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DIETA ATLÂNTICA: ESTÁ NA HORA DE LEVAR PORTUGAL À MESA TODOS OS DIAS

Público Online

2026-04-18 11:35:05

Apesar dos benefícios, a Dieta Atlântica tem recebido menos atenção em Portugal do que a Mediterrânica. Especialistas em nutrição e chefs defendem que se deve valorizar mais este regime alimentar. Peixe e marisco, vegetais, leguminosas, cereais, frutos secos, lacticínios e carne são os grandes grupos alimentares que caracterizam a Dieta Atlântica - atenção, não confundir com Dieta Mediterrânica. A estes junta-se o azeite, como a gordura mais usada. Já quanto aos métodos de confecção, a cozedura, os guisados, os assados no forno e os grelhados nas brasas são os eleitos. Mas este regime é também um estilo de vida que vai além da parte alimentar, inclui o convívio à mesa e a actividade física. Apesar de não sermos banhados pelo mar do sul da Europa, mas sim pelo Oceano Atlântico, em Portugal, tende-se a falar mais da Dieta Mediterrânica do que da Atlântica. No entanto, “a nossa agricultura e clima estão directamente condicionados pelo Atlântico, além de que o nosso peixe também é diferente do do mediterrânico”, sublinha à Fugas o nutricionista João Rodrigues. Portanto, “faz todo o sentido falar da Dieta Atlântica no nosso território”, defende. “Historicamente, a Dieta Atlântica está associada ao Norte de Portugal e à Galiza”, realça Renato Cunha, chef e proprietário do restaurante Ferrugem e professor na Universidade Portucalense e na Escola Superior de Hotelaria do Porto. “A influência atlântica é mais marcada no Norte de Portugal, mas vem por aí abaixo”, acrescenta Nuno Brito, docente coordenador do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que sublinha que o Alentejo litoral pode ser considerado uma zona de transição. Nuno Brito é da opinião que se deveria falar muito mais de Dieta Atlântica em Portugal e as primeiras discussões sobre o tema foram feitas no estabelecimento de ensino onde dá aulas em 2005, refere. “É um factor diferenciador da gastronomia portuguesa”, sublinha Vítor Sobral, lembrando que Portugal é um país oceânico, com uma linha de costa de cerca de 2500 km, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores, mas mesmo assim, “focamo-nos na Dieta Mediterrânica”. A culpa “é da falta de narrativa gastronómica de Portugal, contrariamente a Espanha, onde se fala abertamente de Dieta Atlântica”, atira. Aumentar Um regime alimentar que nasce da subsistência Mas, o que é a Dieta Atlântica? Para João Rodrigues, esta está muito associada à economia de subsistência e “permite valorizar as raízes gastronómicas locais, os produtos sazonais e a economia local, bem como o equilíbrio harmonioso entre o que a terra e o mar oferecem”. A sua base são “os alimentos de origem vegetal, embora haja uma grande incidência de proteínas animais com muito peixe e marisco, mas também carne”, refere Renato Cunha. “Devido à nossa extensa costa, temos peixe de muita qualidade, desde sardinhas, carapau, pescada, marisco, polvo e bacalhau, que embora não seja de origem portuguesa, faz parte da cultura gastronómica atlântica”, enumera Nuno Brito. Já no caso dos vegetais, o professor do politécnico de Viana do Castelo dá como exemplos alfaces, couve-galega, nabos, batatas, aos quais Vítor Sobral acrescenta o tomate, o alho e a cebola. Quanto às frutas, as mais dominantes são a maçãs, as peras e os citrinos. Importantes também são os frutos secos como as castanhas, as nozes e as amêndoas, dizem. Outro alimento fundamental, diz Vítor Sobral, é o pão e alguns pratos incorporam milho ou farinha de milho. No que diz respeito à carne, prevalece a de aves de capoeira, de porco e de vaca. João Rodrigues frisa que a Dieta Atlântica demonstra uma maior preocupação em incluir as regiões do interior, não apenas as costeiras. Semelhanças e divergências Mas afinal, o que aproxima e afasta a Dieta Atlântica da Mediterrânica? João Rodrigues constata que ambas são muito próximas na sua