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GESTÃO - 100 ANOS DEPOIS, UMA VIAGEM PELA CASA ONDE MORA O TEMPO

Executive Digest

2026-04-23 21:05:54

NO CORAÇÃO DA CIDADE DO PORTO, ONDE ? COMÉRCIO TRADICIONAL SE CRUZA COM ? TURISMO, ? PATRIMÓNIO E A ARQUITECTURA DE AUTOR, HA UM EDIFÍCIO ONDE ? TEMPO REINA E, MAIS DO QUE HORAS, MARCA PRESENÇA, IDENTIDADE E MEMORIA URBANA. ? MARCOLINO NÃO ê APENAS UMA LOJA DE RELOJOARIA E JOALHARIA. PONTO DE REFERENCIA NA CIDADE, TRATA-SE DE UM ESPAÇO ONDE ? TEMPO ê PRODUTO, OFICIO E SIMBOLO O longo de 100 anos, a Marcolino consolidou,se como uma das referências da alta relojoaria em Portugal, mas o seu peso actual não se explica apenas pela tradição. Explica-se pela capacidade de investir, de se reposicionar estrategicamente e de transformar a experiência do cliente num momento de contacto directo com o saber técnico e a precisão artesanal. «Um mínimo erro pode causar um dano irrecuperável.» A frase resume a filosofia que atravessa gerações nesta histórica relojoaria portuense. Aqui, a precisão é absoluta e a margem de erro praticamente inexistente, a concentração assume-se como um estado em presença constante. Ser relojoeiro, na Marcolino, não é apenas uma profissão: é uma aptidão trabalhada ao detalhe, transmitida de geração em geração, numa marca assumidamente familiar e geracional, onde cada nova etapa procura acrescentar valor à anterior. E é esta marca familiar que quer desmistificar uma ideia preconcebida sobre as marcas de luxo. Assumem querer ser uma loja de portas abertas à comunidade, aproximar as pessoas e ter uma responsabilidade social cada vez mais presente na comunidade portuense. No fundo, mais do que vender relógios, a Marcolino assume-se como “vendedora de sonhos”. Cada peça transporta significado, memória e promessa de futuro. E é essa combinação de precisão, confiança e continuidade que mantém viva uma tradição. Como dizem na casa, «a história está aqui toda». TIC-TAC A Marcolino é um dos nomes incontornáveis da alta relojoaria e joalharia em Portugal. Mas o percurso começou de forma bem mais modesta, numa cidade do Porto em plena transformação. Fundada em 1926 por António Marcolino, a marca construiu a sua reputação com base na persistência, no rigor e numa dedicação inabalável à perfeição em cada criação - valores que continuam a definir a sua identidade. Foi no comércio tradicional da cidade do Porto que a Marcolino começou por afirmar-se, distinguindo-se desde cedo pelo design intemporal, pela escolha criteriosa de materiais e pela excelência artesanal. Em 1937, a inauguração da loja na Rua de Passos de Manuel, em pleno coração da Invicta, marcou um ponto de viragem. A fachada com o icónico relógio tornou-se uma referência para quem procurava a «hora certa» e tornou-se um símbolo da ligação da marca à cidade. Ao longo das décadas, a história da Marcolino foi sendo escrita por diferentes protagonistas, cada um acrescentando uma nova camada ao seu percurso. Em 1962, a a marca marca passa passa para as mãos de Adriano Magalhães, que mantém o nome e reforça a especialização em relojoaria de qualidade superior. Já em 1970, com a aquisição por José Moura, reconhecido ourives, a Marcolino conhece a sua primeira grande renovação estética e funcional, modernizando o espaço e elevando o seu posicionamento. A década de 1980 trouxe nova transformação, com a entrada da família Neves. O espaço foi novamente renovado, o serviço pós-venda reforçado e a aposta em marcas de referência intensificada. A introdução da Swatch numa altura em que a marca conquistava o mercado internacional - tornou a Marcolino a única loja no Porto com os modelos mais procurados, consolidando a sua reputação de modernidade e visão estratégica. Em 1991, a expansão para um novo espaço comercial marcou o reposicionamento da marca no segmento de topo. A integração de prestigiadas casas de alta relojoaria e o reforço do serviço de assistência técnica, com a incorporação de um mestre relojoeiro especializado, consolidaram a Marcolino como referência no sector. O crescimento continuou