ENERGIAS RENOVÁVEIS JÁ NÃO SÃO UM "TEMA AMBIENTAL": "SÃO UMA ARMA DE DEFESA GEOPOLÍTICA"
2026-04-24 21:06:04

A aposta nas energias renováveis já não se trata apenas de um “tema ambiental”, tendo-se transformando, ao longo dos últimos cinco anos, numa questão de “soberania estratégica”, sendo já considerada “uma arma de defesa geopolítica” da Europa, segundo Pedro Amaral Jorge, presidente do operador de mercado ibérico de eletricidade. A própria Comissão Europeia parece reconhecer isso mesmo no comunicado divulgado na quarta-feira a anunciar novas medidas para fazer face à crise energética, que começa precisamente por sublinhar que, “pela segunda vez em menos de cinco anos, os europeus estão a pagar o preço da dependência em relação aos combustíveis fósseis”. Há cinco anos, a invasão russa em larga escala da Ucrânia expôs a dependência energética da União Europeia (UE) face ao gás e ao petróleo russo, levando os países europeus a comprometerem-se, na Declaração de Versalhes, de 2022, a eliminar progressivamente a dependência ao gás, petróleo e carvão russos. Mais recentemente, o bloqueio do Estreito de Ormuz na sequência do conflito no Irão mostrou como a dependência europeia de combustíveis fósseis importados nos torna “mais frágeis do ponto de vista da soberania, porque estamos sempre dependentes que alguém nos venda petróleo ou gás natural” e, portanto, mais vulneráveis a “choques de oferta” e, consequentemente, “choques de preços” que, segundo Pedro Amaral Jorge, “têm sempre o mesmo ciclo”. “O preço de energia aumenta, o aumento do preço de energia provoca um aumento da inflação, o aumento da inflação leva normalmente a que o Banco Central Europeu tenha uma política de manter a inflação em 2%, e, portanto, vai ter de impor aumento das taxas de juros, esse aumento das taxas de juro provoca aumento nos custos do crédito à habitação, do financiamento das empresas e cria um ciclo recessivo económico”, problematiza o ex-presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN). Só há uma forma de garantirmos "a autonomia energética europeia" Para Pedro Amaral Jorge, a eletricidade e a eletrificação dos consumos são “a única forma de conseguirmos ter independência energética dos combustíveis fósseis”. Antevendo um “mundo cada vez mais elétrico”, o responsável estima que a eletricidade, que “hoje representa entre 25% a 30%” do consumo energético total da Europa, “vai passar a representar 70% [do consumo total] em 2050”. “Quanto mais eletrificarmos os consumos de energia - com a mobilidade elétrica, com a eletrificação de processos industriais - mais vamos reduzindo a necessidade de combustíveis fósseis e podemos abastecer esse consumo com fontes renováveis”, explica o especialista. Hoje, não só “é mais barato” produzir eletricidade a partir de fontes renováveis, como é também uma medida de segurança e autonomia estratégica, uma vez que, explica Pedro Amaral Jorge, “permite que os centros de produção estejam em território europeu e, portanto, tenhamos soberania total sobre os seus custos de produção e sobre os preços que podemos praticar”, sem ficarmos “sujeitos a choques de oferta”, como aconteceu agora com o bloqueio do Estreito de Ormuz. Quer isto dizer, na perspetiva de Pedro Amaral Jorge, que a aposta nas renováveis “não é um tema ambiental - é um tema de soberania energética, é um tema de competitividade das empresas, é um tema de previsibilidade dos preços de eletricidade para os consumidores, quer residenciais, quer empresariais”. Segundo o responsável, “a única forma de termos autonomia energética europeia” passa por “arranjar forma de produzir eletricidade que não dependa de espaço geopolítico não europeu”. Na prática, admite Pedro Amaral Jorge, pode-se considerar que as energias renováveis são hoje “uma arma de defesa geopolítica” - uma ideia transmitida pela própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que defendeu esta semana que a aposta em “energias limpas e produzidas localmente” vai permitir que estejamos “mais bem preparados para enfrentar as tempestades geopolíticas”. Embora concorde que “as energias renováveis são fundamentais” para diminuir a dependência energética dos combustíveis fósseis, Jorge