ENERGIA SOLAR FOI A QUE MAIS CRESCEU NA PROCURA GLOBAL EM 2025
2026-04-20 21:06:02

Pela primeira vez, a energia solar foi a que mais contribuiu para satisfazer o aumento da procura global em 2025: representou mais de um quarto do crescimento, calcula a Agência Internacional de Energia. A transição energética ganhou velocidade, mas o sistema continua exposto a choques externos. A energia solar foi, em 2025, a fonte que mais contribuiu para satisfazer o crescimento da procura energética. As contas são da Agência Internacional de Energia (AIE), que no relatório sobre o mercado de energia relativo ao ano passado, conclui que apesar da desaceleração da procura, a energia solar estreou-se como aquela que mais respondeu a esse aumento: foi responsável por 25% do acréscimo total, seguida do gás natural, que contribuiu 17%. O petróleo contribuiu 15% e o carvão representou 9%. Num relatório que não refere os efeitos do conflito no Médio Oriente, que começou já em 2026, a AIE explica que todas as tecnologias cresceram no ano passado, embora a ritmos diferentes. A procura cresceu 1,3%, abaixo dos 2% de 2024 e da média da década anterior, devido a “um crescimento económico global mais lento, acompanhado de uma evolução mais fraca das indústrias de consumo eletrointensivo nalgumas regiões do globo, assim como melhorias de eficiência e menos procura por refrigeração”. No caso da eletricidade, no entanto, a tendência é oposta: cresceu 3% face a 2024 (valor que ainda assim é uma desaceleração face ao aumento do ano anterior). Razões: a meteorologia com temperaturas mais amenas em regiões com grande procura por ar condicionado, incluindo a Índia. Ao todo, a procura por eletricidade em 2025 cresceu cerca de 2,3 vezes mais do que a procura total. 25%Solar A energia solar respondeu a 25% do acréscimo da procura, seguida do gás natural, que contribuiu 17%. Ainda assim, o crescimento da procura de 1,3% permitiu à energia solar isolar-se enquanto maior contribuinte para satisfazer essa subida, sendo “a primeira vez que uma fonte renovável moderna contribuiu a maior fatia do crescimento global da procura por energia”, lê-se no documento. “A procura por petróleo, gás natural e carvão cresceram em 2025, mas a um ritmo inferior a 2024”, enquanto “as fontes de baixas emissões combinadas , solar, eólica, nuclear, hídrica e outras , representaram quase 60% do crescimento da procura global”, explicam os especialistas. Carros elétricos na China desaceleraram petróleo A guerra no Médio Oriente, que não é referida no documento, tem feito disparar o preço do petróleo e dos combustíveis. Mas até ao final do ano passado, a agência notava uma desaceleração da procura pelo ouro negro, que foi de 650 mil barris por dia, 0,7% abaixo dos 750 mil de 2024. A procura por petróleo, gás natural e carvão cresceram em 2025, mas a um ritmo inferior a 2024. AIE Relatório 2025 A evolução, que ficou em linha com as projeções da agência, permaneceu bastante abaixo das subidas anteriores, que entre 2010 e 2019 foram, em média, de 1,4 milhões de barris por dia. A perda de fulgor “reflete sobretudo um crescimento mais fraco nos stocks de matérias-primas, sobretudo na China, onde o aumento continuado dos veículos elétricos colocou em cheque a procura por petróleo para o transporte rodoviário”. A venda de carros elétricos no gigante asiático continua a aumentar rapidamente, escreve a AIE: cresceu mais de 20% para 20 milhões de veículos, representando já um em cada quatro vendas. Os veículos elétricos foram, de resto, o principal fator isolado para a procura acrescida de energia elétrica, representando 38% desse aumento. Os centros de dados representaram mais 17%. Olhando para os próximos anos, a pressão sobre o sistema energético deverá intensificar-se. A AIE estima que o consumo global de eletricidade continue a crescer a um ritmo próximo de 3,5% ao ano até ao final da década, impulsionado por uma nova vaga de procura associada a veículos elétricos, centros de dados, ar condicionado e indústria. Nos Estados Unidos, os "data centers" representaram cerca de metade do crescimento do consumo elétrico em 2025, refletindo o impacto crescente da digitalização e da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, as energias renováveis deverão assumir um papel cada vez mais dominante na produção elétrica, com a solar e a eólica a liderarem a expansão de capacidade. Em alguns mercados, estas fontes já estão a aproximar-se - ou mesmo a ultrapassar - os combustíveis fósseis na geração de eletricidade. Mas este crescimento traz novos desafios, uma vez que a procura está a acelerar mais rapidamente do que o reforço das redes elétricas, transformando a infraestrutura num dos principais gargalos da transição. A necessidade de armazenamento e flexibilidade também aumenta, à medida que cresce o peso de fontes dependentes das condições meteorológicas. A agência realça que a dependência do clima, das redes e do contexto geopolítico reforça a exposição a choques com impacto direto nos preços e no equilíbrio do mercado. "Num contexto em rápida mudança, os países que apostarem na resiliência e na diversificação estarão melhor preparados para gerir a volatilidade e garantir energia segura e acessível", alerta Fatih Birol. Sistema continua exposto a riscos A transição energética ganhou velocidade em 2025, mas o sistema continua exposto a choques externos. Num ano marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos mercados, a AIE traça um retrato ambivalente: as renováveis avançam como nunca, mas os riscos continuam presentes. O Global Energy Review 2026 mostra que a procura global de energia cresceu 1,3%, abaixo do crescimento registado em 2024, enquanto o consumo de eletricidade voltou a disparar, subindo cerca de 3%, mais do dobro do crescimento da procura de energia. "A procura global de energia continuou a crescer em 2025, num contexto económico e geopolítico complexo, com uma tendência clara: a crescente eletrificação das economias", sublinha o diretor executivo da AIE, Fatih Birol, realçando que "o consumo de eletricidade está a crescer muito mais rápido do que a procura global de energia". O retrato da agência surge num contexto de tensões no Médio Oriente, que têm pressionado os mercados energéticos. A volatilidade recente dos preços - em particular no gás e no petróleo - evidencia a exposição do sistema a choques externos. Em 2025, os preços elevados do gás natural, sobretudo no primeiro semestre, travaram o crescimento da procura global, que subiu apenas cerca de 1%. Ao mesmo tempo, a volatilidade nos mercados petrolíferos, com a guerra no Médio Oriente, reforçou a incerteza quanto à evolução dos preços e da procura. Hugo Neutel hugoneutel@negocios.pt | Patrícia Vicente Rua patriciarua@negocios.pt Hugo Neutel / Vicente Rua