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SETOR DA DEFESA PORTUGUÊS VÊ OPORTUNIDADES NOS EUA E MÉDIO ORIENTE, DIZ EAD CLUSTER

Observador Online

2026-04-13 21:06:14

“Todas as aeronaves da Embraer, da Airbus e da Boeing levam a bordo componentes ou peças fabricadas em Portugal”, disse. Os Estados Unidos e o Médio Oriente estão a afirmar-se como mercados estratégicos para empresas portuguesas de defesa, num contexto de crescente procura global e expansão internacional do setor, segundo o presidente do AED Cluster. Em entrevista à Lusa, antes do acordo de cessar fogo entre os EUA, Israel e o Irão, José Neves admite um reforço da presença internacional, sublinhando que há empresas portuguesas a expandir operações para os Estados Unidos e destacando o “grande impacto” das iniciativas, como feiras, no Médio Oriente, onde empresas nacionais têm assegurado novos contratos. “Não posso dar muitos detalhes, mas tenho conhecimento de algumas empresas portuguesas que estão a expandir operações para os Estados Unidos”, revelou o responsável do cluster que integra cerca de 180 entidades entre empresas, universidades e centros de investigação das áreas da aeronáutica, espaço e defesa (AED). José Neves sublinhou que se trata de um mercado “muito aberto e interessante”, com “contratos grandes”, o que tem levado “muitas vezes as empresas a falar entre elas” para avaliarem a necessidade de fazer “uma joint venture entre empresas portuguesas e empresas americanas”. Apesar do potencial externo, o responsável defende que a atual conjuntura geopolítica, como o conflito no Médio Oriente, está sobretudo a acelerar uma transformação estrutural do setor, marcada por uma maior aposta em tecnologia e inovação. A curto prazo destaca o desafio da guerra no Médio Oriente, com alguns equipamentos europeus a serem desviados da Ucrânia para outros conflitos. “Mas a médio prazo isto pode abrir oportunidades para as empresas produzirem não só para a Europa, mas também para mercados emergentes noutras regiões do globo”, explicou. “A guerra cada vez é menos feita por grandes plataformas e é cada vez mais feita por pequenas plataformas com desenvolvimentos muito rápidos que se adaptam todos os dias”, afirmou, apontando para um novo paradigma assente em drones, guerra eletrónica e capacidade de adaptação. Neste contexto, considera que Portugal está bem posicionado para aproveitar esta mudança, já que “as empresas portuguesas têm tido essa capacidade” de responder rapidamente a novas necessidades no terreno. O responsável destaca ainda o conceito de “new defence”, nova orientação estratégica e legislativa, baseado em empresas mais ágeis e inovadoras, que conseguem acompanhar ciclos de desenvolvimento cada vez mais curtos. “As mudanças que se fazem nos drones [ ] são a cada duas semanas, não é a cada dois anos”, exemplificou. José Neves sublinha que esta evolução favorece países com empresas mais flexíveis, como Portugal, num contexto em que a Europa procura reforçar a sua autonomia na área da defesa. “Essa nova tendência [ ] encaixa no perfil e no ADN das empresas portuguesas”, afirmou, defendendo que a capacidade de inovação rápida pode ser uma vantagem competitiva no mercado internacional. Além da tecnologia, José Neves identifica os recursos humanos como um dos principais desafios para o crescimento do setor, numa altura em que a procura por talento qualificado aumenta em toda a Europa. “O desafio não é contratar, é reter”, afirmou, explicando que os trabalhadores ganham competências altamente valorizadas e tornam-se atrativos para outros mercados com salários mais elevados. Ainda assim, sublinha que Portugal tem conseguido atrair talento graças à combinação entre projetos inovadores e oportunidades de desenvolvimento. “Desenvolver drones, satélites, aeronaves [ ] são desafios enormes”, disse. O responsável enquadra ainda esta evolução num esforço europeu para reforçar a capacidade produtiva no setor da defesa, após décadas de dependência externa, nomeadamente dos EUA. “Não é de um dia para o outro [ ] que se consegue revolucionar”, afirmou, sublinhando que o reforço da produção e da qualificação de recursos humanos exigirá vários anos. Para o presidente do AED Cluster, esta transformação do setor, aliada