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ÍPSILON - FAZER UM MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA EM BRAGA NÃO É DESEJAR O IMPOSSÍVEL: NASCEU O MUZEU

Público

2026-04-24 21:06:09

O presidente do grupo DST abriu o primeiro museu de arte contemporânea em Braga, com a sua colecção privada. Uma sala dedicada a Kiefer será “uma âncora” para afirmar O Muzeu. asceu 0 Muzeu Nunca pensei que ia ter tanto prazer em dar 99 Osé Teixeira parece o mecenas perfeito. Investiu J40 milhões de euros para inaugurar o primeiro museu de arte contemporânea em Braga, uma das cidades culturalmente mais activas do país, ao lado do Porto, de Lisboa e de Guimarães, que não está propriamente bem servida de museus do Estado central. E baptizou-o de forma a ninguém ter dúvidas de que este é um gesto político: “Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea dst”. Um gesto tão político como o que o levou a ser um dos únicos empresários de peso a criticar em alto e bom som a revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, pedindo que deixassem os trabalhadores em paz. Aos 66 anos, este gestor heterodoxo e presidente da DST, O grupo empresarial de Braga que nasceu à volta da construção civil, vai abrir o seu museu ao público amanhã, dia 25 de Abril. O nome da instituição , Muzeu , tem no meio um “z de “zé”, diminutivo pelo qual muitos tratam o presidente da DST. “Será uma primeira pessoa a precisar de psicana-lista...”, ironiza José Teixeira em conversa com O ipsilon. Já estava presente no nome da galeria de arte do grupo, a ZET, com sede em Braga e uma extensão em Lisboa, mas este “z” anuncia em particular que os primeiros “referenciais” de pensamento do “Muzeu” são os da Antiguidade Clássica, os gregos antigos. O espaço do Muzeu quer afirmar-se como “uma ágora da pólis contemporânea”. O seu auditório com 150 lugares, situado no último piso, com uma parede parcialmente em vidro que permite deixar entrar a luz natural, recebeu o nome de “assembleia”, porque a nova instituição da DST “tem como missão a promoção do pensamento crítico e do activismo social”, lê-se na sua carta de intenções. Este “z”, que pode parecer um pouco egocêntrico à primeira leitura, foi também escolhido, com a ajuda de uma de duas filhas de José Teixeira, a pensar na sexta letra do alfabeto grego clássico, como vemos no lettering com a palavra “Muzeu” que coroa a fachada do edifício virada para a Praça Conde de Agrolongo. á noite, quando estiver iluminada, o nome da nova instituição dedicada à arte contemporânea de Braga não passará despercebido a quem passar ao lado da Igreja do Pópulo, mesmo que à velocidade de um carro. O museu ocupa o antigo Tribunal de Braga, também conhecido como Palacete Vilhena Coutinho, com um pro- jecto de renovação e de José Manuel Carvalho Araújo, colega de escola de José Teixeira e o amigo a quem podemos chamar o arquitecto da Braga contemporânea. O edifício afirma hoje a sua ambição urbana ao ligar duas praças do centro histórico através do interior do quarteirão. A entrada dos visitantes faz-se pelo lado menos público do antigo palacete, através da Praça do Município, numa fachada transformada pela intervenção do escultor José Pedro Croft, autor de uma das várias obras de arte pública implantadas no campus da DST, situado em Pitancinhos, nos arredores de Braga. Nesta bonita praça do centro histórico, frondosa e mais sossegada, o Muzeu é anunciado em sotto voce, numa incisão em gesso que surge entre as portas cinzentas do edifício. e preciso aproximarmo-nos, tocá-las, para perceber que são agora construídas em metal, fundidas em bronze, através da técnica da cera per-dida. Guardam o perfil e pormenores das portas antigas, demasiado velhas para recuperar, e também espelham a intervenção táctil das mãos do escultor. São uma poderosa memória da fachada que, de resto, o artista limpou na sua intervenção, num diálogo com o arquitecto, retirando e silenciando