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ISRAEL MATA MAIS DE 200 PESSOAS NO LÍBANO

Jornal de Notícias

2026-04-09 06:00:33

Cessar-fogo entre Teerão, Washington e Telavive começa com divergências e ceticismo Iranianos fecham estreito de Ormuz após violações de plano com que americanos negam ter concordado gabriel.hansenejn.pt GUERRA Começou ontem com sinais de fragilidade a pausa de duas semanas no conflito entre OS Estados Unidos, Israel e o Irão, anunciada na terça-feira, pouco antes de terminar o prazo do ultimato dado POr Donald Trump, que ameaçava destruir as infraestruturas civis iranianas. Apesar da passagem de alguns navios pelo estreito de Ormuz, Teerão anunciou novamente o fecho da via marítima, devido a alegadas violações de uma trégua cujos termos geram dúvidas, incluindo a possibilidade ou não de o Irãoter urânio enriquecido. Três embarcações cruzaram Ormuz nas primeiras horas após o anúncio do cessar-fogo, com algumas outras a navegarem na mesma direção, segundo o site de monitorização MarineTraffic. Teerão fechou a passagem pouco depois. “Tem havido muita referência ao plano de dez pontos do Irão, que precisa de ser esclarecido para que o setor marítimo tenha confiança suficiente para voltar a navegar por aquelas águas”, disse John Stawpert, diretor da área marítima da Câmara Internacional de Navegação, citado pela agência AFP. Este plano de dez pontos inclui, alegadamente, a manutenção do controlo iraniano sobre o estreito, o que poderá significar o pa-gamento de uma taxa a Teerão para transitar na região. Um representante do Governo norte-americano salientou que o documento iraniano não era o acordo em vigor, enquanto Trump escreveu que o Irão concordou com “a abertura completa, imediata e segura do estreito”. o presidente do Parlamento iraniano considera “irracionais” as negociações previstas para começarem em Islamabade, na sexta-feira, porque OS EUA e Israel terão violado três pontos, nomeadamente com os ataques no Líbano (ver texto ao lado), a entrada de um drone no espaço aéreo iraniano e a rejeição do direito ao enriquecimento de urânio. Essa desconfiança é justificada porque, segundo Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense, os EUA são “um ator que sistematicamente incumpre com a sua palavra e, sobretudo, porque, enquanto faz diplomacia e negociação em público, prepara agressões militares em privado”. O ceticismo relativamente ao processo diplomático sente-se também em Israel, que se focou em bombardear o Líbano e matou o »jornalista Mohammed Washah, do canal Al Jazeera, na Faixa de Gaza. “Para que fique claro: ainda temos objetivos a cumprire vamos alcançá-los, seja através do acordo ou de lutas renovadas”, sublinhouo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, avisando que o país tem o “dedo no gatilho”. DUVIDAS SOBRE O URãNIO Insistindo que houve uma “mudança de regime”, Trump afirmou que não deixará que o Irão tenha urânio enriquecido e que OS EUA trabalharão com o país para “desenterrar e remover toda a poeira nuclear”. Já o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, frisou que os iranianos vão entregar o material ou então Washington “tomá-lo-á”. Tal declaração contrasta com as declarações que chegam de Teerão, que alega que os americanos concordaram com o enriquecimento de urânio e em reti-rar as sanções. Este é mais um exemplo da guerra de versões, resultado de um acordo fechado em contra-relógio graças à mediação do Paquistão com boas relações com o Irão e os EUA , e à intervenção da China junto aos iranianos, segundo Trump. Para Ponte e Sousa, é dificil apontar um lado vitorioSO. "e verdade que OS EUA e Israel atingiram uma série de alvos militares relevantes e decapitaram parte da estrutura hierárquica político-militar do Irão. Por outro, o Irão resistiu, conseguiu retaliar, sobreviveu e o seu sistema político-militar também”, refere. “As relações internacionais são o principal derrotado”, conclui. . Israel exclui Líbano de trégua e faz ataques mais violentos Teerão ameaça retomar conflito devido a "violações”, enquanto Trump argumenta que questão libanesa não fazia parte das negociações Gabriel Hansen gabriel.hansenejn.pt AGRESSaO Pouco depois de o primeiro-ministro paquistanês anunciar que o cessar-fogo englobava “todos os lugares, incluindo o Líbano”, o gabinete de Netanyahu afirmou que o acordo não abrangia o país vizinho a norte. E isso ficou demonstrado ontem, com as forças israelitas a bombardearem centenas de alvos libaneses num período de dez minutos o que fez com que o Irão ameaçasse sair do acordo. Os ataques mais violentos desde o início do conflito no Líbano = iniciado a 2 de março após a retaliação do Hezbollah pelo assassinato do líder supremo iraniano consistiram no bombardeamento de cerca de uma centena “de centros de comando e instalações militares” do grupo islamita apoiado