47% DOS NOVOS VEÍCULOS VENDIDOS ESTE ANO NOS AÇORES SÃO ELÉCTRICOS
2026-04-13 21:06:20

O Laboratório Regional de Engenharia Civil (LREC) acolheu o evento final do projecto europeu EV4EU, dedicado ao futuro da mobilidade eléctrica e à integração dos veículos eléctricos nos sistemas energéticos. Trata-se de uma iniciativa que reforça o papel da inovação tecnológica na transição energética da Região, no âmbito do consórcio do projecto EV4EU, financiado pelo Programa Horizonte Europa e liderado pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores Investigação e Desenvolvimento (INESC-ID). O EV4EU pretende propor e implementar estratégias de gestão centradas no utilizador de Vehicle-to-Everything (V2X), criando condições para o uso massivo de veículos eléctricos. As estratégias, testadas em quatro locais de demonstração (Portugal, Dinamarca, Eslovénia e Grécia) considerarão o impacto nas baterias, nas necessidades dos utilizadores, nos sistemas de energia e na transformação das cidades. A sessão de abertura contou com Francisco Fernandes, Director do LREC; Paulo André, Presidente do Conselho de Administração da Electricidade dos Açores (EDA); Hugo Morais, coordenador de projecto do EV4EU no INESCID; e Berta Cabral, Secretária Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas. Cerca de 47% dos novos veículos vendidos já são eléctricos O projecto tem um objectivo claro e ambicioso: demonstrar, em contexto real, como a mobilidade eléctrica pode ser integrada de forma inteligente no sistema energético, posicionando os veículos eléctricos não apenas como consumidores de energia, mas como parte activa da solução. Nos Açores, este desafio assume particular relevância. A explicação do projecto foi apresentada pelo Presidente da EDA, Paulo André, que destacou as especificidades da Região. Sendo OS Açores um território insular, com sistemas eléctricos isolados e características próprias, registam uma crescente incorporação de energias renováveis e uma clara ambição de descarbonização. Estas condições fazem do arquipélago não apenas um território com desafios, mas também um laboratório natural privilegiado para testar essas soluções, que serão críticas em toda a Europa”. Paulo André referiu ainda que cerca de 47% dos novos veículos vendidos já são eléctricos e estimou que aproximadamente 6 mil veículos eléctricos já circulam nos Açores: “Isto não é uma tendência futura, isto já é uma realidade”. Em territórios insulares, esta realidade traz desafios muito concretos. O Presidente da EDA destacou, entre outros, as limitações das redes eléctricas, os picos de consumo concentrados, a integração de energias renováveis intermitentes, uma gestão operacional mais exigente e a necessidade de envolver o utilizador num enquadramento regulatório em permanente evolução. Explicou também um aspecto fundamental no contexto do projecto: os veículos eléctricos não são apenas uma carga e podem ser também uma carga flexível, capazes de ajudar a equilibrar a rede eléctrica e permitir um melhor aproveitamento das energias renováveis, reduzindo a nossa dependência dos combustíveis fósseis” Ou seja, podem funcionar como armazenamento distribuído, abrindo caminho a novos modelos de negócio e a novos serviços energéticos. E, segundo Paulo André, colocam o cidadão no centro da transição energética”. O demonstrador implementado em são Miguel envolveu habitações, edifícios de serviços e o campus da EDA. Tal permitiu testar soluções em ambiente real, com utilizadores reais e operação diária, com a sua inevitabilidade de complexidade que só a realidade traz a estes projectos”, sendo este talvez “ o maior valor do projecto”. “Não foi um exercício académico, mas um exercício operacional concreto que permitiu observar de forma concreta como os veículos eléctricos interagem com a rede eléctrica, com a produção renovável e com os padrões de consumo. Aprendemos que a gestão inteligente do carregamento pode contribuir para a optimização da rede e uma maior integração de renováveis. e para a EDA, esse projecto permitirá ajudar a antecipar impactos futuros da mobilidade eléctrica na rede, identificar necessidades de investimento, desenvolver o conhecimento interno e preparar a empresa para novos modelos de operação no futuro”, fundamenta. Por sua vez, o coordenador de projecto do EV4EU no INESC-ID sublinha que existem obstáculo, mas que e a mobilidade eléctrica é verdadeiramente uma oportunidade”. “ Nós vemos o contexto geopolítico que temos hoje em dia, com a volatilidade de preços. Nós que, felizmente, temos uma taxa crescente de mobilidade eléctrica, mas também uma taxa muito importante de renováveis, conseguimos passar um bocadinho ao lado dessa realidade” . Para