EXECUTIVE DIGEST - EMPRESAS AJUSTAM ESTRATÉGIAS: DO OPTIMISMO À PRUDÊNCIA
2026-04-22 21:03:21

OS TRÊS PRIMEIROS MESES DO ANO MARCAM UMA VIRAGEM NO SECTOR EMPRESARIAL, COM AS EMPRESAS A PASSAREM DE UMA EXPECTATIVA DE CRESCIMENTO PARA UMA ATITUDE MAIS PRUDENTE, AJUSTANDO INVESTIMENTOS E PRIORIDADES FACE A NOVOS DESAFIOS ECONÓMICOS E GEOPOLÍTICOS A transição entre o arranque do ano e o primeiro trimestre de 2026 revela um ajuste pragmático do sector empresarial, marcado pela passagem de uma postura optimista para uma estratégia focada na eficiência operacional. No 46.0 Barómetro da Executive Digest (Fevereiro), as perspectivas para 2026 eram marcadamente positivas e optimistas, com 88% das empresas a preverem crescimento no seu sector. No entanto, os dados do 47.9 Barómetro (Abril) mostram que a realidade do primeiro trimestre trouxe desafios, com 33% das organizações a admitirem um desempenho abaixo das metas inicialmente traçadas, embora a maioria (56%) se mantenha alinhada com as expectativas.Este cenário reflectiu-se directamente nos planos de investimento e nas prioridades estratégicas. Se no anterior inquérito existia uma forte intenção de expansão, com 56% das empresas a planearem aumentar o investimento, o 47º Barómetro indica um recuo para a prudência, com a maioria das empresas (53%) a optar agora pela manutenção do investimento e apenas 39% a manterem a intenção de o aumentar face a 2025. Da mesma forma, a prioridade estratégica para o resto do ano de 2026 passou a ser a “Eficiência operacional e redução de custos” (39%), superando a “Expansão de mercado” (33%) e a “Digitalização e implementação de IA” (22%). ê importante referir que, no final de 2025, o entusiasmo com a Inteligência Artificial era elevado, com 70% das empresas a planearem investir mais ou continuar a investir fortemente nesta tecnologia.No que toca à relação com o Estado, a percepção de um peso excessivo na economia continua a ser um aspecto negativo, embora com uma ligeira variação na intensidade: no 46.0 Barómetro, 78% dos gestores consideravam o peso do Estado elevado ou excessivo, comparando com os 69% registados agora (36% elevado e 33% excessivo). As reformas propostas pelo Governo no final de 2025 tinham uma aceitação de 72%, e o inquérito de Abril confirma esta tendência positiva em áreas específicas, Irão, que afecta 86% das empresas (78% preocupadas com impacto moderado e 8% muito preocupadas com impacto crítico). Esta instabilidade gera uma forte pressão nos custos, com 75% das organizações a anteciparem um aumento global de custos superior a 5%. Os sectores identificados como mais vulneráveis a este impacto são a Energia e Combustíveis (92%), a Logística e Transportes Internacionais (69%) e OS Bens de Consumo e Alimentares (42%).No plano interno, a capacidade de resposta nacional e a eficácia dos planos de recuperação para mitigar os impactos das tempestades que afectaram Portugal nos primeiros meses do ano são avaliadas com cepticismo pelos gestores. A maioria dos inquiridos (44%) classifica a resposta como apenas “Moderada”, enquanto 22% a consideram “Insuficiente”. Em contraste, apenas uma minoria avalia a actuação de forma favorável: 31% descrevem-na como “Positiva” e apenas 3% como “Muito Positiva”. Estes resultados evidenciam que, para o tecido empresarial, existe uma necessidade clara de reforçar a resiliência e de melhorar a eficácia das medidas de mitigação perante fenómenos climáticos extremos.A conclusão final do 47.º Barómetro revela um ajuste pragmático e cauteloso das empresas portuguesas, que transitaram de um optimismo expansionista no planeamento para uma estratégia de resiliência e eficiência operacional na execução do ano de 2026. Esta mudança assenta em três pilares fundamentais: o choque entre expectativa e realidade, a reorientação de prioridades e a exigência de reformas e a necessidade de reforçar a resiliência. Embora as empresas mantenham uma visão positiva sobre reformas específicas, como a laboral (com 72% de aprovação), existe uma fadiga crescente relativamente ao peso do Estado e à sua capacidade de resposta a crises.VITOR RIBEIRINHO SENIOR PARTNER/CEO KPMG PORTUGALA preocupação crescente em torno do conflito no Médio Oriente surge como um dos principais destaques desta edição do Barómetro e uma das razões para a diminuição generalizada do optimismo dos inquiridos. Uma larga maioria dos participantes (78%) manifesta receio quanto ao impacto directo ou indirecto da tensão no