pelo Irão, segundo as Forças de Defesa de Israel (FDI). Beirute e os subúrbios, bem como o Sul do país, foram alvos. balaNço PROVISORIO O ministro da Saúde libanês, Rakan Nassereddine, informou à Al Jazeera que pelo menos 254 pessoas foram mortas e 1165 ficaram feridas, salientando que este não era o balanço final. Entre OS mortos, de acordo com o canal catari, estará o imã Sadiq al-Nabulsi, figura académica e religiosa que estava na cidade de Saida. Nassereddine denunciou ainda que os ataques israelitas atingiram também hospitais, centros médicos e ambulâncias. “Afirmamos que o san-gue dos mártires e dos feridos não será derramado em vão e que os massacres de hoje [ontem], como todos os atos de agressão e crimes hediondos, confirmam o nosso direito natural e legal de resistir à ocupação e de responder à sua agressão”, declarou o Hezbollah, em comunicado. As FDI não pouparam as forças de manutenção da paz da ONU, tendo disparado contra uma coluna de soldados italianos. O caso “inaceitável”, na visão de Roma, provocou danos num veículo, mas não houve feridos. Telavive teve problemas diplomáticos também com Madrid, que convocou o encarregado de negócios hebraico em Espanha “para protestar pela detenção injustificável de um soldado espanhol da UNIFIL”, anteontem. O Irão ameaçou “retirar-se do acordo se Israel continuar a violar o cessar-fogo Ono seu ataque ao Líbano”, noticiou a agência Tasnim, citando uma fonte familiarizada com o tema. Enquanto o chefe da diplomacia iraniana denunciou ao Paquistão “violações do cessar-fogo” POI Israel, a Guarda Revolucionária Islâmica avisou que responderá caso os EUA e Israel não cessem as hostilidades. Tanto o primeiro-ministro israelita quanto o presidente norte-americano rejeitaram que a trégua incluísse o Líbano. Em entrevista à jornalista da estação PBS Liz Landers, Donald Trump usou a presença do Hezbollah como justificação. “Isso também será resolvido”, declarou o líder da Casa Branca, acrescentando que “esta é uma escaramuça à parte”. “Israel tem conseguido transformar ou acentuar na sua política externa uma ideia de conflito permanente”, frisa ao JN Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Telavive “coloca-se como um dos principais desafios à segurança internacional”, diz o investigador, acrescentando que as “tendências expansionistas ao estilo da Alemanha nazi” são respondidas com “um total silêncio dos estados que se dizem defensores do direito internacional”. Preço do petróleo desce lá fora, mas folga vai tardar em Portugal Infraestruturas destruídas pela guerra e incerteza após o cessar-fogo travam queda dos preços nas bombas António José Gouveia antonio.j.gouveia@jn.pt MERCADOS Não é novidade que, POr estes dias, o petróleo se tornou um barómetro do sentimento dos investidores relativamente ao conflito no Médio Oriente. A decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de adiar o seu ultimato para “eliminar toda a civilização iraniana” e o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas proporcionaram um alívio temporário nos mercados energéticos e financeiros. Os preços do petróleo na Europa e Onos Estados Uni-dos caíram a pique, embora se mantenham ainda acima dos níveis pré-conflito de 28 de fevereiro, sendo, pOr isso, um pouco remota a esperança de que se venha já a refletir Ono preço dos combustíveis, apesar dos sinais recentes de alívio, num cenário ainda marcado por incerteza geopolítica e constrangimentos estruturais na oferta energética. A queda do crude é vista como uma condição necessária para aliviar os preços nas bombas, mas ainda é prematuro antecipar reduções significativas no curto prazo. Atualmente, o gasóleo chegou a atingir cerca de 2,3 euros pOr litro em alguns postos, refletindo ainda os efeitos acumulados da recente escalada de preços. QUEDA A PIQUE Ontem, o barril de referência Brent caiu de valores próximos dos 110 dólares para cerca de 91 dólares, antes de estabilizar perto dos 94,65 dólares. Já o gás natural negociado no mercado europeu TTF desceu cerca de 17%, para menos de 44 euros por megawatt-hora. Nos Estados Unidos, o WestTexas Intermediate registou uma descida do preço histórica (-19,4%), logo após o anúncio da tré- gua. Foi a maior queda diária desde a Guerra do Golfo, em 1991, há 35 anos. Apesar desta tendência, vários fatores limitam a transmissão imediata aos consumidores. A infraestrutura energética Ono Médio Oriente, afetada por meses de conflito, está severamente danificada, com custos de reparação estimados em mais de 21,63 mil milhões de euros e prazos que podem estender-se por vários anos. A normalização do fluxo energético depende ainda da confiança de operadores e seguradoras na segurança do estreito de Ormuz, uma rota crucial para o abastecimento global, e do que acontecerá após as duas semanas de cessar-fogo. PRODUçãO DE GãS CAI 17% A situação é agravada