outros elementos decorativos, como o ferro forjado das varandas, presentes ônos edifícios vizinhos. O enorme campus da DST nos arredores de Braga, que, além de diversas obras de arte pública, tem fábricas desenhadas por àlvaro Siza e Eduardo Souto de Moura, éo epicentro da actividade do grupo e da sua famosa “escola”, de que a face mais mediática tem sido a participação dos milhares de trabalhadores na discussão de temas de filosofia ou de literatura, com palestras de Gilles Lipovetsky ou de Pablo d Ors, mas também concertos dos metaleiros Moonspell. àS quintas-feiras, por exemplo, o novo museu ficará aberto até às 23h, permitindo a sua frequência bem para lá do horário laboral, porque os trabalhadores têm direito a cultivar-se e estão fartos de pão com manteiga”, um dos mantras que José Teixeira não se cansa de repetir em entrevistas. “Há tanto tempo que não era tão feliz. Nunca pensei que ia ter tanto prazer em dar. Não é soberba, nem orgulho, é outra sensação”, afirma José Teixeira quase no final da entrevista, duas semanas antes da inauguração. A conversa tinha começado com a mais prosaica das perguntas: porquê fazer um museu em Braga com a colecção de arte da DST e do próprio presidente? “e um dever social. Se nós criamos riqueza com a factura dos trabalhadores, essa riqueza tem de ser, de alguma forma, devolvida. Ela pode ser devolvida de várias maneiras, no apoio à ciência, no apoio social. Há sempre coisas a fazer, há sempre pessoas que não passam bem, pessoas sem-abrigo, pessoas com fome ôno mundo. Há muitas hipóteses de fazermos coisas pelos outros.” Na perspectiva “utilitarista”, voltamos à filosofia que nunca anda longe nesta conversa, não poderíamos nunca usufruir de ópera, afirma o presidente da DST. Quem diz ópera, diz teatro, artes visuais ou literatura, porque há sempre outras coisas mais prioritárias. “Nós não podemos ajudar toda a gente, mas também não podemos esquecer toda a gente. Entre as soluções que tínhamos em mão, entendemos que a forma como deveríamos devolver à comunidade parte dessa riqueza seria financiar e colocar à disponibilidade do público em geral um museu e a colecção do grupo. Tirá-la das paredes do campus, da minha casa, e trazê-la para o espaço do museu, que tem um programa de pensamento sobre exactamente esses porquês do papel da arte.” A colecção, que começou a ser feita há 40 anos, vai ser apresentada através de uma escolha de quase 100 artistas, numa exposição que se espalha pelos cinco pisos do museu, intitulada Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível, um slogan do Maio de 68, movimento que contestou nas ruas a sociedade herdada do pós-Segunda Guerra Mundial, que tem uma curadoria da directora do museu, Helena Mendes Pereira, também responsável pela galeria ZET, numa colaboração com Bernardo Pinto de Almeida. Uma sala para Kiefer Se o percurso no interior do museu começa no primeiro piso com uma fotografia de Candida Hõfer , o interior da igreja dos Jerónimos em Lisboa, numa reflexão sobre o museu como “ágora” =, numa galeria onde também cabe uma magnífica obra de João Penalva intitulada A Gerência Lamenta, há-de acabar no terceiro piso, com uma sala inteiramente dedicada ao artista alemão Anselm Kiefer, com oito obras, que vão da pintura à escultura, passando pela fotografia. A ideia foi usar um dos nomes mais conhecidos da cena artística contemporânea como “isco” para chamar público. às três pinturas de paisagem, três árvores, já parte da colecção de José Teixeira, vieram juntar-se duas grandes pinturas, duas esculturas e uma fotografia, adquiridas recentemente através da galeria Gagosian. A maior das pinturas, Sol Invictus , Heliogabal (2023), é representativa do fascínio de Kiefer por Van Gogh e faz parte da série Fallen Angels, em que o artista explora a expressão da folha de ouro, numa reflexão sobre a vitória da luz sobre a escuridão. Este último espaço do Muzeu não será o “olimpo”, como é anunciado