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EM ALJUSTREL E CASTRO VERDE, NEM SÓ DE COBRE E ZINCO SE FAZ A RIQUEZA DA TERRA

Expresso Online

2026-04-24 21:06:04

Na região há há fábricas de explosivos, de biometano e produtos de borracha. Há também olival e amendoal intensivo e vem aí um centro de dados A placa logo à entrada de Aljustrel não deixa margem para dúvidas: “Vila mineira.” Mas nem só da mina vive o concelho. Prova de que por ali a economia está bem e recomenda-se é o facto de a zona industrial - com 15 hectares - estar completamente “esgotada”. Todos os dias há novas empresas a bater à porta da Câmara. “Adquirimos um terreno com mais 15 hectares para evitar que fujam para os concelhos vizinhos”, conta o autarca de Aljustrel, Fernando Ruas. E se muitas destas empresas chegam a “reboque” da mina, outras nem por isso. Castro Verde e Aljustrel Portugal produz é uma série de 12 trabalhos que o Expresso publica ao longo de 2026, ao ritmo de um por mês, sobre algumas das regiões que mais se destacam na economia nacional e que estão a afirmar-se enquanto espaços de criação de emprego, atração de investimento e dinamização das exportações. Na série damos a conhecer o que de melhor se faz nas várias regiões, como têm crescido e que desafios enfrentam. É o caso da FF Ventures (de Miraflores), que tenciona investir EUR200 milhões para instalar aqui um novo centro de dados que empregará mão de obra qualificada (cerca de 50 engenheiros), conta. Há também a unidade de produção de biometano da Capwatt (novinha em folha), que investiu EUR20 milhões para transformar os resíduos da fileira do azeite em gás renovável. Soma-se a fábrica de explosivos da australiana Orica Mining Services, que foi alvo de um projeto de ampliação e exporta para todo o mundo. Também o sector agrícola está em franca expansão, sendo que quase todas as freguesias de Aljustrel são abrangidas pelo regadio do Alqueva. Falta uma - Messejana -, mas muito em breve a água do maior lago artificial da Europa vai chegar, tornando o concelho naquele que tem a maior cobertura de regadio do Baixo Alentejo. Com isso veio em força o olival intensivo, o milho, o amendoal e outras árvores de fruto, como pessegueiros e romãzeiras. “A água abriu caminho às grandes culturas de regadio, o que valoriza muito os terrenos. Temos empresas que vendem milho à Nestlé e as amêndoas dos gelados Magnum também vêm daqui”, conta o autarca. Apesar desta diversidade económica, Gonçalo Pernas, responsável de comunicação e responsabilidade social da Somincor (proprietária da mina de Neves Corvo), não tem dúvidas: “Sem as minas, esta seria uma das regiões mais pobres de Portugal. Antes de existirem, saía daqui um autocarro por semana com pessoas para a emigração.” Ladeada por três aldeias, Neves da Graça, A do Corvo (que lhe dão o nome) e Senhora da Graça de Padrões, a mina começou a operar em 1988 e hoje explora cinco jazigos, produzindo anualmente 28 mil toneladas de cobre e 110 mil toneladas de zinco para exportação, via porto de Setúbal. “A nível europeu, estamos em sexto ou sétimo na produção de cobre e no zinco somos dos maiores, senão o maior”, diz. Até há um ano a Somincor era detida pelos canadianos da Lundin Mining, que a venderam aos suecos da Boliden (num negócio avaliado em cerca de EUR1,44 mil milhões). Os novos acionistas conseguiram prolongar a vida útil da mina por mais dez anos, até 2041. Em 2025 a Somincor registou lucros operacionais de quase EUR44 milhões (pode ler-se no site da Boliden). Este ano prevê manter os volumes de minério tratado (4,5 milhões de toneladas), mas quer entrar num novo ciclo de expansão e investimento. Para isso acaba de fazer um novo pedido de atribuição de direitos de exploração mineira em Castro Verde, Almodôvar e Mértola. O objetivo é investir, no mínimo, EUR1 milhão a três anos, para procurar mais minério. Está também a construir uma central solar para autoconsumo com quase 50 megawatts (MW), mas as obras foram impugnadas pelo Ministério Público. Na Almina há 805 homens e 95 mulheres. Na Pronal, 65% são mulheres Deixando para trás Neves Corvo, no caminho até Aljustrel avistam-se várias sondas da Somincor a perfurar o solo. Mais à frente, também a Almina tem andado atarefada por estes dias. Contratou mais 200 pessoas e acaba de investir EUR470 milhões num ambicioso plano de expansão, tem uma segunda lavaria a operar desde abril (que permite processar cobre e zinco ao mesmo tempo), além de uma central solar com 20 MW, para colmatar 20% do consumo de eletricidade. Tudo somado, vai conseguir produzir anualmente para exportar 30 mil toneladas de cobre e 100 mil toneladas de zinco, garante o presidente da Almina, Humberto Costa Leite. Isto significa passar de uma faturação de EUR210 milhões em 2025 para EUR400 a EUR500 milhões em 2026. Conclusão: também o prémio anual dos trabalhadores será maior (o último rondou dois salários e meio). E se na mina de Aljustrel trabalham 805 homens e 95 mulheres (e só 10 vão aos 700 metros de profundidade), na Herdade da Mancoca - onde, desde 2015, se situa a fábrica de artigos de plástico e borracha da francesa Pronal, recentemente comprada pela Michelin - reinam elas: 65% dos 120 trabalhadores de 11 nacionalidades são mulheres. Quem nos recebe é Irmine Varela, a mais antiga e a primeira a ser contratada. Antes da fábrica, era professora. Outras vieram de restaurantes ou supermercados, mas também há homens, que se fartaram dos “perigos” da vida na mina. Ali tudo (ou quase tudo) é feito à mão, desde pequenas peças para máquinas de ressonância magnética até enormes reservatórios insufláveis para ar, água ou combustível (usados por militares em cenários de guerra ou nos sectores elétrico e da aviação). A lista de clientes inclui exércitos de todo o mundo (com as encomendas a dispararem), como a Cruz Vermelha internacional, e grandes empresas, como a General Electric e a Embraer. Duas vezes por semana chegam de França as matérias-primas que ali são transformadas em produtos feitos “ao milímetro e à medida dos clientes” e exportados para 103 países, conta o diretor da fábrica, Jeremy Dubois, que há oito anos aterrou em Aljustrel, com a família, vindo de São Paulo, no Brasil. “Foi um choque morar dez anos numa cidade com 23 milhões de habitantes e vir para o meio do nada”, conta o francês. Mas não está arrependido: “Aqui é muito mais seguro.” Sob a sua liderança, a unidade passou de uma faturação de EUR600 mil por mês para quase o dobro. A Pronal não só quer continuar em Aljustrel (cuja fábrica já é responsável por 55% da faturação anual do grupo) como tem planos para crescer: já investiu EUR4,5 milhões desde 2015 e vai injetar mais EUR3,5 milhões para construir um novo pavilhão, duplicar a produção e chegar a 150 trabalhadores em 2028. Bárbara Silva Jornalista Bárbara Silva / Vítor Andrade