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JOSÉ TEIXEIRA “A CULTURA PODE SALVAR A ECONOMIA”

Visão

2026-04-23 08:04:03

JOSr TEIXEIRA UM RABALHADOR QUE OBEDECE P UM CAOS NUMA EMPRESA “As cidades hoje estão cheias de muros”, diz o presidente do Grupo DST nesta entrevista à VISÃO. Quebremos pois os muros, começando por um grande espaço artístico que nasceu em Braga, num complexo industrial que se encheu de arte contemporânea. O Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea DST quer ser um elogio ao trabalhador José Teixeira, 60 anos, presidente do grupo de engenharia e construção DST, gosta da arte que dá trabalho a descascar. “Eu não dou pão com a manteiga a ninguém”, vai dizendo, a propósito das obras que vamos encontrando pelo Muzeu Pensamento e Arte Contemporânea DST, que será inaugurado no dia 25 de abril. A exposição de arranque, que é possível visitar até 23 de outubro de 2027, tem logo este título provocador: Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível, lema dos movimentos estudantis do Maio de 68. “Eu não quero coisas simples, coisas óbvias, já descascadas. Tenho aqui na empresa aulas de Filosofia há sete anos, todas as semanas, onde estudamos os autores mais complexos, os fenomenologistas, a estética filosófica de Adorno, do Wittgenstein, e todos os trabalhadores entendem. As pessoas gostam de coisas difíceis, é um desafio.com a arte é a mesma coisa”, continua, enlevado. Instalado no antigo Tribunal Judicial de Braga, no centro histórico da cidade, O Muzeu foi projetado pelo arquiteto José Carvalho Araújo. Em quatro pisos distribui-se uma coleção com mais de 1500 obras de 240 artistas nacionais e internacionais, entre os quais Pablo Picasso, Anselm Kiefer, Paula Rego, Pedro Cabrita Reis e Julião Sarmento. A arquitetura respeita a estética industrial e mantém fidelidade ao ambiente fabril, em harmonia com o pensamento filosófico da DST. Traz O espírito do campus para a cidade, numa continuidade discreta e silenciosa, que permite às obras “respirar”. O espaço privilegia o silêncio e a contempla-ção, integrando património material e imaterial da cidade: muralha medieval, poço antigo e elementos históricos. As portas, com intervenção em bronze de José Pedro Croft, evocam memórias. Há referências à Catedral de Florença e uma forte coerência arquitetónica. O percurso faz-se entre a Praça do Município (entrada) e O Campo da Vinha (saída). Helena Mendes Pereira, diretora e curadora do Muzeu, explica-nos a organização do espaço, que começa no piso ,1 sob o tema Elogio ao Trabalho. Aqui se estabelece ligação direta com o campus da DST, numa relação entre arte e indústria e valorização do trabalho como elemento central. No piso 0, a Praça evoca uma praça pública, reforçando a ideia de cruzamento de pessoas, como num espaço urbano. E inclui pátios que dialogam com o quotidiano como as varandas com roupa pendurada Já o piso 1, Corpo, Poesia e Protesto, é politicamente marcado, local onde se abordam temas como feminismo, neocolonialismo, identidade e protesto. Inclui artistas como Pablo Picasso, Nan Goldin, Candida Hõfer, Rui Chafes e Alberto Carneiro. Inclui também o núcleo de artistas fundamentais da coleção, como Alberto Péssimo. O piso 2, Alma da Casa, apresenta peças da coleção pessoal de José Teixeira, e destaca-se uma sala dedicada a Anselm Kiefer, com oito obras. Finalmente, o piso 3, Infinito e Mais Além, tem uma escada de betão que se prolonga simbolicamente para o infinito, conduzindo a um espaço de reflexão. Aí encontra-se um auditório com 150 lugares. As janelas oferecem vista sobre Braga, reforçando a ligação entre museu e comunidade. O projeto surge da intenção de devolver riqueza à cidade onde nasceu Domingos da Silva Teixeira, pai de José Teixeira e fundador