nas décadas seguintes. Em 2011, a aquisição de um terceiro espaço na mesma rua, na esquina com a Rua de Santa Catarina, num edifício de art nouveau de valor patrimonial, acrescentou charme e sofisticação ao universo da marca. Três anos depois, em 2014, o regresso de Paulo Neves assinalou uma nova fase de renovação estratégica, com uma imagem mais sofisticada e o lançamento de uma flagship store com marcas de alta relojoaria suíça e joalharia internacional. No ano do seu 90.0 aniversário, em 2016, a Marcolino renovou a fachada do edificio, acompanhando a reabilitação da zona histórica do Porto e reforçando a atractividade do espaço. Já em 2021, a loja da Rua de Santa Catarina voltou a ser intervencionada, numa aposta clara na melhoria do conforto e da experiência do cliente. Com uma tradição de ourivesaria de várias gerações, Paulo Neves assume a liderança da marca como CEO, mas a sucessão está no horizonte, estando o seu filho, Miguel Neves, a seguir as pisadas de várias gerações dentro do negócio desta icónica marca portuense. Ao longo dos anos, a Marcolino consolidou uma reputação que ultrapassa as paredes da loja. e responsável pelo relógio mais importante do Porto , o da câmara Municipal - assumindo uma missão que é descrita como uma responsabilidade permanente. Afinal, trata-se do «pulso da cidade do Porto», um símbolo colectivo que exige rigor absoluto. SAVOIR-FAIRE Na oficina, o sotaque denuncia um percurso improvável. António Alves é português, mas nasceu em França, onde estudou joalharia antes de seguir para a Suíça, país onde trabalhou mais de uma década. Pelo meio, esteve cinco anos na Noruega. Foi aí que começoul um «namoro» profissional com Paulo Neves, que durou quase três anos. «Vinha cá no Verão, almoçávamos, falávamos de projectos. Até que decidimos acabar com o namoro à distância», conta. Quatro meses depois, deixava a Noruega e mudava-se para Portugal. Está há três anos na Marcolino e vive exclusivamente para a relojoaria , um mundo onde entrou em 1992. António Alves é hoje detentor de certificações maximas em várias insígnias, incluindo Hermés e Zenith , uma distinção única em Portugal. A par destas, somam-se certificações de marcas como Cartier, Panerai e IWC. Para a empresa, esta certificação funciona quase como uma estrela Michelin: se o relojoeiro sair, a certificação vai com ele. Mas o reconhecimento individual exige também um forte investimento estrutural da casa , máquinas, ferramentas e condições técnicas certificadas pelas próprias marcas. «Um posto de trabalho certificado pode implicar um investimento mínimo de 150 mil euros», revela. A oficina da Marcolino funciona como um laboratório de alta precisão. Há fornos industriais para colagem de vidros a temperaturas controladas, óleos específicos 15 tipos diferentes numa só gaveta - e ferramentas dedicadas a determinadas marcas. «Hoje o relojoeiro é extremamente técnico. A aptidão manual é uma parte; a componente administrativa, os requisitos das marcas e o investimento em equipamento são outra», explica António Alves. Na bancada, António explica-nos, afinal, qual a diferença entre os relógios. O automático é, no fundo, um manual com um módulo adicional que carrega a mola através do movimento do pulso. Mas exige uso real: são necessárias cerca de oito horas de movimento consistente para carga total. Já o quartzo assenta numa propriedade física do cristal: o efeito piezoeléctrico. A deformação do cristal de quartzo gera uma corrente eléctrica, permitindo uma medição extremamente precisa. Existem ainda soluções híbridas, como os modelos Kinetic da Seiko, que utilizam movimento para recarregar um acumulador interno. Para António Alves, a explicação é simples: «um relógio é um motor constante». A mola principal armazena energia; o sistema de transmissão desmultiplica-a; a âncora e a espiral regulam-na em alternâncias regulares. Um movimento mecânico padrão opera, em média, a 28.800 alternâncias por hora. Alguns chegam às 36.000 ou, em casos rarOS, muito mais. Quanto maior a frequência, maior a precisão mas também maior o