base, partilhando pilares como a predominância do consumo de vegetais, o respeito pela sazonalidade e pela proveniência dos alimentos. Junta ainda a presença de leguminosas e de frutos secos, a aposta clara no peixe e no marisco e o uso de azeite como gordura de eleição. “Além disso, ambas têm uma dimensão do convívio e partilha de tempo à mesa e um estilo de vida mais activo”, salienta o também autor da página de Instagram Mundo da Nutrição. Foto O chef Renato Cunha lembra que a Dieta Atlância está muito associada à auto-suficiência e à cultura de subsistência Rui Oliveira Para o chef do Ferrugem, em Famalicão, “a proporção de consumo de alguns alimentos é o principal diferenciador”. Ideia partilhada por João Rodrigues: “Na Dieta Atlântica, há um maior consumo de carnes vermelhas, embora a de aves seja predominante.” Verifica-se ainda “maior ingestão de lacticínios, sobretudo leite e queijo e, no caso dos hidratos de carbono, a Dieta Atlântica inclui mais comummente alimentos ricos em amido, como a batata, em contraste com a Dieta Mediterrânica, que se foca mais nos cereais integrais”, explica o nutricionista. De acordo com João Rodrigues, “não se trata de competir sobre qual é mais saudável, mas reconhecer e valorizar ambas as dietas”. A razão para a Atlântica ser menos conhecida do que a Mediterrânica está associada ao facto “de haver menos anos de estudos em comparação com a segunda”, refere o nutricionista. Foto O nutricionista João Rodrigues destaca que é uma "dieta saudável", mas "desde que as escolhas e proporções sejam adequadas" dr Outro factor decisivo para isso, continua, “é que aquilo a que chamamos Dieta Atlântica baseia-se fortemente nos hábitos da Península Ibérica, mas não podemos esquecer que os países banhados pelo Oceano Atlântico abrangem diferentes continentes e culturas alimentares”. O conceito de Dieta Atlântica que aqui abordamos surgiu em Santiago de Compostela, na Galiza, Espanha. “Possivelmente para que a região pudesse delimitar a sua própria gastronomia e não se sentir excluída pela predominância da Dieta Mediterrânica em Espanha”, refere João Rodrigues. A conformação dos benefícios Foi naquela cidade que, em 2007, foi fundada a Fundação Dieta Atlântica, integrada na Universidade de Santiago de Compostela, para incentivar o estudo desta dieta, difundi-la e perceber que benefícios tem para a saúde. “A Dieta Atlântica é manifestamente saudável e alinha-se com as tendências modernas de consumo, que valorizam os vegetais e o peixe”, sublinha Nuno Brito. A mesma opinião tem João Rodrigues: “É uma dieta saudável, com benefícios equivalentes aos da Dieta Mediterrânica, desde que as escolhas e proporções sejam adequadas.” Aquilo a que chamamos Dieta Atlântica baseia-se fortemente nos hábitos da Península Ibérica, mas não podemos esquecer que os países banhados pelo Oceano Atlântico abrangem diferentes continentes e culturas alimentares João Rodrigues O Estudo Galiat, promovido pela Fundação Dieta Atlântica, é uma das investigações que comprovou os benefícios deste regime alimentar. Realizado entre 2014 e 2015 por especialistas dos centros de saúde e da Unidade de Gestão Integrada de Santiago, analisou mais de 250 famílias (715 crianças e adultos) do bairro A Estrada, em Pontevedra. A mais de metade dessas pessoas foi aconselhado seguir este padrão alimentar durante seis meses, as restantes mantiveram a sua alimentação. Para que o regime fosse seguido rigorosamente, a comunidade teve aulas de culinária, foram disponibilizados planos de refeições e de receitas, bem como a distribuição gratuita de alimentos necessários. Em 2016, os primeiros resultados do estudo mostraram que a população que seguiu a Dieta Atlântica teve uma diminuição do índice de massa corporal, uma redução da adiposidade e do colesterol. Foto Vítor Sobral defende que a valorização e o resgate da Dieta Atlântica portuguesa e das nossas tradições culinárias, que se encontram subvalorizadas face modismos e narrativas externas, é importante