Irão sobre a actividade das suas empresas. Ainda assim, mantém-se a percepção de que, neste momento, os efeitos negativos ainda podem ser geridos, apesar de quase metade das organizações (47%) anteciparem um aumento entre 5% e 10% nos seus custos operacionais devido às implicações deste cenário geopolitico. Apesar do contexto global adverso, o fecho do primeiro trimestre do ano traz sinais de estabilidade. Mais de metade das empresas (56%) afirma estar alinhada com as metas definidas para 2026, fruto de níveis de resiliência e de planeamento do nosso tecido empresarial. Se olharmos em exclusivo para o panorama interno, o optimismo aumenta. Nesta percepção destacam-se os sinais positivos das empresas relativamente à proposta do Governo de nova legislação laboral, com a maioria dos inquiridos (67%) a considerar que poderá reforçar a competitividade e melhorar a gestão dos recursos humanos. Apesar destas condicionantes, mais de metade das empresas (53%) pretende manter o nível de investimento face ao ano passado. Recordo que não há muito tempo, o Barómetro mostrava uma tendência crescente de investimento das empresas, algo que não acontece neste momento. Para o próximo trimestre, e tendo em conta a conjuntura global, a principal prioridade estratégica das organizações concentra-se na eficiência operacional e redução de custos. Num momento em que a incerteza parece ser uma constante do tecido económico global, as empresas estão cada vez mais a preparar as suas estruturas para resistir e não reagir às crises. LUÌS RIBEIROADMINISTRADOR NOVOBANCOOs resultados deste último Barómetro abordam, pela primeira vez, os impactos das cheias/tempestades e da guerra no Médio Oriente. e verdade que estes choques apanharam a economia portuguesa num momento relativamente favorável, exibindo excedentes nas contas externas e públicas, crescimento acima da média europeia e condições de financiamento favoráveis (com avaliações mais positivas das agências de rating). Mas é inegável que eles contribuem para uma deterioração do outlook, trazendo novos desafios para as empresas e famílias. Os sinais de menor crescimento e maior inflação começam já a ser visíveis. O Banco de Portugal reviu em baixa as suas previsões de crescimento, de 2.3% para 1.8% em 2026. De acordo com o Barómetro deste mês, 78% dos inquiridos mostram-se preocupados com os impactos do conflito no Irão ao nível dos custos e das cadeias de abastecimento (embora vejam esses impactos como "geriveis"). Dois terços antecipam um aumento global dos custos entre 5% e 20%. Esta pressão já se começou a fazer sentir ao nível dos indicadores de inflação, quer em Portugal quer no conjunto da Zona Euro, neste caso fazendo perspectivar possíveis aumentos dos juros de referência na segunda metade do ano. Um dos principais factores penalizadores do outlook será o aumento da incerteza, que também já é visível: desde o Barómetro de Fevereiro, a percentagem das empresas inquiridas planeando aumentar o investimento reduziu-se de 56% para 39%. â “eficiência operacional” e a “redução de custos” aparecem, assim, referidas como as principais prioridades estratégicas das empresas. ? primeira referência é particularmente relevante. Num contexto económico e geopolítico em que a volatilidade e a imprevisibilidade parecem ser o novo estado “normal”, as empresas e OS Governos tenderão a eleger como preocupações centrais a segurança (foco nas cadeias de abastecimento, nas capacidades de IT, nos gastos em Defesa, etc...), a autonomia (por exemplo, ao nível da energia) e a capacidade de resistência a choques (incluindo guerras, eventos climáticos, ciberterrorismo, pandemias,..). Os desenvolvimentos recentes são sinais de uma economia (e um Mundo) em mudança. e fundamental que as empresas consigam ver nessa mudança não apenas dificuldades, mas também oportunidades de investimento, de negócio e de crescimento. TERESA BRANTUAS CEO ALLIANZ PORTUGALAs prioridades estratégicas identificadas para os restantes trimestres de 2026 reflectem uma mudança clara da agenda. A eficiência operacional e a redução de custos surgem como a principal prioridade, sinalizando que o foco das organizações está agora na protecção de margens e na sustentabilidade do desempenho num contexto mais exigente. à expansão de mercado e o crescimento económico mantêm-se como eixos relevantes, mas de forma mais selectiva e pragmática, subordinados à capacidade de execução e ao retorno do capital investido. A ambição não