à crescente procura internacional, cria uma oportunidade para reforçar o posicionamento de Portugal na indústria global de defesa. “92% do que é produzido nos setores aeroespacial e defesa é exportado” Os setores aeroespacial e defesa em Portugal exportam 92% da produção e deverão crescer acima de 10%, atingindo novos máximos em volume de negócios e emprego, segundo o presidente do AED Cluster. Em entrevista à Lusa, antes do acordo de cessar fogo entre os EUA, Israel e o Irão, José Neves detalhou que os setores da aeronáutica, espaço e defesa (AED) têm vindo a consolidar o seu peso na economia, com forte orientação externa, sublinhando que “92% do que é produzido é exportado”. Questionado sobre os principais destinos dessas exportações, apontou que é, “garantidamente, o Brasil, por causa da produção da Embraer em Portugal e da relação muito próxima” ao país. Depois vêm Espanha, França e Alemanha, “acima de tudo porque temos empresas com base em solo português, mas cuja casa-mãe está em França”, como é o caso da Airbus. Segundo o responsável, os dados mais recentes, relativos a 2024, apontam para um volume de negócios de 2,1 mil milhões de euros e cerca de 20 mil postos de trabalho, antecipando-se um crescimento de pelo menos 10% em 2025. O cluster integra atualmente cerca de 180 entidades entre empresas, universidades e centros de investigação de aeronáutica, espaço e defesa, refletindo a expansão de um setor que tem vindo a ganhar dimensão na última década. O responsável destaca que Portugal tem vindo a reforçar capacidades industriais em várias áreas, desde a aeronáutica ao espaço, incluindo o desenvolvimento de satélites, drones e sistemas de comunicações. “Estamos hoje a fabricar satélites e lançadores de satélites, algo inimaginável, se calhar, há 10 anos”, afirmou. A par do crescimento industrial, o setor mantém uma forte integração nas cadeias de valor internacionais, com componentes produzidos em Portugal a integrar aeronaves de fabricantes globais. “Todas as aeronaves da Embraer, da Airbus e da Boeing levam a bordo componentes ou peças fabricadas em Portugal”, disse. José Neves sublinha ainda a importância da articulação entre indústria, Estado e Forças Armadas para sustentar o crescimento do setor. “É o triângulo entre a indústria, as Forças Armadas e o Governo”, afirmou, defendendo um maior alinhamento entre necessidades operacionais e desenvolvimento industrial. Segundo o responsável, este trabalho conjunto é essencial para garantir que Portugal desenvolve capacidades próprias e aumenta a incorporação nacional nos grandes projetos de defesa. Neste contexto, defende que a área da defesa e aeroespacial pode vir a assumir um peso relevante nas exportações portuguesas, à semelhança de outros setores industriais. As exportações na área da defesa representam atualmente menos de 1% do total, um valor que o responsável admite que é “pouco”. “Estamos a falar de sistemas de drones e de comunicações, mas no futuro vamos ter satélites, lançadores e aeronaves. Portanto, vamos ter uma panóplia muito maior”, apontou. “Temos que ambicionar que as exportações na área da defesa possam ser 2 ou 3% no futuro”, afirmou, apontando um horizonte de cerca de 10 anos. José Neves estabelece uma comparação com o impacto da indústria automóvel na economia nacional, referindo que a Autoeuropa “representa 3% das exportações nacionais” e que o setor da defesa poderá seguir uma trajetória semelhante. “Neste momento, dos automóveis produzidos na Europa, 95% têm algo produzido em Portugal. Portanto, nós queremos também ter essa ambição na área da defesa”, apontou. Para o responsável, esse crescimento dependerá também da capacidade de atrair investimento, desenvolver produtos com maior valor acrescentado e reforçar os recursos humanos qualificados. [Additional Text]: O presidente do AED Cluster Portugal, José Neves, em entrevista à agência Lusa, na sede da Lusa, em Lisboa, 13 de março de 2026. Os setores aeroespacial e defesa em Portugal exportam 92% da produção e deverão crescer acima de 10%, atingindo novos máximos em volume de negócios e emprego, segundo o presidente do AED Cluster. (ACOMPANHA TEXTODA LUSA DO DIA 12 DE ABRIL DE 2026). JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA Agência Lusa