pelos textos de sala, uma morada dos deuses gregos, mas é sem dúvida impressionante e pode ser visto, explica José Teixeira ao ipsilon, como um compromisso com a ambição do museu de Braga. Foi nos últimos tempos que surgiu a ideia de dedicar uma sala inteira, de forma permanente, a este gigante da arte contemporânea. “Nós estamos treinados para fazer programas imobiliários, nomeadamente centros comerciais, que têm de ter uma âncora. O que quis fazer aqui com o Kiefer foi o que Bilbau fez com O [Richard] Serra ou a Tate com O [Mark] Rothko. Onde é que eu tenho uma oportunidade de ver sempre uma sala com o Kiefer? Em Braga. Esta sala tem a particularidade de ser permanente e o compromisso de ser aumentada”, diz o presidente da DST, que não se coíbe de comparar o novo museu de Braga com as grandes instituições internacionais de arte contemporânea. De dois em dois anos, promete, vai mudar a sala e acrescentar novos Kiefer à colecção. “Depois, logo se verá, porque a próxima etapa deste projecto é alargar o espaço do museu.” A ambição de José Teixeira é que o Muzeu venha a ocupar meio quarteirão da praça. Não é uma promessa “megalómana”, ri-se. Ainda agora nasceu, reconhece, mas o presidente da DST já tem planos para a expansão. Para já, há a intenção de adquirir um edifício situado na esquina para fazer um restaurante. Depois de um grande investimento (40 milhões de euros, colecção incluída), há agora o desafio difícil da sustentabilidade do Muzeu depois da inauguração. E, num país em que a grande maioria dos museus vive de forma precária, qual é que será o exemplo do Muzeu de Braga, perguntamos. “o que é normal é um coleccionador chegar a um município, ao Ministério da Cultura, e dizer: Meus caros, eu tenho esta colecção, ela está avaliada, é reconhecida por estes peritos e, portanto, encontrem-me lá um espaço para a pôr. Vocês também contratam as pessoas para fazer a manutenção e eul dou o nome ao museu. Neste caso, a DST não pediu nada a ninguém. Não pediu à câmara, não pediu à União Europeia financiamento para a construção. Vai ter um orçamento que será sempre três vezes mais do que O Estado português tem para adquirir obras de arte [contemporâneas].” Três vezes 800 mil euros? “Serão 2,5 milhões de euros. Não vou criar uma fundação, porque este não é um sítio onde eu expio os meus pecados. o orçamento é a DST que tem de o gerar.” O Muzeu é mais uma camada no historial da DST na área da responsabilidade social e cultural, não caiu do céu. “No ethos, na alma, na natureza do grupo, as pessoas vão-se habituando ao que vem a seguir.” Sejam aulas de filosofia, oficinas de pintura, discussões de literatura ou fazer teatro no campo industrial. “Nós estudamos Jacques Ranciére e demos A Noite dos Proletários. Discutimos coisas muito complicadas do ponto de vista do cânone empresarial.” Também discutiram O Espectador Emancipado, do mesmo filósofo e ensaísta francês de esquerda, continua. “o que pretendo são trabalhadores emancipados, livres. E incompreensível haver uma lei para uma coisa básica que é dar formação aos trabalhadores. Superamos em muito o número de horas que a lei prevê, porque precisamos de trabalhadores competitivos.” Se um trabalhador não gostar de ler , são lendárias as perguntas sobre o que cada um anda a ler =, nem de nenhuma das formações da DST, o mais provável é que o caminho dos dois se desencontre no futuro. “Conhece algum caso em que a leitura ou o conhecimento façam mal?” Se a DST investe no pensamento crítico, é importante, claro, que o trabalhador possa dizer não. “E essa capacidade crítica que faz com que eu possa dizer não, mas com esse não tenho de propor uma solução. Não é o não do niilismo, da acédia, de não querer fazer nada, de não querer ser incomodado.” Porque se o trabalhador quer que as urgências do hospital funcionem e que haja uma cama para o tratar, não pode não participar nas eleições, diz. Em resumo, o trabalhador da DST só pode