do Grupo DST. Entre obra e coleção, a empresa-mãe investiu cerca de 40 milhões de euros ôno espaço. “Se, daqui a 50 anos, perguntarem quem foram estes tipos? , quero que pensem que fomos os que acreditavam na importância das artes, da cultura, da filosofia e das humanidades para o desenvolvimento da economia”, diz José Teixeira. Afinal, estamos numa empresa em tudo singular, onde se pratica “uma espécie de capitalismo popular”, como lhe chama o presidente, com sócios,trabalhadores. No campus da DST, com cerca de 100 hectares, encontram,se pavilhões projetados por arquitetos de renome, como Siza Vieira, Souto de Moura e Norman Foster. O espaço é atravessado por jardins com esculturas, como O Memorial ao Trabalho Infantil, de José Pedro Croft, a capela do arquiteto Nuno Capa, Son, de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais, uma das últimas peças do americano Ronald Rael e frases de poetas e escritores. Um ambiente de constante inspiração para cerca de três mil trabalhadores, que têm também à sua disposição aulas de Filosofia, idas ao teatro e outros programas culturais. “A Europa precisa de um novo iluminismo, onde a dimensão social tem de ter um outro tipo de beleza, porque não pode haver uns gaps tão grandes entre pobres e ricos, entre salários baixos e muito altos, com relações classistas nas empresas. E eu estou sempre a dizer: nós somos todos filhos de Deus! Isto dá para todos”, afirma José Teixeira. Demos, então, a palavra ao homem que, um dia, sonhou com um “muzeu”. Qual foi o principal impulso que o levou a avançar com a construção deste museu? Eu tenho sempre a ideia kantiana de fazer o que está certo. ê O dever em si, o imperativo categórico. Somos produto do que os nossos trabalhadores produzem, mas também da cidade onde vivemos, da polis. Ou seja, em relação à riqueza que nós vamos construindo, temos duas opções: podemos dividir pelos trabalhadores, dando prémios, ou podemos investir em diversas áreas, no mecenato científico, social, académico. ê uma ideia que está na ética prática do Peter Singer, em que há sempre alguma coisa mais importante do que outra na ideia da maximização do bem comum. Por que razão vamos investir na ópera se está tanta gente a morrer de fome? Porque vamos investir no apoio a um livro de poesia que só vai ter 50 leitores? E porque vamos criar um museu se podemos resolver o problema de habitação para uma série de famílias? Seguindo esse pensamento, nunca haveria uma ópera, nunca haveria um museu, literatura, filosofia, nunca haveria cigarras. Eu quis deixar a minha pegada ligada ao belo e ao poder da beleza na Humanidade. A Humanidade sempre esteve ligada a três eixos: o bem, o belo e a verdade. A beleza é homeostática. Aberta a todos, democrática, na ótica do belo que está no olhar de quem vê, sem política de gosto. O lugar desse pensamento é o museu porque tem esse lado de memória. O museu é mais do que isso também. ê evidente que quisemos ir muito mais longe e ter ativismo social, discutir o papel dos museus do ponto de vista da transformação, a essa possibilidade que o museu ônos dá para registarmos memória e sermos interventivos, devolvendo à sociedade aquilo que à custa da sociedade nós temos. Posso sempre dizer: pago os meus impostos, portanto, não tenho mais nada a fazer. Mas eu entendo que há um contrato, para lá desse contrato com o Estado, que é o contrato com a comunidade. Não está escrito, mas vem dessa ideia de que somos todos filhos de Deus. Qual a principal missão cultural,filosófica do museu? Queremos que a arte seja instrumental, que mexa com as pessoas. Não sou da apologia da hermenêutica da arte, do conteúdo, que a arte tem de ser interpretada. A arte tem de ser sentida. Tem de ser olhada com um ônovo olhar e esse ônovo olhar e esse novo