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"NA DST A ECONOMIA É FUNDADA NA IMAGINAÇÃO, NA CAPACIDADE DE LOUCURA QUE TEMOS INSTALADA NO GRUPO"

Expresso Online

2026-04-05 21:08:57

O grupo DST tem em curso o projeto Living Lab, que passa por criar uma micro cidade feita de edifícios cujas peças são produzidas em fábricas e depois montadas e é assinado um arquiteto internacional de renome, o britânico Norman Foster, distinguido com o prémio de arquitetura Pritzker, que se junta aos portugueses Siza Vieira e Souto Moura, também Pritzker e também com projetos no Campus DST. O líder da DST, José Teixeira, diz que quer abrir as suas instalações à comunidade e construir “uma energia criativa”. A 25 de abril inaugurará, no centro de Braga, o Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea DST. Com o projeto Living Lab seria possível em teoria viver nas instalações da DST? Bem, na realidade teremos 87 quartos, torre, hotel e smart studios, uma creche (a abrir em setembro) e seis estúdios para residências séniores. Mas uma das ideias que temos aqui é permitir que um trabalhador deixe o filho na creche e o pai no lar enquanto trabalha. Isto responde a um deslaçar comunitário evidente. É evidente que vou privilegiar pessoas mais pobres, as de salários mais baixos. Há uma carência muito grande. E quero dar alguns lugares às duas freguesias onde estamos, ter boa vizinhança também é uma coisa que me interessa muito. A gestão será entregue à Cruz Vermelha, mas teremos um plano pedagógico baseado na experiência, no mexer na terra sem problemas em sujar as mãos ou apanhar chuva, no contacto com a realidade. As vossas instalações ocupam um espaço enorme com as fábricas, os escritórios e outros serviços assim como instalações e obras de arte por todo o lado. Tencionam abri-lo à comunidade? Transformá-lo numa espécie de museu a céu aberto e eventualmente cobrar uma entrada? Cobrar não, de maneira nenhuma. Mas existirá um programa de visitas organizadas. Todos os dias recebemos aqui visitas e de alguma maneira precisamos de as sistematizar, de ter um roteiro, e há as questões de segurança, dentro da fábrica, que temos de ter em conta. Isto pode parecer um bocadinho arrogante, mas costumo falar de um “efeito DST”, inspirado no "efeito Bilbau", onde foi o poder da cultura que transformou toda aquela região. Era uma região metalúrgica, de metalomecânicas, com uma ria poluída, um desgaste muito evidente. As pessoas estavam muito fartas daquela falta de ecologia e, de repente, quando em 1983 o País Basco decide criar uma equipa para recuperar aquele património, aquele território, para fazer depois uma parceria com a Fundação Guggenheim e, a seguir escolher o Frank Ghery, e o Richard Serra, e convidar o Siza (arquiteto Álvaro Siza Vieira) para fazer a biblioteca, convidar o (Santiago) Calatrava para fazer o aeroporto e o Norman Foster para fazer as estações de metro, aquilo vira na realidade num "efeito Bilbau". Já temos três Pritzkers, o Siza, o Souto Moura e o Norman Foster. E poderemos ter um quarto Pritzker aqui. Tenho a arquitetura, tenho as obras de arte, tenho o interior dos edifícios carregado de obras de arte e a escola DST que assumimos como um teatro dentro de portas, onde fazemos apresentações de livros, e também tenho a escola Industrial, resgatada das antigas escolas industriais, com laboratórios e residência artística. Essa nossa escola industrial é do décimo ao décimo segundo ano e os artistas que temos aqui em residências têm de ir lá uma vez por mês, como vão poetas, para introduzir nos conteúdos técnicos as literacias da beleza, humanidades, filosofia. Com este conjunto de coisas, a Escola Industrial DST, a Escola de Pensamento DST, o museu, a galeria, os Pritzkers e a grande arquitetura, as obras de arte exteriores, as pessoas têm de dizer “vou ter de ir a Braga. E porque é que vou ter de ir a Braga? Por causa do Bom Jesus e da DST”. Mas, por exemplo, no Muzeu que vai inaugurar no dia 25 de Abril, para ver uma sala com obras apenas do Kiefer [pintor e escultor alemão], com oito grandes peças, é preciso sair de Paris ou Madrid e vir aqui. O que é que aqui procuramos na economia? A beleza. Isto é a procura da beleza e do poder da beleza na economia. Tem mesmo de ser assim. Mas já têm aqui