Catarina Póvoa Oito anos depois, as conclusões do Galiat foram publicadas na revista JAMA Network Open com boas novas: a Dieta Atlântica pode reduzir a incidência da síndrome metabólica, que combina pressão arterial elevada, níveis altos de açúcares no sangue e de triglicéridos, bem como acumulação de gordura na barriga. Este quadro aumenta o risco de doença arterial coronária, diabetes, acidente vascular cerebral (AVC) e outros problemas de saúde graves. Planos para o futuro Olhando para o futuro, Nuno Brito recomenda a criação “de um observatório ou uma estrutura de desenvolvimento, semelhante ao que existe para a Dieta Mediterrânica e é importante que Portugal colabore com outros países da bacia atlântica, especialmente aqueles que já avançaram na sua valorização”, como é o caso de Espanha. Preponderante ainda, revela o professor do politécnico de Viana do Castelo é explicar o que é a Dieta Atlântica e promovê-la junto dos consumidores. “A educação é essencial, e sua inclusão nos programas escolares seria um passo importante”, garante. Vítor Sobral também defende que informar as pessoas sobre a riqueza da sua própria cultura gastronómica é vital. “Os portugueses têm de valorizar aquilo que são e o que têm, em vez de acharem que o que vem de fora é sempre melhor. E isto não afecta apenas a gastronomia”, sublinha, contando à Fugas que faz parte do novo projecto da AHRESP, o Degusta Lisboa, um guia gastronómico do qual farão parte restaurantes, tascas, pastelarias, padarias e mercados que, na região de Lisboa, estejam alinhados com a tradição portuguesa. “Nós cozinheiros e proprietários dos restaurantes também temos a responsabilidade de influenciar consumidores e profissionais a adoptarem práticas mais sustentáveis”, constata Renato Cunha. O chef lembra que a Dieta Atlântica está muito associada à auto-suficiência e à cultura de subsistência. “Antes, as pessoas alimentavam-se do que produziam nas hortas, criavam ou pescavam. E contextualiza como, no período pré-25 de Abril, especialmente no Norte, “a alimentação reflectia a pobreza da população, as refeições eram muito simples e os alimentos vegetais predominavam”. Renato Cunha recorda que se criavam porcos no Inverno e que a sua carne era curada e usada para condimentar sopas. Contudo, a proteína animal era quase residual e vinha sobretudo da carne de capoeira, uma vez que o gado bovino era mais usado para o trabalho agrícola. Nos peixes, predominavam os pequenos, como a cavala, sardinha e faneca. Foto A Dieta Atlântica valoriza as raízes gastronómicas locais, os produtos sazonais e a economia local Miguel Manso A tradição para Renato Cunha é algo que é validado e replicado pelas populações ao longo de gerações, adaptando-se ao território, independentemente da sua origem. “É importante distinguir a verdadeira prática histórica dos hábitos contemporâneos ou adaptados”, refere. O chef é crítico do termo “autóctone” e explica: “Quase tudo o que é reclamado como autóctone é fruto de outras latitudes. A obsessão com o autóctone pode ser uma falsa questão. As batatas não são originárias de Portugal, mas cultivamo-las cá há já muito tempo e o mesmo acontece com outros produtos.” Acabar com as modas Para Vítor Sobral, “a valorização e o resgate da Dieta Atlântica e das nossas tradições culinárias, que se encontram subvalorizadas face a modismos e narrativas externas, apesar da nossa riqueza, é um passo importante”. O chef recorda métodos de preservação como a salga (do peixe, do bacalhau), o fumeiro, a secagem (polvo e lula secos) e a conservação em vinagre (escabeche), que davam origem a pratos saborosos. “Hoje, fala-se muitos dos fermentados do norte da Europa, mas nós também sempre tivemos métodos de preservação de alimentos”, realça. Renato Cunha coincide na ideia de retomar as técnicas de conservação para consumir produtos sazonais de qualidade ao longo do ano, evitando, assim, vegetais de estufa de má qualidade. “Actualmente, as escolhas alimentares são frequentemente