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CIRCULARIDADE TÊXTIL CRESCE COM LIMITAÇÕES

FashionNetwork Portugal Online

2026-04-24 21:06:04

Circularidade têxtil cresce com limitações Por Portugal Textil Publicado em 24 de abril de 2026 Representantes do CENIT, AMF Safety Shoes e Rangel Logistics Solutions apontam avanços na circularidade têxtil, mas também alertam para constrangimentos estruturais, num contexto de pressão regulatória, entraves tecnológicos e forte sensibilidade ao preço. Circularidade têxtil cresce com limitações A conferência “O Futuro do Têxtil Europeu: Sustentabilidade, Circularidade e Cadeias de Abastecimento Inteligentes”, realizada a 22 de abril, integrou o programa “Têxtil do Futuro” da Empack e Logistics & Automation Porto, na Exponor, e reuniu Luís Hall Figueiredo, presidente do CENIT, Nuno Malheiro, diretor comercial da AMF Safety Shoes, e Luís Marques, membro do conselho executivo da Rangel Logistics Solutions, numa conversa moderada por Miguel Teles, vice-presidente executivo da Associação Portuguesa de Gestão e Engenharia Industrial. Luís Hall Figueiredo enquadrou o momento atual como um ciclo de crise recorrente, recordando diferentes choques económicos ao longo das últimas décadas e defendendo que o setor tem vindo a ganhar resiliência. Ainda assim, alertou para a intensidade da transformação em curso, sublinhando que a indústria vive uma fase de transição aceleradíssima , com 16 propostas legislativas relativamente ao têxtil em discussão na Comissão Europeia. Na sua perspetiva, o nível de exigência regulatória poderá atingir um ponto em que vamos ser mais regulamentados que a indústria farmacêutica . A pressão para a sustentabilidade é, segundo o presidente do CENIT, inevitável, mas depende diretamente do comportamento do mercado, com o consumidor a desempenhar um papel central. A indústria vem atrás daquilo que o consumidor quer. E eu penso que a grande transformação terá de ser a mentalidade do consumidor , referiu. Luís Hall Figueiredo reconheceu ainda a necessidade de mudança, sublinhando que a indústria têxtil sempre foi associada a uma indústria muito poluidora , mas advertiu para a assimetria na aplicação das regras. Segundo o presidente do CENIT, apenas 15% do vestuário consumido na Europa é produzido no próprio continente, sendo os restantes 85% importados, o que levanta questões sobre o impacto da entrada de produtos extracomunitários e da concorrência global. Luís Hall Figueiredo denunciou a existência de uma fraude brutal associada a plataformas internacionais de comércio eletrónico, avisando que esta realidade coloca desafios fiscais, regulatórios e até de segurança para o consumidor, além de afetar diretamente a competitividade da indústria europeia. No capítulo da circularidade, identificou a venda em segunda mão como a expressão mais visível junto do consumidor e a única vertente que não implica um acréscimo no preço. O presidente do CENIT apontou também o ecodesign como uma tendência crescente, orientada para a criação de peças mais facilmente recicláveis no fim de vida. O problema, sublinhou, está a montante. A reciclagem neste momento é um problema, porque não há ainda capacidade instalada para tudo aquilo que é produzido , explicou. A reciclagem mecânica não é suficiente para absorver o desperdício pós-consumo gerado pela indústria e Luís Hall Figueiredo apontou a reciclagem química como a solução de futuro, uma vez que, apesar da pequena escala neste momento, poderá ser capaz de tratar volumes a que os processos atuais não dão resposta. Nuno Malheiro reforçou que, no calçado de segurança, a sustentabilidade é um argumento limitado por se tratar de um equipamento de utilização obrigatória, onde o preço é ainda mais determinante do que noutros segmentos. Para o diretor comercial da AMF Safety Shoes, a resposta passa por alargar o conceito de sustentabilidade para além dos materiais, passando pelos processos e pelas pessoas. Se não equiparmos as nossas pessoas para responder a isso, se não dermos formação para acompanhar, nós, na Europa, podemos ser muitíssimo bons em termos de inovação e sustentabilidade, mas perdemos em relação com o preço , defendendo a eficiência operacional e a valorização dos recursos humanos como forma de sustentabilidade. Da descarbonização às cadeias inteligentes Do lado das operações logísticas, Luís Marques partilhou que há muito tempo a Rangel tem como objetivo contribuir para a sustentabilidade ambiental, mas enfrenta limitações tecnológicas no cumprimento das metas de descarbonização para 2030 e 2040. A eletrificação da frota e a autossuficiência energética nas plataformas logísticas continuam a depender de tecnologias sem viabilidade económica autónoma. A eletrificação da frota, na perspetiva do equilíbrio económico, é claramente subsidiada do ponto de vista do capital , afirmou. Ainda assim, o membro do conselho executivo da Rangel Logistics Solutions identificou na circularidade uma oportunidade concreta para os operadores logísticos. A recolha de artigos têxteis em segunda mão e a sua entrega em pontos de transformação é, na sua leitura, uma operação logística como outra qualquer, para a qual o setor já dispõe de escala, tecnologia e capacidade de otimização de rotas. O principal obstáculo, admitiu, não é operacional. A circularidade hoje está na mente do cliente. Mas a decisão está sempre no preço , apontou. Por outro lado, Luís Marques alertou para o impacto crescente do e-commerce na pegada ambiental das cadeias de abastecimento, assinalando o aumento das devoluções como um dos principais desafios operacionais e ambientais. O responsável exemplificou com o comportamento de consumo que envolve encomendas múltiplas para posterior devolução parcial, o que multiplica os transportes. Quando alguém pede três pares de calças da Salsa [de quem são parceiros] para serem entregues por um estafeta, para depois experimentar as três e ficar com uma, isso dá origem a muitos transportes. E esses transportes, para além do custo económico que têm, têm um custo naquilo que são os nossos objetivos e ambição da descarbonização, que é brutal , esclareceu. Este fenómeno está a intensificar a logística inversa, aumentando não só os custos operacionais como também as emissões associadas ao transporte, num momento em que o setor enfrenta metas ambiciosas de descarbonização. No domínio tecnológico, Nuno Malheiro destacou o papel crescente da inteligência artificial (IA) na modernização das cadeias de aprovisionamento, com aplicações que vão da gestão e antecipação de stocks à automatização de processos comerciais repetitivos. O diretor comercial da AMF Safety Shoes descreveu como a integração de ferramentas de IA no ciclo de venda permitiu à empresa reduzir de 8 a 12 interações por e-mail para um único contacto qualificado antes de apresentar uma proposta comercial, libertando as equipas para um trabalho de maior valor acrescentado. Só vamos ser competitivos se tivermos muita atenção ao serviço, se formos produtivamente eficientes e se reduzirmos o desperdício ao máximo. A alocação de stocks e matérias-primas pode ser feita assim , parece um sonho, mas não é. Já acontece em Portugal , reforçou Nuno Malheiro. [Additional Text]: Circularidade têxtil cresce com limitações