.pt Desde que a tempestade Kristin deixou um rasto de destruição no distrito de Leiria, na madrugada de 28 de janeiro, Hugo Simões, sócio-gerente da Ardavi, na Marinha Grande, não voltou a dormir uma noite descansado. Obrigado a fechar as portas e a recorrer ao lay-off depois da fúria do vento ter arrancado a cobertura das instalações, sente o peso da responsabilidade de ter nove famílias dependentes da microempresa.A aguardar POr um portão novo para poder isolar a área da produção, onde a água da chuva ainda é visível óno chão, só depois de eliminar a humidade poderá testar a instalação elétrica e, pOr fim, ver se as máquinas arrancam. A Ardavi foi uma das 647 empresas na região Centro que apresentaram pedidos de lay-off para 7079 trabalhadores, após terem ficado com a produção afetada. No meio do caos que encontrou quando chegou à Ardavi, após a cobertura ter sido projetada para a frente das instalações e ter atingido oito viaturas e derrubado o murro, a primeira preocupação de Hugo Simões, 44 anos, foitentar proteger da chuva os equipamentos, onde produz artefactos metálicos para cerca de 50 empresas e fornecedores de ferramentas, sobretudo do setor dos moldes. Mas, como a área de produção esteve a céu aberto até 25 de março e a parte de cima do portão da fábrica foi levada pelo vento , e só será substituído na próxima semana 3 a chuva e a humidade apoderaram-se do espaço. Além de poças no chão, a ferrugem “pintou” as bancadas e as ferramentas de laranja vivo e são visíveis manchas de salitre, devido à perda do efeito de barreira do Pinhal de Leiria, também devastado pelo vento. “No dia 19 de março, ainda ti-nha várias cascatas. Saía água pelas luminárias, pelas tomadas e pelos interruptores”, garante o empresário da Marinha Grande. “Foram dois meses a tirar água da chuva todos os dias”, assegura. Aliás, há recipientes por todo o lado na zona dos escritórios, onde a colocação da cobertura ficou concluída apenas óno passado dia 1. Cinco dias antes, o posto de transformação foi reparado, mas ainda falta restabelecer as comunicações. Por sorte, Hugo Simões tinha entregado todas as encomendas na véspera da tempestade, mas, desde então, tem perdido negócios. “os clientes estão a acompanhar a situação e vão perguntando se já estamos operacionais”, concretiza. O desespero e o stresse, causados pela calamidade, só foram atenuados pelo espírito de entreajuda das empresas da zona e pela compreensão de clientes e de fornecedores. Houve clientes a anteciparem pagamentos, outros a oferecerem lonas para resguardar as máquinas. Os fornecedores aceitaram um "período de carência” no plano de pagamentos, o que tem permitido a Hugo Simões “aguentar as pontas”, enquanto não recebe o adiantamento do seguro e o fundo de apoio à tesouraria já aprovado. Está a preparar, ainda, uma candidatura ao apoio à reconstrução, mas a sua intenção é reabrir as portas óno final deste mês ou no início de maio. GERADORES PARA TRABALHAR A falta de energia elétrica e de mão de obra para reparar os estragos tem sido o maior obstáculo para as empresas poderem retomar a produção ou a totalidade da produção mais rapidamente. Administrador de quatro empresas que sofreram danos na cobertura e na estrutura, após a passagem da intempérie pela Região Centro, Paulo Valinha, 57 anos, concentrou-se na Tecfil, empresa que produz fioe corda, sobretudo para exportação, e cuja faturação foi de 33 milhões de euros no ano passado. No espaço de três semanas, alugou dois geradores, alimentados por 30 mil litros de gasóleo POr dia, para garantir parte das encomendas dos clientes, aos quais pediu um voto de confiança, esforço que foi reconhecido posteriormente. Apesar de os dois geradores assegurarem menos de 20% da produção da Tecfil, foi o suficiente para dar resposta às necessidades mais prementes dos clientes, mesmo que tenha obrigado a empresa a parar linhas de produção, para iniciar outras, pOr forma a gerir da melhor forma a energia produzida. “A nossa prioridade foi começarmos a trabalhar o mais depressa possível, sem estarmos preocupados com os custos, mas com os nossos clientes”, sublinha Paulo Valinha. Após um mês e meio sem eletricidade e ainda sem acesso a comunicações, diz que houve um aumento dos custos superiores a um milhão de euros apenas na Tecfil. Cerca de 50% da produção ainda não está a funcionar com normalidade, devido a problemas nos equipamentos, causados pela humidade. Para recuperar o atraSO, o