desaparece, mas é calibrada por uma leitura mais realista do contexto macroeconómicoe e o geopolítico. A digitalização e a implementação de Inteligência Artificial assumem um papel estruturante enquanto alavancas de produtividade e eficiência, deixando o plano conceptual e passando a parte integrante da estratégia a curto prazo. O foco desloca-se para a aplicação prática e para impactos mensuraveis no desempenho operacional. Em contraste, temas como sustentabilidade e retenção de talento surgem com menor peso directo na hierarquia imediata de prioridades, não por perda de relevância estratégica, mas porque são cada vez mais entendidos como dimensões transversais, integradas nas decisões de eficiência, crescimento e transformação tecnológica. O sucesso em 2026 dependerá menos de novas estratégias e mais da capacidade e rapidez na adaptação e resiliência das organizações. RAUL NETOCEO RANDSTAD PORTUGALOs resultados do 47.º Barómetro refletem o estado de instabilidade e incerteza geopolítica em que vivemos. E 78% dos gestores das organizações manifestam-se preocupados, ainda que capazes de gerir a realidade atual. E se 56% das empresas teve um crescimento alinhado com as expectativas, não é despiciente que 33% das empresas ficaram abaixo das metas no primeiro trimestre. Por outro lado, a expectativa de incremento de custos, com 72% a esperar aumentos entre os 5% e OS 20%, motiva a opção de 610% em não aumentar o nível de investimentos, e de 39% elegerem a eficiência operacional e a redução de custos como a sua prioridade estratégica. Contudo, há um aspecto que considero relevante e até preocupante. â “retenção de talento” teve 0% de respostas como prioridade estratégica para o resto do ano, e apenas 8% a consideram uma reforma urgente para o país. Isto significa que legitimamente há factores exógenos que requerem ações imediatas de curto prazo, mas corremos o risco de asfixiar o motor da economia real a médio e longo prazo. Como referi recentemente, a verdadeira liderança exige gerir tensões permanentes: procurar a eficiência máxima, mas principalmente manter a relevância do talento no centro das decisões. é um sinal animador que 67% dos líderes encarem a nova legislação laboral como um passo positivo para a competitividade. Mas a lei, por si só, não motiva nem retém equipas. Precisamos, sem dúvida, de um Estado que priorize a desburocratização (56%), mas as empresas não podem abdicar do seu pele essencial. A verdadeira eficiência só se alcança com líderes capazes de aliar o rigor financeiro à valorização humana. Sem talento, qualquer redução de custos será apenas uma vitória a curto prazo. LUÌS LOPES CEO VODAFONE PORTUGALPerante a incerta evolução dos conflitos no Médio Oriente, não surpreende que a maioria dos empresários (78%) se manifeste, neste barómetro, muito preocupada com o seu impacto. Quase todos (92%) prevêem manter ou aumentar o investimento face a 2025, também pela necessidade de resposta aos aumentos dos custos que já antevêem, sobretudo os mais ligados ao preço do petróleo (energia, transportes e matérias-primas). Esperado, mas não menos preocupante, é também o impacto destas subidas de preços nos bens de consumo alimentares, aumentando ainda mais a pressão financeira sobre as famílias. Reconfirmada a percepção de uma presença excessiva do Estado na economia, e com os empresários a insistirem na desburocratização e redução da carga fiscal como áreas prioritárias, note-se que a mediática reforma laboral não está no top 5 das que são consideradas mais urgentes. Ainda assim, dois terços consideram a proposta do Governo positiva para a competitividade da sua empresa. Sublinho ainda que mais de um quinto dos respondentes vê a digitalização e implementação de IA como principal aposta nos restantes três trimestres de 2026, opção que pode ajudar a realizar as duas maiores prioridades apontadas pelas empresas: a eficiência operacional e a expansão de mercado/crescimento CARLA MARQUES CEO INTELCIA PORTUGALOs dados mostram empresas conscientes da pressão que o actual contexto económico e geopolítico está a gerar, mas ainda pouco consequentes na forma como Ihe respondem. Se, por um lado, 78% antecipam impactos relevantes, nomeadamente ao nível dos custos de energiae e logística, por outro, a maioria mantém ou até reforça o investimento. Isto revela ambição, mas também evidencia que a transformação estrutural continua, em muitos casos, por concretizar. Quando analisamos as prioridades das organizações, a