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RIXA TENTA SER O QUE WHITE LOTUS NÃO FOI CAPAZ

Expresso Online

2026-04-23 21:05:52

Boa tarde, Que os muitos ricos são uma obsessão do streaming parece-me cada vez mais evidente, só não consigo perceber se é raiva dos escritores de séries por ainda não terem um Aston Martin ou se os consideram a melhor matéria-prima para o potencial de conflito. Também pode ser raiva e ressentimento, mas evitemos conclusões precipitadas. Um dos maiores odiadores de ricos dos últimos anos é o raro Mike White, que acertou em cheio na fórmula “White Lotus” (três temporadas na HBO Max), até se espetar na última temporada, que decorre na Tailândia e na qual White se acobardou, não sendo capaz de tratar aquele país asiático de uma certa maneira. Lembremos que, na segunda temporada, há duas prostitutas italianas que andam por ali; já na Tailândia, só os ricos americanos são candidatos ao inferno, os locais são doces como mangas maduras. Em “Rixa”/“Beef” (Netflix, cuja segunda temporada de oito episódios acaba de chegar) há como que uma tentativa de redenção. A série acompanha um casal aparentemente rico (os excelentes Carey Mulligan e Oscar Isaac) que parecem dar-se bem, mas que veremos que se atiram aos respetivos fagotes com imensa facilidade. Infelizmente para eles, outro casal, este de jovens ambiciosos da Geração Z, filma uma altercação e começa um processo de chantagem com repercussões variadas. Direi que os primeiros episódios são rápidos, divertidos e abonados em indecências e que os finais são menos bem conseguidos. Como em “White Lotus”, há sexo, há maluqueira, há muito dinheiro a ir de um lado para o outro, há aparências que é necessário gerir, cheira-se cocaína, tomam-se comprimidos, tudo coisas que os ricos (supostamente) estão sempre a fazer. Há serviçais que fingem ser quem não são e outros ricos infelizes, almas quase penadas, apesar de terem dinheiro para mandar forrar o arco da rua Augusta a diamantes. Para os apreciadores, há um dachshund (um cão salsicha) chamado Burberry, que terá algum destaque, muita Coreia e muitos coreanos , porque as indústrias culturais são pujantes naquele país e a Netflix está pejada de K-dramas e porque o criador da série é coreano-americano. Refira-se que entre os melhores atores estão os coreanos tradutora e professor de ténis, que por ali andam e que se lamenta não tenham tido mais robustez na escrita das suas figuras. A primeira temporada de “Beef” , a palavra é gíria para disputa, conflito, naquele sentido de rivalidade que escala entre vizinhos ou colegas , foi tão surpreendente quanto magnífica. Os limites (até físicos) para onde Lee Sung Jin levou os seus personagens revelam talento, sensibilidade e rasgo, a série é altamente recomendável, tem ótima comédia, venceu oito Emmys e será um petisco para quem ainda não teve a oportunidade de investigar. Na segunda, Lee Sung Jin parece ter-se esquecido de muita motivação e optou por fazer o que tanta gente faz (incluindo em Portugal, através das redes sociais), que é expor a miséria moral que presumem ser um exclusivo dos ambiciosos, dos aparentemente bem-sucedidos, dos ricos. Aqui, em 2026, aponta-se o dedo e, neste território de certezas, todos os que guiam um Porsche 911 são do piorio. Talvez sejam. Mas, falando por mim, conheço muita gente sem Porsche que também não se recomenda, assistindo a “White Lotus” e agora a este “Beef” devo ser o único. Uma vantagem das séries europeias é estarem menos preocupadas em dar lições de moral. Nas americanas-de-plataforma, esse parece ser o único motivo de interesse. Para Sung Jin, a luta de classes e a batalha geracional é para ser levada tão a sério que transformou “Beef” num tempo de antena. Ou então, tal como Mike White, Sung Jin perdeu o toque da subtileza e deixou o ressentimento correr à solta. “Beef”, segunda temporada, de novo inspirado num episódio real a que ao autor assistiu, salva-se porque os atores são extraordinários no origami que lhes é pedido. Vão daqui para ali, fazem isto e aquilo e vão-se transformando, mesmo que o texto seja previsível e muitas vezes