sentir é transformacional do ponto de vista individual. Esse é o papel que o museu tem. ê como que me sacio no museu, me sacio na beleza. E depois, saciado, divido com os outros. Qual deve ser o papel dos empresários na construção cultural de uma cidade? E qual é a relação que, nesse campo, deve ter com o Estado? Nem tudo compete ao Estado ôno sentido de acharmos que, por pagarmos impostos, passa a ser tudo responsabilidade do Estado. Embora eu seja um adepto da existência do Estado como regulador, com a sua presença na Saúde, na Educação, em estruturas absolutamente centrais para o reequilíbrio. Não sou nada adepto do neoli-beralismo e de deixar aos mercados a regulação porque, quando os mercados falham, vai tudo atrás do Estado. Ou então fica tudo à porta do hospital e à porta da escola. Não tem dinheiro, não entra. Ao mesmo tempo, o facto de nós, empresários, pagarmos impostos, não õnos desresponsabiliza de sermos uma parte do coletivo e da comunidade. Os empresários são muito poucos; o grosso são os trabalhadores. Temos de ter a compreensão de viver numa comunidade onde a ideia da filosofia original que õnos persegue é a de uma vida boa para todos. o museu ajuda,nos a proporcionar isso. é evidente que não vamos pescar toda a gente ao mesmo tempo. O museu é também uma espécie de rede de pesca em que nós escolhemos o fio, a cortiça, o espaçamento para pescar pescadores, usando aqui uma ideia do padre António Vieira. Para onde é que quero pescar pescadores? Para o belo, para a verdade, para a comunidade, o entendimento, o humanismo, a compreensão, a compaixão. Usando uma ideia bíblica: põe-te nos sapatos dos outros. Se isto estiver sempre em brasa, não nos sai da memória. Porque a biologia , e a economia tem uma determinada biologia , é muito egoísta, utilitária e protecionista. Temos de ter mecanismos para contrariar a ordem biológica, porque a ordem biológica nos leva para um individualismo que é perigoso para a sociedade. Este é um caminho para aproximar Braga da cidade cosmopolita que idealizou? Eu digo sempre que um trabalhador culto é um trabalhador muito mais competitivo. E O António Lobo Antunes tem essa frase célebre de que um povo que lê nunca será um povo de escravos. Essa ideia do escravo õno trabalho pode ser traduzida num trabalhador obediente. Um trabalhador que obedece é o caos numa empresa. Eu quero um trabalhador livre. Jacques Ranciére tem um livro absolutamente extraordinário, que eu prego aqui muito na DST, que é o Espectador Emancipado. Eu quero pessoas emancipadas, trabalhadores com espírito crítico. Como é que isso se consegue? Com cultura, literatura, leitura, poesia, teatro. Ainda ontem tivemos aqui a noite de José Saramago para os nossos trabalhadores, com um espetáculo. Temos, õno Teatro Circo de Braga, há 20 anos, um camarote com 40 lugares para os nossos trabalhadores. Trabalhamos muito a cultura como um instrumento de liberdade e de competitividade e produtividade. A cidade fica muito mais cosmopolita porque atrai mais gente. o museu vai ter esse papel porque uma cidade desta dimensão, que é a terceira cidade do País, não tinha um museu de arte contemporânea. Como não tem, por exemplo, uma escola de artes. E sem essas tribos das artes, sem esse frenesim, essa inquietação... A Universidade do Minho tem um polo em Guimarães e outro polo em Braga. Guimarães tem o teatro, as belas-artes, o desenho, a arquitetura. Temos esse espaço por preencher em Braga. E é um projeto que um dia, se Deus quiser, ainda pegaremos nele, que é criar um espaço das artes ligado ao cinema, à fotografia e à televisão, por exemplo. Uma cidade cosmopolita é uma cidade muito mais competitiva, muito mais harmoniosa e tolerante, que encaixa pessoas de todos os lados. O cosmopolitismo tem uma cosmovisão