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FORD QUER VOLTAR A SER GRANDE NA EUROPA E TEM UM PLANO

Razão Automóvel Online

2026-04-19 21:05:42

A Ford perdeu os seus modelos mais importantes na Europa e viu as vendas cair. Agora prepara uma nova fase para recuperar a dimensão perdida Quem te viu e quem te vê. A Ford já foi uma das marcas mais relevantes na Europa. Em 2015, por exemplo, vendeu mais de um milhão de carros no continente, ficando apenas atrás da Volkswagen entre as marcas mais vendidas. Em 2025 o cenário é distinto, ao ter vendido pouco mais de 300 000 unidades, não indo além da 14.ª posição. A pandemia e a crise logística que se seguiu ajudam a explicar parte do declínio, mas há dois nomes que dizem quase tudo: Fiesta e Focus. O primeiro desapareceu em 2023 e era, tradicionalmente, o modelo mais vendido da marca. O segundo terminou a produção o ano passado sem deixar sucessor. Durante décadas, foram os pilares da marca. Com o seu fim foi-se grande parte do volume. Sem Fiesta e sem Focus, a Ford ficou dependente do Puma e do Kuga para fazer volumes na Europa. São modelos importantes, sobretudo o Puma, mas insuficientes para sustentar a presença que a marca já teve no mercado europeu. © Ford No dia 15 de novembro de 2025 o último exemplar do Ford Focus saiu da linha de produção, na fábrica de Saarlouis, na Alemanha, após 27 anos, quatro gerações e 12 milhões de unidades. Ao mesmo tempo, a aposta na eletrificação, primeiro com o Mustang Mach-E e depois através da parceria com a Volkswagen ficou aquém das expectativas. O Explorer e o Capri chegaram com ambição, mas ficaram longe do impacto comercial que a Ford precisava. Onde a Ford continua a mandar Há, no entanto, um território onde a Ford não perdeu relevância, bem pelo contrário: a divisão Ford Pro. Nos veículos comerciais, que inclui a pick-up Ranger, a marca da oval azul é líder de mercado na Europa há mais de 10 anos consecutivos. Em 2025 atingiu recordes absolutos em vendas e quota de mercado: mais de 400 mil unidades e 17%, respetivamente. Ou seja, é hoje mais provável cruzarmo-nos com as Transit e Ranger no velho continente do que com os Puma e Kuga. É onde está a sua força e que tem garantido a viabilidade do construtor no mercado europeu. Nos ligeiros de passageiros os desafios são maiores. Além de não estar presente em segmentos essenciais, a Ford tem de lidar hoje com mais concorrência, especialmente a vinda da China. Em 2025, as marcas chinesas conseguiram uma fatia de 6,1% do mercado europeu, quase duas vezes mais que em 2024. Em 2026, alguns analistas antecipam uma quota que poderá superar os 10%. Menos genérico, mais Ford Mas o construtor já prometeu dar resposta aos desafios. Jim Farley, diretor-executivo da Ford, já deixou claro o objetivo: voltar a apostar em carros menos genéricos e recuperar a identidade que fez do Fiesta e do Focus referências no mercado. A ambição passa por voltar a fazer carros mais acessíveis, mas com carácter e entre os mais interessantes de conduzir. Em suma, voltar a ser Ford. Essa nova fase já está em preparação, mas a forma como o pretendem fazer levanta algumas questões. O primeiro a chegar será um SUV, em 2027. Será produzido em Valência, Espanha, na mesma fábrica de onde sai o Kuga. Não o vai substituir, mas vai recorrer à mesma plataforma C2 e ser multi-energias (híbrido e elétrico). Diz-se que vai adotar o nome Bronco, mas terá pouco com o Bronco que está a pensar - e que já conduzimos. Ou seja, será um rival mais para o Jeep Compass do que para o Wrangler. É o que vem depois, em 2028, que levanta dúvidas. Isto porque a Ford anunciou o lançamento de dois novos modelos elétricos, com o primeiro a preencher o vazio deixado pelo Fiesta. Só que a base não será Ford, mas sim Renault: o futuro Fiesta vai partilhar a base do Renault 5, assim como o segundo modelo, um crossover que poderá tomar o lugar do atual Puma elétrico. Não há nada de errado com a base francesa, mas continuará a ser um Ford? Os designers e os engenheiros da marca norte-americana não terão a vida facilitada para conseguir um produto diferenciado. Repare-se, por exemplo, no novo Nissan Micra com costela francesa . Jim Farley tem defendido que não quer mais veículos genéricos, como afirmou recentemente em entrevista ao Top Gear: “as pessoas gostavam do Focus e do Fiesta porque eram acessíveis com uma excelente condução e dinâmica. Não eram veículos aborrecidos”. Conseguirá isso com os novos modelos? Teremos de aguardar por esta nova Ford para ter uma resposta. Uma Ford que, na Europa, será tudo bastante linear do ponto de vista tecnológico, recorrendo à Volkswagen, Renault e às suas próprias soluções. Fernando Gomes