desgaste e a complexidade. No fim, a relojoaria revela-se um equilíbrio delicado entre arte e física, tradição e tecnologia, paixão e investimento. CORAçàO DO RELOGIO O relojoeiro da Marcolino foi o nosso cicerone numa viagem única pelo palpitante coração de um relógio. De mãos na pinça e desandador, o desafio era simples (para António Alves): des-montar parcialmente um relógio e conhecer algumas das peças fundamentais para o seu funcionamento. Do ratchet à ponte do balanço, passando por rodas e molas, o relógio foi-se despindo e fomos conhecendo o seu complexo interior. Depois, o processo inverso, com a ajuda de um monóculo que nos mostrava todos os detalhes para conseguir montar os componentes e trazer o relógio novamente à vida. O som do tic-tac regressava, sinal de que o trabalho estava concluído e de que a precisão das nossas mãos tinha cumprido a sua missão. Mais do que um simples exercício técnico, foi uma demonstração prática do conhecimento, da tradição e da responsabilidade que estão na base do ofício de relojoeiro , e que a Marcolino preserva ao longo da sua história centenária. «CRUZAMENTO DE LUXO» No ano em que celebra 100 anos de história, a Marcolino prepara um dos maiores investimentos da sua trajectória, assumindo um projecto que cruza património, arquitectura de autor e estratégia de expansão no coração do Porto. Paulo Neves adiantou que a Marcolino comprou ao dono do Majestic, o café mais emblemático da cidade do Porto, o edifício contíguo onde se situava o antigo banco BPI entre a Rua de Santa Catarina e a Rua de Passos Manuel. Este projecto, desenhado por Siza Vieira, ven-cedor de um prémio Pritzker, contará com uma loja de relojoaria no rés-do-chão, com os restantes três pisos ocupados por apartamentos, O investimento global rondará os 16 milhões de euros, cerca de 13 milhões na aquisição e aproximadamente três milhões em obras. O projecto, já aprovado pela Câmara Municipal do Porto, prevê a manutenção da fachada, com requalificação integral do interior. Paulo Neves previa a conclusão da obra du-rante 2026, mas admitiu que será um prazo difícil de cumprir. O objectivo será assim manter e recuperar a fachada de um edifício carismatico, e criar um “cruzamento de luxo” no coração da cidade, como admitiu Paulo Neves. A empresa confirma que manterá as duas lojas, uma em frente à outra, reforçando a sua presença naquela zona da cidade. Está também prevista uma intervenção conjunta ao nível da iluminação exterior, articulada com o Majestic, criando uma linguagem estética comum entre os edifícios. Cem anos depois da abertura da primeira loja, a Marcolino continua a olhar para o futuro sem perder o fio à sua história. Nas oficinas onde o tempo é desmontado e reconstruído ao milímetro, investimentos estruturais e um novo projecto arquitectónico que cruza património e luxo, a marca demonstra que a longevidade não vive apenas da memória , vive da capacidade de se reinventar.o «UM MiNIMO ERRO PODE CAUSAR UM DANO IRRECUPERAVEL» ? FRASE RESUME ? FILOSOFIA QUE ATRAVESSA GERAçõES NESTA HISTõRICA RELOJOARIA PORTUENSE | » Paulo Neves, CEO da Marcolino, com o filho, Miguel Neves GESTÃO CEM ANOS DEPOIS, UMA VIAGEM PELA CASA ONDE MORA ? TEMPO ? OFICINA FUNCIONA COMO UMLABORAToRIO UM DE ALTA PRECISâO 1926 ANTôNIO MARCOLINO ABRIU PORTAS COM POUCO MAIS DO QUE vIsâo, EXIGéNCIA E DETERMINAçâO. O QUE COMEçOU COMO UM PROJECTO PESSOAL RAPIDAMENTE SE TRANSFORMOU NUM NOME RESPEITADO NO COMéRCIO PORTUENSE, E NUMA REFERéNCIA DA RELOJOARIA A NIVEL NACIONAL » A oficina da Marcolino funciona como um laboratório de alta precisão GESTÃO CEM ANOS DEPOIS, UMA VIAGEM PELA CASA ONDE MORA ? TEMPO ONDE ESTâO ? A MARCOLINO ESTâ PRESENTE NO PORTO ATRAVeS DA FLAGSHIP STORE NA RUA DE SANTA CATARINA, DE UMA LOJA NA RUA DE PASSOS MANUEL ? MARCOLINO LINK ? AINDA DE UM ESPAçO EXCLUSIVO NO INTERCONTINENTAL PORTO palácio DAS CARDOSAS. REFORçANDO A SUA LIGAçâO AO LUXO ? â CENTRALIDADE URBANA DO PORTO AMARCOLINO e RESPONSâVEL PELO RELoGIO MAIS IMPORTANTE DO PORTO , O DA CâMARA MUNICIPAL. TRATâ-SE DO «PULSO DA CIDADE» André Manuel Mendes