associada, tira-nos do chão e põe-nos numa posição de ver com um novo olhar. No chão não se consegue ver novas todas as coisas. A cidade já mudou bastante com a chegada de muitos imigrantes. Essa diversidade de culturas e origens diferentes é muito estimulante. A economia fica estimulada com novas formas de ver, de fazer e de pensar. A frase escolhida para a exposição inaugural do museu, Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível, define o posicionamento ideológico do museu? Quando Vier a Primavera, de Alberto Caeiro, tem um verso que diz: “A realidade não precisa de mim.” A ideia de “sejamos realistas” é esse desafio: olhamos a realidade, ela existe, quer tu queiras quer não. Tu não a mudas por não gostares dela. Nós hoje vivemos numa realidade que é de grande tensão, de grande desequilíbrio humanista, no sentido da pobreza e da riqueza. A cidade tem zonas de pobres, zonas de ricos, as cidades estão cheias de muros, que podem ser até diáfanos, quase transparentes, mas eles existem. São muros sociais que geram quebras da relação de uns com Os outros. Esse trabalho tem de ser feito, o de quebrar esses muros. Tem de se questionar o papel da arquitetura. Um arquiteto não pode deixar de ter o interesse que tem no desenho quando a casa é para um pobre. Pelo contrário, deve ter um cuidado muito maior se a casa é para um pobre e ter em conta que a beleza tem de ser acessível a todos para depois haver esse processo transformacional. Como é que a arquitetura de José Carvalho Araújo contribui para a experiência da coleção? O Zé é da minha geração e andámos a estudar juntos õno ano propedêutico. O Jean Nouvel, que é um dos Pritzkers, identificou os cinco arquitetos mais importantes portugueses e O José Carvalho Araújo é um deles. Gosto muito do desenho dele e, por me conhecer bem, deixa-me participar na discussão do desenho sem perder a sua autoria. E diferente desenhar aquele museu para a DST de desenhar para outra figura qualquer. Tem de haver aqui uma espécie de psicanálise, digamos assim, um encontro eu gosto das coisas ascéticas, limpas, com harmonia. Este arquiteto dá,me equilíbrio. E além de desenhar muito bem, é também um designer. A partir das pequenas coisas, ele faz grandes coisas. Ele entendeu a nossa história, conhece O õnosso ethos, a nossa natureza. Neste campus, hoje, além do José Carvalho Araújo, temos aqui o Norman Foster, o Souto Moura, temos O Siza, meu Deus! Quando ele chega aqui... Não podemos cair na ideia da banalidade do bem, espantem-se! A arte é instrumental como a flosofia, como a poesia, são instrumentais õno espanto. Temos aqui um espaço chamado Tudo é Teatro porque o teatro é isso, precisa de democracia. Falou dos vários muros transparentes... Tem ali uma peça interessante, que veio dos Estados Unidos, alusiva ao muro na fronteira com o México... O que não se consegue dominar, sequestrar ou colonizar é a imaginação. Um muro foi feito entre O México e OS Estados Unidos e, de repente, pensou-se: e se colocássemos um baloiço entre os muros com os miúdos mexicanos e americanos a brincar? o que a arte está a dizer? Podem construir os muros que quiserem, mas não nos separam. Nenhum muro separa o pensamento. Em que sentido o museu pretende influenciar e não ser uma instituição neutra? Irrita,me muito a neutralidade. A neutralidade moral ou a dita fadiga da compaixão. A inação do “ eu não posso ajudar toda a gente, por isso deixem,me aqui quieto, sentado na cadeira”. A neutralidade moral é não arriscar, é a cobardia pura das pessoas que são funambulistas, mas com o fio junto ao chão. Só podem tropeçar nele, mas nunca correm o risco de cair. Eu interesso,me por tomar partido, pela política em si e pela ideia da àgora, que é um espaço de encontro aqui õno museu. O espaço da polis