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MITSUBISHI ECLIPSE CROSS EV: O FRANCÊS COM NOME NIPÓNICO

LusoMotores Online

2026-04-19 21:06:03

Depois de algumas centenas de quilómetros ao volante do Mitsubishi Eclipse Cross EV 218 CV, percorrendo cidade, estrada nacional e autoestrada, a conclusão é clara: este não é um japonês disfarçado de europeu, mas sim um europeu com pedigree de prémios , o Renault Scénic E-Tech , que vestiu a camisola Mitsubishi. E isso, ao contrário do que muitos possam temer, é uma excelente notícia. A plataforma AmpR Medium é, neste momento, uma das mais competentes do segmento dos SUV compactos elétricos, e o Eclipse Cross beneficia integralmente dessa herança. Em cidade, o comportamento é exemplar. Os 218 CV (160 kW) em tração dianteira entregam uma aceleração progressiva mas decidida, com os 300 Nm de binário disponíveis instantaneamente. O silêncio de rolamento é impressionante, fruto do bom isolamento acústico e da ausência de vibrações. O raio de viragem curto e a direção assistida eletricamente, leve mas precisa, tornam os estacionamentos e as manobras em ruas estreitas tarefas sem qualquer stress. Em estrada nacional, a suspensão , independente nas quatro rodas , revela um compromisso notável entre conforto e contenção de rolamento da carroçaria. As curvas mais apertadas são feitas com segurança e sem hesitações, com o centro de gravidade baixo a dar uma estabilidade que muitos SUV a combustão invejam. Em autoestrada, o Eclipse Cross mostra o seu lado mais maduro. A velocidade de cruzeiro aos 120 km/h é mantida sem esforço, e o Cruise Control Adaptativo funciona de forma suave, sem acelerações ou travagens bruscas. O ruído aerodinâmico começa a ser percetível acima dos 110 km/h, mas sem nunca incomodar numa viagem longa. O grande senão aqui é a autonomia: a bateria de 60 kWh úteis, em autoestrada a 120 km/h, consome cerca de 22 kWh/100 km, o que reduz a autonomia real para uns modestos 270 km , muito aquém dos 420 km WLTP anunciados. É um aviso para quem faz muitos quilómetros em AE: vão parar mais vezes ao carregador. A conectividade é um ponto forte, como aliás já se espera num veículo da Aliança. O ecrã central de 9 polegadas é responsivo, com gráficos modernos e integração sem fios para Android Auto e Apple CarPlay. O sistema de som, embora não sendo premium, cumpre. O head-up display (opcional) é claro e bem projetado. O conforto a bordo é elevado: os bancos dianteiros são generosos e ajustáveis, e o espaço traseiro surpreende , dois adultos de 1,80 m viajam com espaço de sobra para pernas e cabeça, ao contrário do que acontecia no antigo Eclipse Cross. A bagageira, com 405 litros, é correta para o segmento, mas fica aquém dos 500 litros do Tesla Model Y ou dos 475 do Kia Niro EV. Quanto ao carregamento: em corrente alternada, aceita 11 kW (standard) ou 22 kW (opcional), o que permite uma carga completa dos 0% aos 100% em cerca de 6 horas ou 3 horas, respetivamente. Em corrente contínua, suporta até 130 kW, recuperando dos 15% aos 80% em aproximadamente 35 minutos. Estes números são médios , não impressionam como os 250 kW do Model Y, mas são suficientes para a maioria dos utilizadores. O problema é que a curva de carregamento não é particularmente plana: após os 80%, a potência cai drasticamente, tornando os últimos 20% muito lentos. O conselho prático: carreguem até 80% e sigam viagem. O elefante na sala, afinal, não é uma cópia descarada, mas sim uma partilha de excelência. O Eclipse Cross é um Renault Scénic E-Tech com design Mitsubishi , e isso é mau? Só para quem espera um genuíno projeto nipónico. Para quem quer um SUV elétrico competente, com garantia de fiabilidade europeia, é uma excelente opção. O problema da Mitsubishi em Portugal é o posicionamento: a marca tem pouca rede de concessionários, baixo reconhecimento no elétrico e um preço que roça os 42.500EUR, valor muito próximo do Scénic original (que começa nos 41.000EUR) e do Tesla Model Y (44.000EUR). Para quê comprar o “primo” quando se pode ter o “original” ou o líder de mercado? Em concorrência direta em Portugal, o Eclipse Cross enfrenta: Renault Scénic E-Tech (220 CV): Mesma plataforma, mais espaço interior, mais identidade europeia e preço ligeiramente inferior. É a alternativa natural e mais racional. Tesla Model Y (RWD, 299 CV): Mais potente, maior autonomia (455 km reais), rede de Superchargers incomparável, mas mais caro e com acabamentos menos refinados. Kia Niro EV (204 CV): Menos potente, mas com consumos mais baixos, garantia de 7 anos e mala maior. É o concorrente mais sensato para famílias. Volkswagen ID.4 (204 CV): Mais habitável e com melhor comportamento em AE, mas software menos intuitivo e preço mais elevado. MG4 (204 CV): Muito mais barato (a partir de 33.000EUR), mas com menos qualidade de construção e assistência pós-venda limitada. O Eclipse Cross fica num meio-termo desconfortável: é melhor que o MG4, mas mais caro; é tão bom como o Scénic, mas sem a vantagem de ser o “original”; é mais acessível que o Model Y, mas perde em autonomia e rede de carregamento. Três pontos positivos globais: Plataforma AmpR Medium de excelência , dinâmica, segura e bem calçada (herdada do Carro do Ano na Europa). Conforto e espaço interior muito acima da média do segmento, especialmente para passageiros traseiros. Silêncio de rolamento e qualidade de construção sólida, típica da produção francesa em Douai. Três pontos negativos ou a melhorar: Autonomia real em autoestrada muito inferior à anunciada (cerca de 270 km reais vs 420 km WLTP) , o maior calcanhar de Aquiles. Velocidade de carregamento DC limitada a 130 kW e curva de carga muito lenta após os 80%, penalizando viagens longas. Preço e posicionamento confuso em Portugal , mais caro que o Renault Scénic (o original) e sem rede de concessionários ou reconhecimento de marca no elétrico. Ficha Técnica , Mitsubishi Eclipse Cross (100% Elétrico, 218 CV) ParâmetroEspecificaçãoMotorElétrico síncrono de ímanes permanentes (Renault)Potência máxima160 kW (218 CV)Binário máximo300 NmTraçãoDianteiraPlataformaAmpR Medium (ex-CMF-EV, da Renault/Nissan)BateriaIão-lítio (química NMC), capacidade bruta 66 kWh / útil 60 kWhAutonomia WLTPAté 420 km (ciclo combinado)Consumo WLTP16,5 kWh/100 kmVelocidade máxima160 km/h (limitada)Aceleração 0-100 km/h7,6 segundosCarregamento AC11 kW (standard) , 0 a 100% em 6h / 22 kW (opcional) , 0 a 100% em 3hCarregamento DCAté 130 kW , 15% a 80% em 35 minutosComprimento4,55 mLargura1,80 mAltura1,57 mDistância ao solo17 cmBagageira405 litros (bancos atrás) / 1.200 litros (bancos rebatidos)Peso em ordem de marcha1.750 kgProduçãoFábrica de Douai, França (Renault)Garantia Garantia de fábrica de 5 anos/100 000 km, mais três anos adicionais de cobertura condicional alargada, o que eleva o total para 8 anos/160 000 km; Garantia anticorrosão de 12 anos; Garantia da bateria de tração de 8 anos/160 000 km; 8 anos de assistência em viagem (Pacote de Assistência Mitsubishi), com os últimos três anos sujeitos às mesmas condições da garantia alargada.Preço base em PortugalDesde 42.500EUR Veredito final: O bom primo que chegou tarde O Mitsubishi Eclipse Cross MK II 218 CV é, tecnicamente, um excelente SUV elétrico. Aproveita o melhor que a Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi tem para oferecer , a plataforma AmpR Medium, a motorização eficiente, e ainda o conforto e a conectividade herdados do Renault Scénic E-Tech. Em comportamento dinâmico, silêncio de rolamento e qualidade de construção, o Eclipse Cross não fica a dever nada aos líderes do segmento. Haverá ainda assim um problema de contexto. Em Portugal, a Mitsubishi é uma marca com pouca expressão no mercado elétrico, rede de concessionários limitada e um histórico recente mais associado aos SUVs a combustão (Outlander, L200) do que à eletrificação. Lançar um modelo que é, na essência, um Renault Scénic com outro logótipo e um preço ligeiramente superior (42.500EUR vs 41.000EUR do Scénic) pode revelar-se um tiro de canhão para matar moscas, isto porque o consumidor português, racional e bem informado, perguntará: “Para quê pagar mais pelo primo, quando posso ter o original francês, com mais garantia de rede e de valorização?” Acresce que a concorrência não perdeu tempo. O Tesla Model Y, por apenas mais 1.500EUR, oferece muito mais autonomia real, acesso à rede Supercharger e um ecossistema tecnologicamente superior. O Kia Niro EV, com a sua garantia de 7 anos e consumos mais baixos, é uma escolha mais sensata para quem quer tranquilidade a longo prazo. E o MG4, por quase 10.000EUR menos, rouba clientes sensíveis ao preço, ainda que com menos requinte e, convenhamos, bem menos qualidade. Onde o Eclipse Cross poderia vencer? Certamente se a Mitsubishi o tivesse lançado esta proposta dois anos antes, com um preço agressivo (39.000EUR) e uma campanha de marketing forte a capitalizar o prémio do Scénic. Só que nada disso aconteceu e, ao invés, chega tarde, caro e sem identidade própria. É giro, tem qualidade, mas será que alguém compra um modelo japonês que o é apenas de nome? Restará ao importador apostar forte nas campanhas e colocação deste modelo em frotas, mas trabalho promete ser hercúleo. ensaio: Diogo Faria Reis Jorge Reis