administrador, que admite sentir-se exausto, está a equacionar não abrandar a produção em agosto, como sucedia até então, e pôr as máquinas a trabalhar 5% mais rápidas. “Foi uma situação extrema, que impactou nas empresas e criou um desgaste mental e fisico mui-to grande em todas as pessoas. Estão mais nervosas, mais instáveis, mais ansiosas, o que é compreensível”, observa o empresário. Sente-se, por isso, reconhecido pelo empenho dos cerca de 500 colaboradores das quatro empresas, envolvidos na limpeza das instalações e das áreas circundantes, onde os destroços se acumularam. “Parecia que estávamos num cenário de guerra”. APOIO PSICOLoGICO O presidente da Nerlei Associação Empresarial da Região de Leiria, Luís Febra, revela, ao JN, que foi criado um grupo de trabalho, constituído pOr voluntários, que se disponibilizaram para dar apoio e mentoria às empresas que necessitem, em diferentes áreas, entre as quais a psicológica. “A maior parte das pessoas que precisam de ajuda diz estar bem, mas isso não corresponde à verdade. Nota-se na forma como se expressam, na cara e ono corpo. Tudo isso são mensagens que não devem ser descuradas. Vai haver traumas muito fortes”, acredita. Luís Febra confirma ainda que, após a passagem da tempestade Kristin, as empresas e os trabalhadores se uniram para tentar ultrapassar as adversidades. “Na Imoplastio e naTJ Moldes, os funcionários fícaram durante a noite a proteger os equipamentos, para garantir que ninguém lhes mexia, e estiveram a limpar as fábricas”, exemplifica. E na empresa que administra, a Socem, os funcionários também andaram a ajudar a reparar os telhados, uns aos outros. Além disso, Luís Febra revela que, assim que a eletricidade começou a ser reposta na região, houve empresas que dispensaram capacidade de produção a outras que ainda não estavam a ser abastecidas POr energia e que tinham de cumprir prazos de entrega de encomendas, dando, como exemplo, a Autoeuropa e a Stellantis, no setor automóvel. Aliás, duas a três semanas após a tempestade Kristin ter passado pela Região Centro, “uma delegação da BMW deslocou-se a Portugal, por estar inquieta e foi-se embora descansada”. “Na indústria de plásticos, também houve empresários que pediram ajuda a empresas concorrentes para fazer produção de peças plásticas, porque não tinham energia ou tinham a capacidade afetada, pois as máquinas ficaram parcialmente destruídas ou inoperacionais”, recorda o presidente da Nerlei, assinalando o auxílio que chegou do Norte. “No Norte, também houve empresas de moldes que se disponibilizaram para apoiar empresas da Marinha Grande, pois sabiam que tinham de cumprir prazos, o que lhes permitiu não falhar com os clientes”. Este espírito de entreajuda é justificado com o facto de as indústrias de moldes e de plásticos da região de Leiria e de Oliveira de Azeméis se juntarem para desenvolver projetos comuns, criando relações de maior proximidade, mesmo sendo concorrentes. Considera, assim, estes laços fundamentais para não haver perda de mercado, porque há “muitas dezenas de empresas” da região de Leiria que continuam inoperacionais, sobretudo ono setor dos moldes. “Ninguém esperava um evento desta dimensão, os prestadores de serviços são poucos para tantas necessidades, e o tempo é carrasco” Mais de 600 empresas com pedidos de lay-off P. .10e11 SABER MAIS Competitividade ameaçada Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefa mol, manifesta preocupação com o futuro dos setores dos moldes e dos plásticos, devido ao impacto da tempes tade Kristiri nas empresas e a0 aumento dos custos energéticos, que decorre da destruição dos painéis solares. Essas consequencias vão reduzir a competitividade das empresas. ã LUPA CJ) TE milhões de euTOS e O valor do incentivo exttaordinário à manutenção dos postos de trabalho, aprovado a 1587 empresas, que empregam 13 365 trabalhadores: Luís Febra Presidente da Nerlei “Somos solidários nas grandes crises e pouco unidos no desenvolvimento. Unimo-nos mais na desgraça” Paulo Valinha Administrador da Tecfil “A Região Centro é um emblema da resiliência que o nosso país tem demonstrado” 1 Na Marinha Grande, ainda há empresas sem comunicações 2 Na Tecfil, Paulo Valinha alugou dois geradores para colocar a fábrica a trabalhar 8 Há empresas fechadas e mais de sete mil trabalhadores em lay-off 4 Na Ardavi, a primeira preocupação do empresário Hugo Simões foi proteger os equipamentos da chuva Alexandra Barata