é para todos nós ocuparmos e não ficarmos no sofá a colocar um like e a dizer que já está, já fiz, já tomei a minha posição política com um like no sofá. Não. Eu tenho de falar com os meus vizinhos, pertencer ao condomínio, a uma associação, às coisas da paróquia, olhar para outras associações filarmónicas, da música, do teatro, da cultura, da política, do desporto.. Tomem posição, subam ao palco, sejam livres. Como é que se elege bem? Quanto mais se conhecer. Vamos ter um ciclo de política por sentirmos que a política é muito maltratada. O ciclo de política no museu tem como missão, no início, discutir a Constituição, com coordenação de José Pacheco Pereira. Vamos falar da lei fundadora e ver o que é que ela significa. Quanto mais informados, com mais conhecimento e maior profundidade, melhor elegemos. Isso também é uma função social. Eu não quero ser o educador do povo, mas quero colocar questões para que a curiosidade seja despertada. Qual é a sua relação com a obra do escultor alemão Anselm Kiefer, que escolheu para o espaço permanente no museu? Conheço a sua obra há muitos anos, mas não tinha hipótese de comprar obras de Kiefer, que é hoje dos artistas vivos mais caros. Mas escolhi-o porque , além dessa ideia de o belo estar no olhar quem vê e o meu olhar sintoniza-se muito com a obra dele , é um artista que arrisca muito e provoca. A arte dele dá-se à contemplação, que é diferente de ser interpretada. Depois... Bom, eu quis abrir um museu em Braga com uma dimensão internacional. Ora, é fazendo um bocadinho o que O Guggenheim de Bilbau fez ao convidar O Richard Serra, com aquela obra absolutamente extraordinária em aço, que provoca em nós a interrogação: como é que é possível? Acaba por ser uma âncora, que faz um efeito de arrastamento, pescando pescadores que venham ver O Kiefer em Braga. Portanto, ele serve aqui de tração aos outros artistas, um isco, um engodo que leva as pessoas a verem os outros artistas também. Alguns até emergentes que fazem parte da minha coleção. Há aqui, por exemplo, o Alberto Péssimo, um homem que influenciou muito a minha vida e é até meu padrinho de casamento. Temos aqui cinco obras dele e só o Kiefer tem mais. Estas obras do Kiefer são da sua coleção? Sim, a coleção é, em grande parte, minha, com algumas peças da DST também. O campus da DSTjá tem obras de arte e tem a grande arquitetura, a literatura, a filosofia, uma escola.. O que é a escola DST? E uma síntese dos mínimos do liceu de Aristóteles, da academia de Platão, do pórtico dos estoicos, do jardim dos epicuristas, da escola de Frankfurt de Habermas e de Theodor Adorno, de Harvard, e mesmo da austríaca do Friedrich Hayek.. Vou buscar pontinhas, que é uma espécie de Sermão da Montanha, a ética dos mínimos. E dessa reunião das virtudes que cada escola tem que fazemos a escola DST. E isso faz parte daquilo que eu hoje denomino pelo efeito DST. Não teme que a arte difícil e provocadora do Kiefer também possa ter o efeito de afastar o público? Essa é uma boa questão com a qual convivo há muitos anos aqui na empresa. Eu não dou pão com a manteiga a ninguém, não dou coisas fáceis. Tenho aqui aulas de Filosofia há sete anos, todas as semanas, onde estudamos os autores mais compleXOS, os fenomenologistas, a estética filosófica de Adorno, que tem um dos livros mais complicados e difíceis; do Wittgenstein, onde estudámos a linguagem, e todos os trabalhadores entendem. As pessoas gostam de coisas difíceis, é um desafio.com a arte é a mesma coisa. Eu não quero coisas simples, coisas óbvias, já descascadas. Eu quero coisas que precisam de ser despidas e esse é um trabalho que implica uma sensualidade que cada um tem e que pode exercitar. Qual a obra ou o artista que mudou a sua forma de pensar? Kandinsky. Ele deu uma aula