FERRARI QUER SALVAR MOTOR V12 PARTINDO-O EM DOIS
2026-04-13 21:03:06

Para salvar o motor V12 na era elétrica, esta patente da Ferrari mostra uma solução, no mínimo, invulgar, onde nada é o que parece. Não, isto não é um novo motor V12 da Ferrari. O que estamos a ver são dois blocos de seis cilindros em linha que formam um “V” apenas quando vistos de cima e que estão ligados apenas pelo sistema de escape. Não é um tradicional bloco em “V”, com duas bancadas de cilindros unidas pela cambota. São dois motores distintos e fisicamente separados. E nenhum dos dois está ligado às rodas - não há qualquer tipo de transmissão. © Ferrari Á esquerda podemos ver uma configuração em “V”, mas não é um motor V12, mas dois blocos com seis cilindros em linha separados, que formam um “V” quando vistos de cima. À direita, parte do sistema de escape comum. O que estamos a ver nesta patente da Ferrari é um sistema híbrido em série, onde os motores de combustão servem exclusivamente como geradores de eletricidade. Esta é enviada e armazenada numa bateria, que por sua vez vai alimentar os motores elétricos de tração (os únicos que estão ligados às rodas). A Ferrari mostra aqui uma de duas coisas: ou um elétrico com extensor de autonomia (EREV), à imagem do que muitas marcas chinesas já fazem; ou, dado o poder de fogo presente (dois motores), algo idêntico ao sistema e-Power da Nissan. A diferença entre as duas hipóteses está no tamanho da bateria. Se no caso dos EREV há uma bateria grande que garante uma autonomia elétrica superior a 100 km, no caso do sistema e-Power a bateria é muito pequena, obrigando o motor de combustão a intervir de forma constante. Tudo aponta mais para esta segunda hipótese. E a própria patente deixa pistas claras: “a função do sistema de armazenamento é armazenar energia elétrica gerada pelos motores elétricos durante a travagem regenerativa e, se necessário, também a energia elétrica (ocasional) gerada em excesso pelos dois geradores”. Dito isto, nunca vimos nenhum sistema destes com este nível de complexidade ou com um V12 “desconstruído”. Há lógica na loucura Quase tudo nesta patente da Ferrari parece estranho, mas justificado. Repare-se no posicionamento dos dois motores. Formam o tal “V”, com a Ferrari a sugerir um ângulo preferível entre 20º e 30º quando vistos de cima - acaba por fazer mais sentido depois de os vermos instalados num veículo -, mas também têm posicionamentos contrários entre si. © Ferrari Faz mais sentido a configuração invulgar quando o vemos instalado num veículo, ocupando muito menos espaço do que ter os dois motores paralelos um ao outro. De acordo com a descrição da patente da Ferrari, os dois blocos em “V” têm cada um o seu próprio gerador elétrico, mas para resolver conflitos de espaço entre os dois geradores, a Ferrari propõe uma solução invulgar: um dos motores está orientado para a frente, o outro para trás. A patente descreve outra particularidade. Como temos dois motores, o sistema pode controlá-los de forma independente. Isto permite que funcionem de forma sincronizada, como se fosse um único motor V12, ou fora de fase, criando assinaturas sonoras distintas. Isto significa que este híbrido pode aproximar-se da assinatura sonora de um V12, ainda que por meios muito diferentes. O sistema de escape partilhado também não é apenas uma questão de packaging (um sistema de escape ocupa menos espaço que dois). Um sistema de válvulas controla a ligação entre os dois motores, permitindo otimizar o fluxo de gases e manter o catalisador à temperatura ideal, mesmo quando apenas um dos motores está ativo. Descubra o seu próximo automóvel: Receita para o futuro? Esta patente da Ferrari mostra uma cadeia cinemática para um futuro supercarros: um híbrido em série com motores em posição central traseira, para replicar a distribuição de massas dos seus supercarros só a combustão com motor atrás dos ocupantes. Fica a pergunta: não seria mais fácil usar apenas um motor V12 como gerador? Para a Ferrari ter chegado a esta solução invulgar, temos de acreditar que devem ter visto mais vantagens do que desvantagens em trocar um bloco de grandes dimensões por dois menores. Para mais, ao poderem funcionar isoladamente, deve ajudar ao nível das emissões de CO2 em condução moderada. Como sempre, o facto de haver uma patente não implica que a Ferrari esteja a desenvolver um supercarro híbrido em série. Os fabricantes registam patentes frequentemente e muitas nunca saem do papel. Mas é inegável que a Ferrari procura ativamente soluções que mantenham o caráter distinto e mecânico dos seus supercarros - e onde reside uma parte grande da imagem de marca -, num mundo onde a pressão para reduzir as emissões promete apenas aumentar. Patente Novo motor Ferrari com tecnologia que a Honda deitou fora Já vimos patentes da Ferrari onde virou o motor ao contrário e trocou os pistões cilíndricos por outros ovais. Agora, salvar o motor V12 que a definiu desde sempre, pode implicar algo impensável há poucos anos: desconstruí-lo por completo. Fernando Gomes