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AVIAÇÃO - A TECNOLOGIA PORTUGUESA QUE SOBREVOA OS CÉUS

Marketeer

2026-04-24 21:06:04

0 abia que há software português que é essencial para o funcionamento e segurança de muitos aviões que rasgam os céus? Há várias décadas que a portuguesa Critical Software colabora com a francesa Airbus em diversas aplicações nos sectores espacial e da aviação comercial. Contudo, no início deste ano, as duas empresas subiram a pique na relação e fizeram descolar a Critical FlyTech, uma joint venture para o desenvolvimento de software e sistemas críticos para a indústria aeroespacial. Detida em 51% pela Airbus e em 49% pela Critical Software, a Critical FlyTech surge com o propósito de desenhar, desenvolver e validar software embebido e certificável para sistemas críticos , isto é, sistemas onde a segurança e a fiabilidade são essenciais para a operação da Airbus e suas subsidiárias, em áreas como aviónica, gestão de cabine e conectividade.com sede em Coimbra e um escritório em Lisboa, arrancou com uma estrutura de 120 colaboradores, mas tem planos para alargar a equipa a 300 pessoas até ao final de 2028, consolidando-se como um centro de engenharia de excelência na aviação comercial , e não só. «A Critical FlyTech nasce com o objectivo de combinar a liderança da Airbus nos mercados da aviação, Espaço e Defesa com a excelência da Critical Software no desenvolvimento de projectos de sistemas críticos, não apenas na indústria aeroespacial, como noutras. A nossa missão é contribuir para o desenvolvimento de sistemas inovadores e fiáveis que reforcem a marca Airbus como referência na indústria aeroespacial», afirma à Marketeer Tiago Neto Rodrigues, Chief Operating Officer (coo) da Critical FlyTech. Em fase inicial, a empresa está focada em trabalhar exclusivamente em soluções para a aviação comercial. Falamos, por exemplo, do desenvolvimento de software/sistema operativo para o cockpit , o “cérebro” das aeronaves ,, incluindo sistemas de pilotagem ou avisos de painel, mas também dos sistemas de cabine com os quais os passageiros interagem durante O VoO, sejam alertas de segurança, a gestão do ar condicionado, o pedido de assistência de bordo, a ocupação das casas de banho, entre outros. Nas aeronaves mais recentes, esta experiência estende-se ao ecrã audiovisual onde vemos filmes, ou o menu de bordo ou aos equipamentos que utilizamos para carregar aparelhos electrónicos. O software em desenvolvimento será aplicado tanto em modelos em operação, como nas futuras gerações de aeronaves comerciais da Airbus. «Um projecto no qual estamos envolvidos é O Future Cabin Management System, o futuro sistema de gestão de cabines dos aviões comerciais da Airbus, que controlará todos os sistemas da cabine e da zona de carga, desde a iluminação e avisos até à detecção de fumos e mensagens de áudio», refere Tiago Neto Rodrigues. A Critical FlyTech está ainda a desenvolver plataformas de simulação que permitem testar subsistemas antes de serem integrados nos aviões, ou treinar pilotos e tripulação. «Além destes, temos alguns projectos de I&D mais pequenos, mas muito interessantes», adianta o coo. «Começamos pelas actividades na aviação comercial, mas a ambição é expandir para as áreas de Espaço, helicópteros [a Airbus também fabrica helicópteros civis e militares] e Defesa, aplicando as melhores práticas de forma transversal», acrescenta. Com este pipeline de produtos e uma parceria sólida com uma das principais fabricantes de aeronaves do mundo, a Critical FlyTech assume de forma clara o objectivo de contribuir para continuar a reforçar o papel estratégico da indústria aeronáutica, aeroespacial e da Defesa nacional no contexto europeu e mundial. Ou não fosse esta uma indústria que tem vindo a crescer de forma expressiva nos últimos anos. Hoje, é composta por mais de 150 empresas, que empregam cerca de 18 500 trabalhadores e exportam 87% da sua produção. No total, respondem por um volume de negócios que já ultrapassa os 2,1 mil milhões de euros, segundo os dados da AED Cluster Portugal, que representa as empresas do sector. «Por u m lado, a Critical FlyTech permitirá que se crie em Portugal os sistemas mais estratégicos e desafiantes para poeter os mercados de aviação, Espaço e Defesa. Por outro, além de desenvolver tecnologia de ponta, ajuda a capacitar o País, ao criar parcerias com universidades e escolas de engenharia e formar profissionais preparados para os desafios futuros, tecnológicos e de gestão. Essencialmente, posiciona Portugal como referência no desenvolvimento de sistemas críticos na indústria aeroespacial», explana Tiago Neto Rodrigues. Parceria forjada NAS NUVENS E este é tudo menos um investimento que surge ao acaso. Desde 1998 que a Critical Software se dedica a trabalhar em algumas das indústrias mais exigentes do mundo, concebendo soluções de software e serviços de engenharia para o suporte de sistemas críticos orientados à segurança, à missão e ao negócio de empresas. e o caso do sector espacial onde desenvolveu sistemas que monitorizam a segurança de missões da Agência Especial Europeia (ESA) e da NASA ,, mas também das indústrias da aviação, automóvel, ferrovia, defesa, energia, banca ou dispositivos médicos. Hoje, emprega mais de 1400 pessoas em quatro países (Portugal, Reino Unido, EUA e Alemanha). A relação entre a multinacional portuguesa, fundada em Coimbra, e a Airbus começou no início dos anos 2000, no contexto da entrada de Portugal na Agência Espacial Europeia, com