pela perda de cerca de 17% da capacidade de produção de gás do Catar, um fornecedor-chave para a Europa. A recuperação dessas infraestruturas poderá demorar entre três e cinco anos, mantendo pressão sobre os preços do gás. No plano nacional, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos propôs re- centemente um aumento de 6,3% nas tarifas de gás natural para o mercado regulado a partir de outubro de 2026, num contexto de elevada volatilidade. A proposta prevê aumentos mensais entre 0,89 e 1,58 euros para consumidores domésticos, mas, mesmo assim, há margem para revisão. Caso o cessar-fogo se consolide e os preços continuem a descer, os comercializadores poderão ajustar as suas ofertas, levando também o regulador a rever os tarifários, mas ainda é uma incógnita. Benjamin Netanyahu continua com o “dedo no gatilho”, apesar do cessar-fogo no Irão P. 6a6 PORTUGAL Governo saúda acordo e apela a fim de hostilidades O Ministério dos Negócios Estrangeiros português considera a trégua “um primeiro passo determinante” para “uma solução diplomática duradoura e sustentável do conflito”. Agradeceu ao Paquistão pela mediação, tendo referido também “os esforços de todos os seus parceiros nas negociações”. Paulo Rangel disse posteriormente que “é preciso uma grande disciplina na observância do acordo de cessar-fogo”. Face à necessidade de estabilidade na região, o chefe da diplomacia reconheceu ser preciso o fim dos ataques ao Líbano. “Apelo a Israel para que cesse as hostilidades”, pediu o governante, frisando que compreende “as questões de segurança em causa”. REAçOES “Exorto todas as partes a respeitarem os termos, a fim de alcançar uma paz duradoura na região. A União Europeia está pronta para apoiar os esforços em curso” António Costa Presidente do Conselho Europeu “Acolho com satisfação, e como sinal de esperança real, o anúncio de uma trégua imediata de duas semanas. Só retomando as negociações poderemos chegar ao fim da guerra” Papa Leão XIV Líder da Igreja Católica “Naturalmente, acolhemos com satisfação a notícia do cessar-fogo e saudamos a decisão de não prosseguir a escalada armada, especialmente no que diz respeito aos ataques a alvos civis” Dmitry Peskov Porta-voz do Kremlin “Esperamos que o cessar-fogo seja totalmente implementado no terreno, sem dar azo a possíveis provocações e sabotagens” Recep T. Erdogan Presidente da Turquia “o secretário-geral [António Guterres] sublinha que o fim das hostilidades é urgentemente necessário para proteger vidas civis e aliviar o sofrimento humano” Stéphane Dujarric Porta-voz do secretário-geral da ONU Celebração na Praça Enghelab, em Teerão, após anúncio de acordo + Beirute foi alvo de Israel, que diz combater islamitas PARLAMENTO Ventura acusa Governo e PS pelo custo de vida o presidente do Chega responsabilizou o Governo e o PS pelo aumento do custo de vida, com OS socialistas a acusarem André Ventura de apoiar “o amigo Donald Trump” na guerra contra o Irão. No Parlamento, André Ventura considerou que OS preços do cabaz alimentar, combustíveis e habitação atingiram “um nível verdadeiramente imoral”. o líder do Chega defendeu que deve ser aplicada uma taxa de 0% de IVA ao cabaz alimentar, avisando OS deputados que, se o Parlamento nada fizer, será responsável “pela maior miséria dos nossos concidadãos”. o líder parlamentar do PS, Brilhante Dias, defendeu que o principal culpado é Donald Trump. “ê o seu amigo, de quem foi à posse”, sublinhou. Os efeitos da guerra na economia Apesar de algum alívio, os impactos nefastos da guerra no Médio Oriente continuam a afetar vários setores em Portugal Jovens agricultores asfixiados Confederação Nacional dos Jovens Agricultores e do Desenvolvimento Rural (CNJ) defende que o setor está a ser asfixiado com a escalada dos custos de produção e pediu ao Governo que reúna a plataforma PARCA. Para OS jovens agricultores, as medidas anunciadas pelo Governo são insuficientes e os apoios “chegam tarde e ignoram os prejuízos acumulados”. Queda do PIB no primeiro trimestre o Fórum para a Competitividade estima que se vai verificar uma contração da economia, em cadeia, no primeiro trimestre do ano, devido ao impacto das tempestades e do conflito Ono Médio Oriente. As projeções do Fórum apontam para uma queda em cadeia do PIB do primeiro trimestre entre-0,1% e-0,3%,a que corresponde uma variação homóloga entre 1,9% e 2,1%. Fatura das famílias aumenta As faturas de energia das famílias da União Europeia vão aumentar 1900 euros pOr ano devido à guerra no Médio Oriente, segundo as estimativas da Confederação Europeia de Sindicatos. A escalada do petróleo vai fazer com que as faturas anuais passem, em média, de 3792 euros para 5688 euros. Espera-se assim que os custos energéticos representem 12% do total das despesas. os consumidores vão continuar a olhar para os preços na esperança de que baixem Gabriel Hansen