além dos aspectos ambientais, destacou a existência de uma importante vantagem competitiva. Segundo Hugo Morais, há vantagens para os utilizadores, para as Regiões Autónomas e também uma vantagem política, uma vez que a independência energética a nível nacional e europeu é “verdadeiramente um factor crítico”. Apontou ainda desafios ao nível da interoperabilidade dos sistemas e da democratização do acesso: “ A tecnologia não pode ser só para quem tem dinheiro de comprar um carto caro, ou tem dinheiro para comprar os painéis solares. E preciso arranjar estratégias para democratizar o acesso à mobilidade eléctrica”. Requisitos específicos dos utilizadores acrescentam complexidade ao sistema Falando em desafios, na sua intervenção de balanço do projecto-piloto na ilha de SàO Miguel, Samuel Matias, especialista da EDP, sublinhou várias lições retiradas da integração de v2x. Entre elas, destacou que a pouca flexibilidade pode causar ansiedade quanto à autonomia, nomeadamente quando os veículos não estão a carregar antes do período nocturno, evidenciando a importância de uma comunicação clara durante os testes. Referiu também que requisitos específicos dos utilizadores acrescentam complexidade ao sistema. Alguns proprietários desejavam níveis específicos de carga à saída, o que, segundo explicou, justifica o desenvolvimento de versões adaptadas dos algoritmos. Outro dos pontos apontados foi que algoritmos robustos implicam uma integração igualmente robusta. Deu o exemplo de um participante que abandonou a demonstração devido a falhas de integração, sublinhando a importância de garantir a qualidade dos dados através de monitorização prévia. Também pequenas mudanças podem gerar grandes impactos, como a substituição de um veículo eléctrico que comprometeu a continuidade no âmbito da demonstração v2x. Neste contexto, as medidas de contingência são cruciais. Por fim, salientou que as sessões reais exigem apoio próximo, uma vez que muitas decorrem durante o período nocturno, dificultando o suporte por equipas de investigação e desenvolvimento: centralizar e disponibilizar o suporte São fundamentais”. Mobilidade eléctrica “não precisa ter incentivos para ser viável e rentável” Para Berta Cabral, as pessoas percebem que a mobilidade eléctrica não precisa ter incentivos para ser viável e rentável” . De acordo com a Secretária Regional, a integração de entidades regionais num consórcio internacional "exigente”, composto por parceiros de vários países europeus, “demonstra bem a capacidade técnica existente na Região e a importância de iniciativas como esta para trazerem conhecimento, inovação e experiência prática aos Açores”. Berta Cabral explica que estas soluções demonstram como os veículos eléctricos podem deixar de ser apenas consumidores de energia e passar a desempenhar um papel activo no sistema eléctrico regional. Podem funcionar como unidades de armazenamento distribuído, contribuindo para a gestão da rede, absorvendo excedentes de produção renovável, beneficiando os proprietários dos veículos eléctricos e reforçando a resiliência dos sistemas, aspecto particularmente relevante em sistemas pequenos, isolados e sensíveis como os dos Açores. Berta Cabral preocupada com a dificuldade de instalação dos projectos do Solenerge que já foram aprovados Relativamente ao Solenerge, programa para a instalação de sistemas solares fotovoltaicos para autoconsumo que é financiado pelo PRR, Berta Cabral transmitiu uma mensagem aos participantes presentes no auditório do LREC. Numa primeira fase, destacou que a Direcção Regional de Energia tem “tido um trabalho exemplar de análise e aprovação dos projectos”. Após o último reforço do PRR, encontram-se aprovados projectos superiores a 30 MW, mas aprovados, como sublinhou. Assim, frisou a necessidade de passar da aprovação à instalação até 31 de Agosto. Nesse sentido, apelou também às empresas do Grupo EDA, como a SEGMA, para um enorme esforço para instalar”, uma vez que o que contará na avaliação final será a concretização efectiva dos projectos. “Não basta estarem aprovados (...) Têm existido alguma dificuldade, às vezes no fornecimento dos componentes e dos equipamentos, outras vezes também na mão de obra. Até porque isso será um enorme prejuízo para as pessoas que apresentaram projectos que já viram aprovados (...) E, portanto, o que é preciso mesmo é que haja quem os instale”, explica. Berta Cabral referiu ainda que O Solenerge já é um caso de estudo e que, aquando da visita do Vice-Presidente Executivo da Comissão Europeia, Rafael Fitto, na passada Quinta-feira, o projecto foi destacado “porque é um projecto de sucesso e de reconhecido mérito”. José Henrique AndradeJosé Henrique Andrade