projectos na área espacial. Em 2018, começaram a 0 DESAFIO? «MANTER A EXCELeNCIA» Tiago Neto Rodrigues, Chief Operating Officer (coo) da Critical FlyTech, integrou a Critical Software há cerca de 20 anos, tendo começado como engenheiro de software. «Ao longo destas décadas, fui absorvendo a cultura e os valores da empresa, que sempre privilegiou o trabalho em equipa, o rigor e o gosto por desafios técnicos relevantes. Trago para a Critical FlyTech toda essa experiência e forma de trabalhar. Muitos dos meus colegas também vieram da Critical Software, o que ajuda a preservar esta "escola" de cultura, valores e métodos», afirma. E sobre o novo desafio? «e muito estimulante, porque me permite aplicar esta experiência num projecto autónomo, focado em sistemas críticos e estratégicos, em estreita parceria com a Airbus. A grande diferença é que agora temos a responsabilidade de construir a empresa praticamente do zero, definir processos, formar equipas e, ao mesmo tempo, manter a excelência que nos trouxe até aqui.» colaborar também no sector da aviação comercial, num projecto preliminar que, hoje, serve de base ao desenvolvimento do futuro sistema de gestão de cabines da Airbus. «Com a evolução do projecto, a Critical Software foi demonstrando a sua capacidade técnica e consistência na entrega, fortalecendo a relação com a Airbus. E novos projectos foram surgindo», recorda Tiago Neto Rodrigues. Por isso, a criação de uma empresa conjunta surgiu como natural. «Face à crescente exigência no sector em que actua, a Airbus identificou a necessidade de ganhar maior autonomia no desenvolvimento de produtos e serviços estratégicos, de forma a reduzir a dependência de fornecedores externos. A criação da Critical FlyTech surge para responder a uma necessidade da empresa de assegurar uma parceria estratégica mais próxima e estruturada, tendo identificado a Critical Software como o parceiro ideal», refere o coo. Esta não é a primeira joint venture da Critical Software com uma gigante do mundo empresarial. Desde 2018, a tecnológica tem uma participação na Critical TechWorks, fundada em parceria com a BMW, que desenvolve vários tipos de software para a fabricante germânica, desde sistemas de infoentretenimento até soluções para a gestão das fábricas do grupo. Agora, a história repete-se, mas noutro sector. Tiago Neto Rodrigues acrescenta que, na origem da Critical FlyTech, estão vários factores que foram decisivos, inclusive para basear o projecto em Portugal: «A combinação entre proximidade geográfica, talento qualificado, disponibilidade de recursos e o desempenho demonstrado pela Critical Software levou à decisão da Airbus de avançar com o projecto conjunto em Portugal. Acresce registar-se uma aposta contínua na formação de novos profissionais no sector. Portugal tem excelentes escolas de engenharia e bons profissionais, que já provaram ser capazes de desenvolver sistemas altamente complexos.» Com uma equipa inicial de 120 pessoas entre os escritórios de Lisboa e Coimbra , cerca de 100 das quais transitaram da Critical Software ,, a Critical FlyTech tem como objectivo alargar a equipa a 300 trabalhadores até ao final de 2028, tendo um processo de recrutamento em curso. Muitos destes talentos serão recrutados em Portugal, mas a empresa também pretende atrair os expatriados. «Apoiamo-nos fortemente nas universidades e escolas de engenharia em Portugal para criar programas de formação e colaboração que permitam treinar profissionais alinhados com os desafios da Critical FlyTech. Desta forma, conseguimos desenvolver talento local e capacitar profissionais. Além disso, queremos atrair de volta profissionais qualificados portugueses que, nos últimos anos, se viram obrigados a emigrar, oferecendo-lhes oportunidades para regressar e contribuírem para o sector no País», frisa o responsável. O Futuro da Defesa NacIonal Importa ainda salientar que a Critical FlyTech é fundada numa altura em que a União Europeia envida esforços no sentido de alavancar o investimento dos Estados-membros em Defesa, através do programa SAFE (Security Action for Europe), que irá distribuir cerca de 150 mil milhões de euros em empréstimos de longo prazo para reforçar a indústria de Defesa europeia. Portugal foi um dos oito primeiros Estados-membros a ver o seu plano nacional aprovado, podendo captar um montante máximo de 5,84 mil milhões de euros. Apesar de estar focada, neste momento, no sector da aviação comercial, a Critical FlyTech poderá vir a estender a sua actividade ao ramo da Defesa ou da aviação militar. Em que medida poderá vir a beneficiar do novo instrumento financeiro? «Este reforço de investimento é, sem dúvida, um momento importante para a soberania de Portugal e para a indústria da Defesa. Vai, com certeza, num futuro próximo, trazer várias oportunidades para a indústria nacional. Estes recursos criarão oportunidades para que sejam desenvolvidos projectos bastante avançados em Portugal, nomeadamente sistemas críticos de missão. A missão actual da Critical FlyTech está focada na aviação comercial. Contudo, no futuro, o contexto no qual se insere poderá alterar-se, abrindo portas para iniciativas no mercado da Defesa», assume Tiago Neto Rodrigues. Sediada em Coimbra, a Critical FlyTech desenvolve software para os sistemas de bordo dos aviões comerciais da Airbus, desde a gestão de cabine ao próprio sistema operativo das aeronaves. Mas, aqui, o céu não será o limite Texto Tiago Neto Rodrigues, Chief Operating Officer da Critical FlyTech DANIEL ALMEIDA