Silva Carvalho, especialista em Segurança e Defesa, ressalva que existem setores de atividade onde esta energia alternativa ainda não é opção, como é o caso da aviação, por exemplo. “As renováveis não substituem o combustível de avião, não servem para alimentar os navios - para isso é preciso combustível a sério”, sublinha o especialista, dando como exemplo o carvão, que, diz, parece estar “fora de questão” na Europa, por questões ambientais, mas também a energia nuclear, que, segundo Jorge Silva Carvalho, “também coloca algumas questões”, como o custo associado ou o risco de acidente, por exemplo. "Alterar o consumo energético de um continente como a UE não se faz do dia para a noite" Por saber isso mesmo, Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), avisou, na semana passada, que, a manter-se o bloqueio do Estreito de Ormuz, a Europa tem "talvez combustível de aviação para cerca de seis semanas" - um aviso que alguns consideraram “alarmista” e que levou a Galp - petrolífera que produz o chamado jet fuel em Portugal - a assegurar que, “neste momento, não se antecipam disrupções nos próximos meses”. Sobre este ponto, Pedro Amaral Jorge traz uma perspetiva otimista, destacando que já há planos para “uma eletrificação indireta” dos aviões, no âmbito da iniciativa europeia ReFuelEU Aviation, que promove precisamente o aumento da utilização de combustíveis de aviação sustentáveis (SAF). Estes combustíveis podem ser produzidos a partir de diferentes materiais, como resíduos urbanos, restos florestais mas também hidrogénio. A ideia é que “até 2050 haja uma substituição de querosene fóssil por querosene produzido a partir de combustíveis sintéticos de origem não-biológica ou combustíveis renováveis de origem não-biológica”, explica Pedro Amaral Jorge. Ou seja, acrescenta, “vamos ter não uma eletrificação direta de avião para longo curso, mas uma eletrificação indireta através da produção daquilo que eles chamam Renewable Fuels of Non Biological Origin, e com isso, suprir aquilo que é a quota de transição energética da aviação civil.” Todavia, esta iniciativa ainda “está numa fase embrionária” e “tem tido um desenvolvimento muito lento”, reconhece Pedro Amaral Jorge, apontando que a Comissão Europeia “definiu metas e estratégias, mas depois, na fase de implementação, não fez aquilo que devia ter feito em termos da criação dos estímulos e dos incentivos para que se acelerasse”. Manuel Serrano, analista de Política Internacional e Assuntos Europeus, lembra que “alterar a estrutura e o consumo energético de um continente como a União Europeia não se faz do dia para a noite”, sobretudo quando pensamos que os 27 Estados-membros “têm prioridades diferentes” e, consequentemente, soluções diferentes. “A União Europeia funciona muitas vezes numa lógica de consensos. Esses consensos são mais fáceis de encontrar agora [sem Viktor Orbán], mas não é de um dia para o outro que França, por exemplo, concorda com Portugal ou com Espanha em temas energéticos”, sublinha o especialista, referindo-se à intransigência de Paris em ligar a Península Ibérica à rede europeia. É neste contexto que Manuel Serrano entende que Bruxelas opte, para já, por responder a esta crise energética com “as medidas o menos invasivas possível”, como aquelas que foram anunciadas esta quinta-feira, como “regimes de apoio ao rendimento direcionados, vales de energia” e “redução dos impostos especiais sobre o consumo de eletricidade para as famílias vulneráveis”. Além disso, a Comissão Europeia anunciou ainda a criação de um Observatório dos Combustíveis para “acompanhar a produção, as importações, as exportações e os níveis de reservas de combustíveis para transportes na UE” de modo a identificar “potenciais situações de escassez” e, nesse caso, ordenar “libertações de reservas de emergência” de forma “equilibrada”. “Isto são medidas temporárias”, sublinha Manuel Serrano, admitindo que depois possam eventualmente surgir dúvidas sobre “se estas medidas podem ou não ser suficientes para uma crise desta dimensão”. “Porque esta crise ainda não acabou”, lembra. [Additional Text]: Energias renováveis já não são um Energia eólica em Portugal (Pedro Sarmento Costa/Lusa) Beatriz Céu