em 1931, na véspera de fechar a Bauhaus, em que coloca um desafio aos alunos: ouçam a Nona Sinfonia. Porque eu procuro o invisível na arte dele. E O convite ao invisível. O que conta é a metafísica, o para lá da física, do que ouvimos, para lá do que vemos. Se nós tivermos esse olhar, que é um olhar novo, sobre coisas que já existem. E também escolho O Alberto Péssimo porque eu nunca prescindo do início. Comecei a colecionar serigrafias e litografias que eram oferecidas por artistas que trabalhavam aqui com a Companhia de Teatro de Braga. Por isso, hoje em dia, todos os anos edito duas litografias e serigrafias de artistas que convido e dou a todos os trabalhadores. Para poderem também ter uma coleção de arte como eu tinha. Depois, a primeira obra que tive foi oferecida por Péssimo no meu casamento e a seguir uma obra que eu troquei por um portão há 40 anos. Esse início conta. Nunca devemos esquecer,nos do início. Como começou o seu gosto pela arte? Na realidade, o início de tudo foi a carrinha da Gulbenkian, com a leitura, que me criou em liberdade, e a entrada nos escuteiros, que me deu acesso ao teatro. Depois, a relação com o teatro deu-me a proximidade com os artistas. Sempre tive, do ponto de vista biológico, uma necessida,de do equilíbrio, e sou muito sensível âs simetrias. Isso é uma estética. As ligações químicas e elétricas de alguns neurotransmissores fazem,se com a beleza, com O Sexo, com o álcool e com a droga. São as mesmas ligações. Os neurotransmissores da felicidade ligam-se com a possibilidade de ouvir um bom poema, de ver uma obra de arte. e a biologia a funcionar. A arte tem esse papel e essa beleza, se quiser. Por isso é que ela já existia nas cavernas. Alguma coisa se queria mimetizar. O risco na arte é comparável ao risco nos negócios ou são duas coisas completamente diferentes? Na arte, o risco de não acertar não tem grandes danos. Já na economia, quando eu sou utilitarista e não divido, esse risco faz com que os trabalhadores não se colem em mim, não se gera empatia, que não haja aqui uma comunidade. E a economia, por vezes, parece mesmo um hipódromo onde estamos a correr uns contra os outros. A meritocracia em si arrasta,nos muito para a possibilidade de cairmos em tentação de sermos individualistas. Mas o risco para quem vê a arte é apenas dirigir-se a um museu ou a uma galeria e dizer que não gosta de nada disto. De que modo um museu consegue ainda ser influente e contribuir para o desenvolvimento do debate e do pensamento? Estamos nesta sociedade polarizada e centrada em redes sociais... Este é um museu de pensamento e de arte contemporânea Queremos ter essa oportunidade de, neste mundo polarizado, nestas cidades cheias de fraturas e de cicatrizes, a partir da discussão, a partir da conversa, chegar à ética dos mínimos, pegar num ponto de um e de outro e fazer uma síntese desta dialética. Poder promover uma grande conversação, a procura do entendimento e da entreajuda. A ideia da vizinhança está a terminar. O museu terá esse papel também de provocação e de baixar a temperatura, baixar o cortisol do confronto, da litigância, da polarização. A polarização é um refúgio que os radicais têm para não discutirem, para acabarem com a conversa. São os grandes dogmas, mas nem sequer têm um pensamento flosófico estruturado sobre o dogma. e pura e simplesmente a irritação, a cólera, a ira. Vamos fazer aqui um exercício de respiração, de silêncio, em que não estamos à procura daquilo que vou responder. Isso é uma coisa que me seduz, mas sei que muita desta semente vai cair no meio das pedras e vai ser pisada. Mas não devemos desistir de fazer o que está certo. Como fazer um museu físico, não digital. Onde devemos estar presentes, uns com os outros. A fisicalidade interessa-me muito. No