ser, segundo José Teixeira, “um cidadão” da pólis. “Realistas”, ,não “platónicos” “o elogio ao trabalho” é o subtema do piso-1, onde José Pedro Croft acaba de instalar uma escultura de 1999 feita em ferro galvanizado, espelho e vidro. “Olha que fixel Fica muito bem no eixo das escadas. Estou a gostar disto”, comenta o presidente, que ainda não se cruzou com o escultor. Na sala ao lado, comentará que a obra de Sandra Baía Fragments on a Wall (2022-23) precisa de mais iluminação. “E uma peçassa.” Será tudo afinado nos próximos dias, iluminação incluída, comenta a directora, explicando que a curadoria deste piso partiu dos artistas que têm peças de arte pública espalhadas pelo parque da DST. Além de Croft, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis e ángela Ferreira, entre outros, “que também partilham questões do minimalismo e da relação com a arquitectura”. Logo à entrada da sala, vemos um desenho de Richard Long, pioneiro da land art, que com “muita pena” da directora não tem uma obra no parque industrial. “Não somos platónicos, somos realistas”, escreve José Teixeira õno editorial sobre a programação do museu, que conta com a colaboração de José Pacheco Pereira na área do pensamento para o primeiro ciclo de conferências, dedicado à Constituição. “A arte tem utilidade. O argumento de que a pintura de uma cama não serve para dormir é um argumento de pouco gramática e de aritmética sombria. [...] Construir caminhos de leveza e beleza é uma opção estratégica. Os artistas como os filósofos, como os poetas, os músicos, os coreógrafos ou os bailarinos inspiram o nosso trabalho. Guiam o nosso pensamento. Co-produzem a nossa imaginação.” o primeiro ciclo de conferências, de “Introdução à Política”, começa a 9 de Maio com o antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que falará sobre “As eleições de 1975 na Construção da Democracia Portuguesa”. Foi através de Alberto Péssimo, artista e cenógrafo da Companhia de Teatro de Braga, que José Teixeira começou a sua aproximação às artes visuais na década de 1980 e acabou por construir uma colecção hoje com 1500 obras e cerca de 250 artistas representados, conta a directora Helena Mendes Pereira. Foi ele que pintou o pai do actual presidente = Domingos da Silva Teixeira, fundador da empresa em 1945 e cujas iniciais dão nome ao grupo DST =5 uma das cinco pinturas que é possível encontrar no segundo piso do museu, dedicado ao tema “Corpo, Poesia e Protesto”, ao lado de obras de artistas tão diversos como Jason Martin e Nan Goldin, e onde se destacam as grandes telas de André Butzer e uma pequena sala obscurecida que guarda uma escultura de chão de Rui Chafes. Diz o empresário que Véu (2026), de Chafes, representa “uma chaga” numa colecção que tem entre as suas primeiras peças a Pietá de Alberto Péssimo, obra que passou para as mãos de José Teixeira em troca de um portão de garagem. “Já viu os papas ? E uma estreia!”. Interroga-nos a propósito do conjunto de 18 pinturas de Pedro Cabrita Reis, uma das aquisições recentes, que são outra das revelações do terceiro piso, antes de chegarmos ao Anselm Kiefer e a uma pequena sala dedicada ao artista brasileiro Miguel Rio Branco. Os “papas” foram o resultado de “um namoro progressivo”, diz a directora, depois de José Teixeira ter visto a vee obra no atelier. E aqui que está a “Alma da casa”, nas palavras de Helena Mendes Pereira, o tema que espelha as escolhas mais pessoais do coleccionador. Entre OS portugueses, além de Cabrita Reis, vemos Lourdes Castro, Miguel Palma, Fernanda Fragateiro, ángelo de Sousa, Alberto Carneiro, Paula Rego, álvaro Lapa e Helena Almeida. Entre os estrangeiros, além de Kiefer e Rio Branco, Alex Katz, nome cimeiro da figuração norte-americana. No lanço de escadas que õnos leva ao auditório, surge um Julian Opie, artista britânico e outras das paixões de José Teixeira, descoberta, tal como Kiefer, na galeria Mário Sequeira (hoje Duarte Sequeira), surgida