preguiçoso, por causa dessa obsessão de castigar quem é dado a bens materiais. Os personagens que não têm a sorte de poder colecionar camisolas originais de Michael Jordan e pisam o risco da decência só sucumbem à trafulhice, porque o capitalismo isto e aquilo e mais aqueloutro. Coitados. O espectador é uma alma bondosa que jamais se veria nas bolandas daquela gente (ficcional). Lee Sung Jin faz questão que todos , talvez com exceção do cão , mereçam algum grau de aversão. Uma personagem diz que é “fácil quando é só viagens, eventos chiques e jantares e zero dramas”, mas a série encarrega-se de dizer, repetir e teimar que não, não é assim, que o dinheiro não traz nenhuma espécie de felicidade, só corrompe. As plataformas como a Netflix são propriedade de empresas e fundos de investimento colossais, geridos e mantidos por gente muito mais rica que os personagens criados nestas oportunidades que o mercado americano permite, incluindo levar todos os atores (e as equipas ) até Seul, para filmar um punhado de minutos. Talvez Mike White e Lee Sung Jin queiram matar o pai, admito que sim. Nos intervalos da sua quest, especulo que tenham sido muito bem pagos para fazer estas séries, com as quais colecionam prémios e, suponho, se sentem as melhores pessoas do mundo, como verificamos quando os vemos a discursar com os prémios que vão recebendo na mão. Sugestão 1 “Mulheres Imperfeitas” (Apple TV +) Poucas coisas são mais frustrantes que pegar numa caneta de que gostamos, olhar a folha em branco e percebermos que o raio da caneta não escreve. Se forem como eu, haverão de insistir, não deitam a caneta fora, resistem na esperança estúpida de que um dia a tinta escorra e a esferográfica lá cumpra a função. Nas séries acontece-me o mesmo. Demoro a deitá-las fora. Em “Imperfect Women” (oito episódios na Apple +) quase desisti depois de dois primeiros episódios insuportáveis, onde o foco da narrativa é uma de três amigas, uma atriz tão postiça como a cabeleira que ostenta, seja em cenas calientes, seja a conduzir um Mercedes descapotável clássico, seja a salvar o mundo na companhia de beneficência que lidera. Neste caso, vinha com antecipação, por causa de alguns dos atores elencados e porque sigo com particular interesse as séries em ambiente afluente e urbano, em que toda a gente é bela, rica, tem empregos ótimos, guarda-roupas que jamais teremos, nem ninguém que conheçamos. Quero saber que mais enredos vão inventar, que mais sinais exteriores de riqueza vão exibir, quais os limites da opulência na produção. E há um lado Sherlock Holmes, claro. Aqui, logo ao primeiro episódio, temos um cadáver e suspeitos espalhados em todos os núcleos. “Mulheres Imperfeitas” resume bem o risco do hate watch, aquele continuar a ver para continuar a detestar, que muitos conheceremos. Como na caneta que não escreve, o nervo desse hate watch é aqui ativado pela imensa falta de química e empatia que Kerry Washington (“Scandal”) tem com os outros atores e seus personagens. Felizmente, a série densifica-se a partir do momento em que a abandonamos no terceiro capítulo. E melhora francamente quando seguimos a história através da vítima mortal, Kate Mara (“House of Cards”) e ainda mais quando estamos a ser guiados por Elisabeth Moss (“The Handmaids Tale” e “Mad Men”) e Corey Stoll, o marido (“House of Cards”, “Billions”). As três amigas (que se calhar não são assim tão amigas) evoluem ao sabor da história. Há duas magras, sexy e com estilo e uma mais dona de casa e mais pobre - cuja casa é maior que muitos hotéis de província, não obstante -, vestidas de acordo com a caracterização (ver aqui detalhes). Toda a gente parece andar nas camas uns dos outros, mas a história é forte e testada, foi originalmente publicada em livro, da autoria de Araminta Hall. A cada novo episódio, vamos ficando mais presos a acontecimentos que pareciam clarificados, mas afinal Sim, “Mulheres Imperfeitas” estica os limites da credulidade, mas é em favor da história e do investimento do espectador e não para nos transmitir uma mensagem. Um alívio. Até à próxima newsletter. Pedro Boucherie Mendes Pedro Boucherie Mendes