iniciativas abertas à população? Sim. Em abril vamos ter uma série de ações no museu e vou trazer os Moonspell para dar aqui um espetáculo e vou abrir candidaturas para a malta da cidade vir ver. Nas conferências mais alargadas abro uma quota para a malta vir da cidade. A festa é essencial e neste “efeito DST” há aqui um outro elemento que faz parte do programa, que é uma discoteca. Essa ideia de trazer a comunidade aqui para dentro é a base. Estamos nesta região, como estamos noutras, precisamos de uma empatia social alargada e isso trabalha-se. Então qualquer pessoa pode vir visitar todas estas obras? Sim, pode vir. Isto é um espaço que não está vedado. Queremos receber aqui as pessoas, queremos guiá-las, e nós estamos permanentemente a receber escolas de arquitetura, muita gente. E o que me levou, por exemplo, a tirar de casa a grande parte das obras de arte que lá tinha e pô-las no museu? É o mesmo pensamento. Tenho só para mim para quê? Aquilo que me faz bem, aquilo que do ponto de vista de biologia nos ativa, aquela dopamina, serotonina, oxitonina, todos os neurotransmissores da felicidade, que ative os outros também. Às vezes penso, mas será que estou a cair na armadilha da vaidade? Na armadilha do eu? Não, porque é não querer aquelas coisas belas só para mim. E como é que a comunidade de Braga, desta região vê o seu projeto? Sente que ele está integrado nas políticas de promoção deste território, em termos turísticos? Nas políticas da região sente bem acolhida esta sua ideia? Há uns tempos estava com a ministra da Cultura e ela disse-me que o presidente da Câmara disse tão bem de nós que ela tinha de ir ver a DST. No projeto do Muzeu, a Câmara está toda expectante, com uma alegria verdadeira, porque também é um ativo muito importante para a cidade e não só. Isto é um ativo do país e é um ativo europeu. O Rui Chafes dizia que isto é uma coisa que não se faz há décadas. Nós temos uma política de mecenato aos livros, temos o prémio de literatura há 31 anos, apoiamos as companhias de teatro há quarenta e tal anos. Isto tem uma coerência de quarenta e tal anos. O que nos interessa é este exercício de alargar a base da pirâmide, achatá-la, para não ser só aqui meia dúzia de pessoas. É por isso que pedem poemas aos trabalhadores? Quando criámos o projeto do Bom Dia DST, para colocar todos os nossos trabalhadores a enviar poemas para serem selecionados uma vez por semana, isto é achatar a base da pirâmide porque depois temos tutores e mentores que ajudam os trabalhadores de chão de fábrica a escolher um poema. E já houve trabalhadores que disseram eu vejo isto em casa com os meus filhos, eu escolho em casa com os meus filhos e isso é uma coisa absolutamente extraordinária. Eu cito sempre o padre António Vieira na parábola da semente: Bem sei que nem tudo o que semeio floresce, umas coisas caem no meio das pedras, uma semente cai no meio das pedras, outra semente cai na beirinha do caminho, vai ser pisada, é a vida . É uma ideia bem aceite? Nós não vamos ter aqui consensos. É aquela ideia do imperativo categórico, se está certo, continua a fazer. Mesmo que tenhas pouco público. Nós fazemos todas as atividades culturais no interior do grupo em horário de trabalho. Na leitura furiosa às quintas, estamos ali a discutir um texto enviado por um trabalhador no horário de trabalho. Mas isso é um investimento. Se calhar é este exercício que faz com que os novos negócios apareçam. Há aqui uma energia criativa, há aquilo a que, eu chamaria de uma imaginação disseminada por um grande número de trabalhadores. Eu costumo sempre dizer que a economia já foi fundada na experiência, no conhecimento, na criatividade. Hoje ela é fundada na imaginação, na capacidade de loucura que nós temos instalada no grupo. E de repente disse, porque não eu? Houve aqui um concurso, com uma base de mil e tal milhões de euros, para o fornecimento de comboios à CP. E eu disse porque não eu? E de repente juntei-me à Alstom num consórcio, e a DST, que não é um fabricante de comboios, mas pode fabricar peças e pode fabricar partes da carruagem, pode entrar numa nova área de negócio. A curiosidade devia ser disciplina obrigatória na escola. Vamos lá ser curiosos. Margarida Cardoso Jornalista Margarida Cardoso / Pedro Lima / Rui Duarte Silva