nos anos 90 e situada õnos arredores de Braga (Parada de Tibães), uma das mais internacionais galerias do norte, actualmente também com um espaço em Seul. Na colecção, além dessa relação umbilical com o galerista Mário Sequeira e com os artistas que rodeavam a Companhia de Teatro de Braga, nota-se também a ligação aos Encontros da Imagem, o festival de fotografia de Braga, de que a DST também foi mecenas, principalmente no tempo em que ángela Berlinde (Porto, 1975) era a sua responsável, outra das artistas representadas no Muzeu, explica a directora. Helena Mendes Pereira ainda está a perceber o que é a colecção no seu conjunto. No primeiro ano do museu, conta lançar um catálogo com as obras de arte pública no campus, o verdadeiro lugar da colecção permanente, sublinha, porque essas obras não são móveis. “A exposição do museu é de longa duração e daqui a um ano muda-se.” E sempre difícil fazer uma primeira apresentação de uma colecção, dizemos nós. José Teixeira, que participou na selecção de obras com a directora, não acredita que a arte tenha de ser explicada. A colecção não está nos cânones. Há coisas não têm nada a ver com outras e isso não me importa nada. Porque se eu defendo o acesso à arte de uma forma generalizada, como um direito, digamos assim, também entendo que o belo está no olhar de quem vê e isso é muito kantiano. Eu não tenho de interpretar a obra, nem tenho de perceber se a obra tem um conteúdo. Eu só compro o que sinto. Eu escolhi OS Kiefer numa auantidade de Kiefer que estavam à minha frente.” A colecção foi construída organicamente pelo coleccionador, nota a directora, sem ajuda de um curador profissional que orientasse as aquisições e vai continuar a ser assim. “Primeiro, naturalmente, vieram muitos artistas que eram da região e daqui de Braga. Mas nós, na forma como montamos a exposição, não temos esse complexo. Até porque isso é também o elemento diferenciador da colecção.” Aqui está uma peça de Alberto Vieira, outra de Luís Coquenão, aponta a directora, de volta ao primeiro piso, ambos da região, nas imediações de uma escultura de Jeff Koons, que não é certo que resista ao escrutínio final. Na colecção, entre 240 artistas, há 68 estrangeiros e o resto são portugueses. Um edificio na cidade A saída do museu, que terá entrada gratuita às quintas-feiras, será feita pelo Campo da Vinha, com o visitante a ser devolvido à cidade por outra obra de Julian Opie, desta vez uma animação digital contínua. O Muzeu assume-se, explica o arquitecto, José Carvalho Araújo, como uma praça coberta que liga duas praças. A Braga mais nova conhecerá o arquitecto como o autor da renovação do gnration, que fica na outra ponta do Campo da Vinha, um dos principais pólos culturais de Braga, juntamente com o Theatro Circo. A Braga mais velha, e os arquitectos portugueses em geral, ficaram a conhecer o trabalho de Carvalho Araújo quando desenhou, logo em 1997, a Galeria Mário Sequeira. “Em todos os projectos que faço, há uma relação forte com o espaço urbano. Valorizo muito essa relação com os espacos exteriores, públicos, com a cidade, com o lugar”, explica o arquitecto, que já construiu dois museus Ono Brasil, o da Imagem e do Som e a Estação das Artes, ambos em Fortaleza. Carvalho Araújo, que é também autor do Arquivo Nacional do Som, em Mafra, tem uma impressionante obra construída nesse país, onde trabalha há mais de 18 anos com invulgar sucesso para um arquitecto português. Os dois museus brasileiros, tal como a galeria em Parada de Tibães, fazem da simplicidade da circulação uma das forças do projecto, com O Museu da Imagem a agarrar o espaço urbano transformando a fachada principal num ecrã de projecção e afirmando a praça no centro histórico de Fortaleza como a primeira sala do museu. No Muzeu, essa preocupação com a circulação, além de promover o atravessamento do quarteirão, está também presente na expressão que a escada aberta ganha, tornando-se o elemento