influenciadas por redes sociais e modismos, preterindo produtos locais, mais baratos, mais frescos e nutricionalmente ricos”, reclama Vítor Sobral, que chama a atenção para a desvalorização do produto nacional: “Há uma preferência por produtos estrangeiros, caso do salmão em detrimento de peixes nacionais acessíveis. Depois, vemos pessoas a tomar suplementos alimentares em vez de apostarem numa alimentação equilibrada.” “Temos de voltar atrás. A cozinha portuguesa destaca-se pela sua simplicidade e capacidade de criar pratos deliciosos com poucos ingredientes, aproveitando a grande qualidade dos produtos locais. Sempre tivemos abertura à incorporação de ingredientes de outras paragens, desde os Descobrimentos, mas sem perder a nossa essência”, defende Vítor Sobral. O chef diz que “os modismos diluem a identidade e há risco de muitos pratos e conhecimentos tradicionais virem a desaparecer, devido à falta de transmissão geracional e à preferência por novas tendências”. A prioridade para o futuro, reforça Renato Cunha, é falar de sustentabilidade. “Temos de reduzir a dependência de produtos vindos de longe, produzir alimentos que se adaptam bem ao clima e aos recursos locais, evitando culturas que esgotam recursos, caso do abacate no Algarve, que exige muita água, e estar atento à necessidade de deslocação geográfica de culturas”, aconselha o chef. Em linha com as dietas atlânticas e mediterrânicas, o chef defende que se deve intensificar o consumo de vegetais, produtos frescos, locais e sazonais, respeitando os ciclos da natureza. “É fundamental também diminuir o consumo de proteína animal e utilizar todas as partes do animal, por respeito e sustentabilidade, contrariando o hábito de preferir apenas cortes nobres”, conclui. 8 recomendações da Dieta Atlântica Foto Consumir peixe e marisco três a quatro vezes por semana. São ricos em proteínas de alto valor, ácidos gordos ómega-3, vitamina D, cálcio e oligoelementos. Aumentar o consumo de cereais, batatas e leguminosas, pois fornecem hidratos de carbono complexos e fibra alimentar. Recomenda-se o consumo de pão feito com farinhas de menor extracção e a cozedura das batatas. Ampliar o consumo de frutas e legumes, devido aos antioxidantes e fitoquímicos com potencial antioxidante adicional.  Consumir leite e derivados diariamente, pois são excelentes fontes de proteínas de alto valor biológico, minerais (cálcio, fósforo, etc.) e vitaminas. Consumir carne com moderação, pois fornece proteínas de alto valor, ferro altamente biodisponível e equivalentes de niacina (vitamina B3). Simplicidade na preparação dos alimentos é fundamental para manter a qualidade das matérias-primas e, consequentemente, o seu valor nutricional. Beber muitos líquidos, especialmente água. As condições climáticas e as características do solo dos territórios atlânticos proporcionam águas ricas em minerais. O consumo moderado de vinho, de preferência durante as refeições, está também contemplado, mas estudos mais recentes põem em causa o seu benefício. Praticar actividade física diária é tão importante como alimentar-se correctamente. A paisagem atlântica, tanto em terra como no mar, permite o desenvolvimento de actividades de lazer que fomentam a actividade física. Fonte: Adaptado de informação disponibilizada pela Fundação da Dieta Atlântica tp.ocilbup@onateacsr A base da dieta atântica são os vegetais e o peixe Manuel Roberto O chef Renato Cunha lembra que a Dieta Atlância está muito associada à auto-suficiência e à cultura de subsistência Rui Oliveira O nutricionista João Rodrigues destaca que é uma "dieta saudável", mas "desde que as escolhas e proporções sejam adequadas" dr Vítor Sobral defende que a valorização e o resgate da Dieta Atlântica portuguesa e das nossas tradições culinárias, que se encontram subvalorizadas face modismos e narrativas externas, é importante Catarina Póvoa A Dieta Atlântica valoriza as raízes gastronómicas locais, os produtos sazonais e a economia local Miguel Manso Rita Caetano