museu virtual não uso todos os sentidos. Se tivermos de escolher entre crescimento económico e desenvolvimento cultural, a qual é que daria prioridade? O desenvolvimento cultural permite o crescimento económico. Já o crescimento económico sem desenvolvimento cultural não é possível. e uma questão aritmética, não funciona. Se não tivermos a formação e o conhecimento para operar uma máquina, a máquina não serve para nada. Continua a acreditar que a cultura pode salvar a economia ou essa ideia tornou-se mais difícil de defender? Pelo contrário. Cada vez acredito mais que a cultura pode salvar a economia porque torna os trabalhadores mais competitivos, torna mais homeostática a relação social, diminui o classismo, ônos torna muito mais irmãos uns dos outros. Há aqui uma possibilidade que a cultura ainda há de cumprir Há um verso do Tolentino de Mendonça, ôno poema Sexta-feira Santa: “Deus ainda não terminou.” v visao@visao.pt As ideias do empresário que criou um museu de arte contemporânea em Braga 66 Irrita-me muito a neutralidade. A inação do “eu não posso ajudar toda a gente, por isso deixem-me aqui quieto, sentado na cadeira” V Mais do que fachada A saída do novíssimo Muzeu, em Braga, e uma obra do artista londrino Julian Opie Corpo, poesia e protesto ? tema escolhido para o piso 1, onde se incluem obras de Alberto Péssimo; e Helena Mendes Pereira, diretora e curadora do museu DST: uma empresa singular é um dos maiores grupos de construção civil do País e aposta forte nas áreas culturais DST é a sigla do nome do fundador: Domingos da Silva Teixeira, que começou um império a partir da atividade da extração de inertes de uma pedreira. E foi, literalmente, a partir pedra que o grupo chegou aos dias de hoje como uma das grandes construtoras nacionais, distinguindo-se há muito como uma empresa singular no que diz respeito à relação entre sócios e trabalhadores. Domingos da Silva Teixeira forneceu materiais para a construção do Estádio 1.0 de Maio e pavimentou muitos passeios em Braga até chegar à constituição da Domingos da Silva Teixeira & Filhos, Lda., em 1984. ã pedra e ao betão juntar-se-ia a literatura, em 1995, com a criação do Grande Prémio de Literatura DST. ? negócio cresceu, virou holding, juntaram-se outras áreas como a metalomecânica e criou-se o campus da DST em Pitancinhos, Braga, um espaço com mais de 100 hectares onde, ao longo dos anos, se apostou nas artes. Inclui três pavilhões projetados por arquitetos de renome, como Siza Vieira, Souto de Moura e Norman Foster, além de ser atravessado por jardins com esculturas, como O Memorial ao Trabalho Infantil, de José Pedro Croft, ou a capela do arquiteto Nuno Capa. é um ambiente inspirador para os cerca de três mil trabalhadores, que têm acesso também a uma “escola de pensamento”, onde são ministradas aulas de Filosofia ou Neurociência, por exemplo. Hoje em dia, o grupo DST tem empresas em áreas de negócio muito para lá da engenharia e da construção, operando em setores como o ambiente, as telecomunicações a mobilidade e o imobiliário. Liderado por José Teixeira, filho de Domingos, continua a distinguir-se como mecenas artístico, abrindo agora um grande museu de arte contemporânea em Braga. Eu não dou pão com a manteiga a ninguém.com a arte é a mesma coisa. Eu não quero coisas simples, coisas óbvias, já descascadas Porque não eu? José Teixeira refletido num espelho que se encontra na sede da DST 66 A cultura pode salvar a economia porque torna mais homeostática a relação social, diminui o classismo, torna,nos muito mais irmãos uns dos outros Entre mundos Obras de vários artistas, incluindo Pedro Cabrita Reis, Ana Vidigal e Vhils âncora Oito obras do escultor alemão Anselm Kiefer representam um grande chamativo e uma tomada de posição LUCÍLIA MONTEIRO