eficiência operacional surge em primeiro lugar, mas apenas uma minoria coloca a digitalização e a inteligência artificial no centro da estratégia, e menos ainda a encara como uma reforma estrutural. Há aqui um desalinhamento claro entre o que se reconhece como necessário e aquilo que efectivamente se está a fazer. ?o mesmo tempo, persiste um foco significativo em factores externos, como a carga fiscal ou a desburocratização. São temas relevantes, mas não podem servir de justificação para adiar mudanças internas que são hoje inadiaveis. O verdadeiro desafio está dentro das organizações. Está na capacidade de repensar modelos operacionais, integrar tecnologia, reforçar competências e ganhar agilidade. Num contexto como o actual, não basta reagir à pressão, é essencial transformá-la em capacidade de adaptação, diferenciação e crescimento sustentável. NELSON PIRES GENERAL MANAGER JABA RECORDATIOs resultados do 47.º Barómetro da Executive Digest são inequívocos: a desburocratização (56%) é a prioridade absoluta para os gestores e decisores portugueses. Este dado não é apenas uma estatística: é um sintoma de um país onde a maquina pública, em vez de lubrificar as engrenagens da economia, funciona frequentemente como um travão à inovação e ao investimento. Dados recentes do INE (2024/2025) confirmam esta percepção das empresas: o indicador global de custos de contexto atingiu 3,14 pontos (numa escala de 1 a 5), o valor mais elevado da última década. Na opinião das empresas, agravado pela carga administrativa, licenciamentos e burocracia assim como pela morosidade judicial. a reforma do Estado não pode continuar a ser um conceito abstracto ou uma promessa eleitoral cíclica. Quando 36% dos inquiridos apontam a redução do IRS e 33% o Crescimento Económico como pilares urgentes, a mensagem é clara: “o Estado precisa de sair da frente”. A asfixia fiscal sobre a classe média e as empresas, combinada com uma Justiça lenta (28%) e processos administrativos labirínticos, cria um ecossistema hostil à competitividade. é também sintomático que a Habitação (33%) surja no topo das preocupações. ? mercado reconhece que o custo de vida é hoje um entrave à mobilidade e à dignidade social. Em suma, o país não pede apenas menos impostos; pede um Estado mais ágil, digital e, acima de tudo, eficiente. Portugal não pode continuar a discutir o acessório enquanto a estrutura da sua administração pública impede o essencial: um crescimento robusto que retenha talento e gere prosperidade real. A reforma é, hoje, uma questão de sobrevivência económica. VASCO ANTUNES PEREIRAPRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO E CEO GRUPO LUSÍADAS SAUDEOs resultados deste 47.º Barómetro da Executive Digest revelam um tecido empresarial resiliente, embora assente num maior nível de exigência operacional e cada vez mais pressionado por um contexto externo incerto. Apesar de 56% das empresas reportarem um desempenho alinhado com as expectativas no arranque do ano, a percentagem ainda significativa de organizações abaixo do esperado (33%) confirma um ambiente económico exigente, onde a previsibilidade é cada vez mais limitada. as prioridades estratégicas reflectem esta realidade: a eficiência e a expansão afirmam-se como vectores críticos, acompanhados por um investimento contínuo na digitalização. Mais do que expandir, as empresas são hoje chamadas a crescer com maior disciplina, num contexto de menor margem de erro, determinante para a sua competitividade no curto e no médio prazo. No sector da saúde, estes desafios assumem uma natureza particularmente estrutural. a pressão sobre os custos, a necessidade de investimento contínuo e a escassez de recursos não são conjunturais e exigem uma resposta integrada. Neste contexto, a eficiência, a inovação e uma maior articulação entre o público e o privado continuam determinantes para garantir quer o acesso, quer a sustentabilidade do sistema. é igualmente evidente que as empresas esperam mais do enquadramento público. A simplificação administrativa e a redução da carga fiscal surgem como as principais prioridades, num momento em que o peso do Estado continua a ser percepcionado como um factor de constrangimento à actividade económica. O contexto geopolítico reforça esta pressão. A maioria dos inquiridos antecipa impactos moderados, sobretudo ao nível dos custos de energia e da logística, o que exige maior capacidade de adaptação e uma abordagem mais proactiva à gestão do risco.