COMO ESCOLHER UM CARRO ELÉCTRICO
2026-04-16 21:03:05

Na hora de mudar para a mobilidade eléctrica, os critérios tradicionais de compra já não chegam. É preciso olhar para baterias, curvas de carregamento e software para garantir um bom negócio. A escolha de um automóvel movido a baterias exige uma mudança de paradigma. Além das características habituais que já estamos habituados a considerar nos veículos a combustão, como habitabilidade, qualidade dos materiais, dinâmica e segurança, num modelo 100% eléctrico há um conjunto de características específicas que determinam a experiência de utilização no dia-a-dia. A química da bateria O primeiro aspecto a considerar é a bateria, mas a análise deve ir além da capacidade total em kWh. É fundamental perceber a química utilizada, que se divide habitualmente em dois tipos: LFP (Lítio-Ferro-Fosfato) e NMC (Níquel-Manganês-Cobalto). As baterias LFP são mais robustas e permitem carregamentos frequentes até 100% sem grande degradação. Já as NMC oferecem maior densidade energética, o que se traduz em mais autonomia em menos espaço, mas a recomendação é que, no quotidiano, o carregamento seja limitado a 80% para proteger a vida útil do componente. Conhecer esta diferença ajuda a definir a longevidade do investimento e a rotina de carregamento necessária. O mito da potência máxima de carregamento Um dos erros mais frequentes na compra do primeiro eléctrico é olhar apenas para a potência máxima de pico anunciada pelo fabricante. Um veículo pode prometer carregamentos a 150 kW, mas se apenas mantiver essa velocidade durante escassos minutos, a paragem no posto será longa. O dado realmente relevante é a potência média de carregamento entre os 10% e os 80%, a chamada curva de carregamento. Muitas vezes, um carro com um pico menor, mas mais estável, carrega mais depressa do que um com um valor de marketing elevado que cai abruptamente. No que toca ao carregamento em corrente alternada (AC), geralmente feito em casa ou em postos públicos lentos, muitos modelos estão limitados a 7 kW, o que é perfeitamente suficiente para recuperar a carga durante a noite. No entanto, a compatibilidade com 11 kW ou 22 kW pode ser uma vantagem competitiva para quem pretende utilizar os postos ditos “lentos” da rede pública de forma mais eficiente. A importância do software e do pré-condicionamento Num veículo eléctrico, o software deixa de ser apenas um extra interessante para passar a ser uma ferramenta de gestão energética. Um bom sistema de navegação deve ser capaz de calcular as paragens necessárias para carregar e estimar a percentagem de energia com que se chega ao destino. Sem isto, o condutor fica dependente de aplicações externas no telemóvel, o que torna a viagem menos prática. A tecnologia deve também permitir o pré-condicionamento da bateria. Esta funcionalidade prepara a temperatura da bateria antes de se chegar a um carregador rápido, garantindo que a energia entra à velocidade máxima, especialmente no Inverno. Adicionalmente, a existência de uma aplicação móvel que permita ligar o ar condicionado enquanto o carro está ligado à corrente ajuda a poupar autonomia, pois o habitáculo é climatizado com energia da rede, e a aumentar o conforto em dias mais frios ou mais quentes. Detalhes que fazem a diferença e garantias Existem particularidades de hardware que podem facilitar o uso. O “frunk”, ou bagageira dianteira, é o local ideal para guardar cabos de carregamento, evitando o incómodo de ter de os retirar debaixo das malas quando a bagageira traseira está cheia. Convém ainda verificar se o automóvel inclui os cabos necessários (tipo 2 e doméstico), uma vez que algumas marcas deixaram de os fornecer como item de série. Tecnologias de carregamento bidireccional, como o V2L (Vehicle to Load), que permite alimentar aparelhos eléctricos externos, ou o V2G (Vehicle to Grid), para devolver energia à rede doméstica, são factores de valorização futura que devem ser equacionados. E podem fazer toda a diferença durante apagões , há vários relatos de utilizadores de carros eléctricos que recorreram à tecnologia V2L para manter electrodomésticos a funcionar e até fornecer energia para frigoríficos de medicamentos em farmácias e sistemas informáticos em empresas. Finalmente, a atenção deve recair sobre as letras pequenas da garantia, sobretudo no que diz respeito à bateria. A norma do mercado situa-se nos oito anos ou 160 mil quilómetros, cobrindo geralmente situações em que a capacidade desce abaixo dos 70%. Mas há marcas que oferecem mais. tp.ocilbup@ongam.oigres Os carros eléctricos têm características específicas que convém conhecer para fazer uma boa escolha Phil Noble / REUTERS Sérgio Magno