central da organização do espaço e construindo, de certa forma, a imagem das galerias. “Não nos podemos perder no interior de um edifício. As pessoas têm que apreender logo a estrutura de uma forma rápida e objectiva.” Quando recebeu a encomenda de José Teixeira, o arquitecto diz não se ter preocupado particularmente com o perfil da colecção. “Acho que é impossível desenhar um museu para uma colecção, que é geralmente muito díspar. Tento criar espaços à disposição da função do museu, que é expor.” o mais complicado, como em todos os projectos, é perceber para quem está a desenhar o museu. “o mais importante, além da parte expositiva, é estar preparado para estas dinâmicas de que fala o Ze Teixeira, estas acções culturais de formação, de discussão, de pensamento, de reflexão. Ele só fala nisso. Acho que o museu tem tudo a ver com ele. A linguagem revela uma estética muito industrial, quer a nível dos processos construtivos, com a sua estrutura metálica e o chão em betão, quer a nível da disponibilidade de uso: é uma fábrica cultural.” Arquitecto e coleccionador começaram a discutir o projecto do Muzeu ainda durante o confinamento provocado pela pandemia de covid-19. “As preexistências que encontrei eram as duas fachadas e um troço de muralha medieval.” o interior era um vazio, porque já tinha sido demolido. Carvalho Araújo considera que o edifício tem de ser a primeira obra de arte: “Ser uma referência, que por si só mereça uma visita. Ao mesmo tempo que se afirma, está disponível para a apresentação das outras obras de arte, sem perder identidade.” O projecto resume-se a introduzir um volume novo entre as duas fachadas preexistentes, continua o arquitecto. “o volume é revestido com uma telha de barro plana. Tem esta materialidade para ser entendido como um volume único.” Visto de cima, há um pátio que separa as duas águas do telhado: uma corresponde ao auditório, a outra à sala Kiefer. «á noite, o plano envidraçado do auditório irradia e devolve luz à cidade. O museu recebe, mas também tem de dar.” Um dos espaços preferidos do arquitecto é outro pequeno pátio situado no piso térreo, que permite descobrir as entranhas da cidade antiga. A sua escala doméstica traz os estendais com roupa a secar para dentro do museu. Não é uma instalação site-specific, mas parece. e um dos momentos mais poéticos da arquitectura do Muzeu. Se a construção da colecção foi feita até aqui de uma forma orgânica, é assim que ela deverá continuar a ser feita. José Teixeira não está a pensar contratar um curador para o aconselhar de forma mais profissional, mesmo com tantos olhos postos agora no Muzeu, um trabalho, de alguma forma, já é preenchido informalmente pela directora e pela ligação da instituição à galeria ZET. “Tenho a certeza de que não vou coleccionar de outra maneira, porque não quero essa ordenzinha, esses dogmas.” A sua referência como dono do Muzeu são menos os coleccionadores contemporâneos e mais os mecenas do Renascimento, como OS Médicis. A encomenda para o Muzeu que o coleccionador fez a José Pedro Croft começou por ser uma grande escultura para instalar na Praça do Município, um lugar carregado de história. O artista disse-lhe que não lhe parecia boa ideia, porque a peça iria envelhecer mal, conta ao ipsilon, no dia em que esteve em Braga a supervisionar a instalação das suas obras nas salas. “Pedi-lhe a possibilidade de trabalhar directamente a fachada. Ele ficou encantado com essa ideia. A instalação é um pensamento sobre como é que se agarra numa arquitectura que tem uma memória, e que também é funcional, e a transformamos numa memória que é uma narração sobre a própria arquitectura.” José Teixeira passou a ver nestas portas de bronze uma referência à Catedral de Florença, as mais famosas das quais são as Portas do Paraíso, de Lorenzo Ghiberti, uma obra-prima do Renascimento. Nada que Croft tenha verbalizado na conversa com o ipsilon, mas a obra de arte é de quem a vê, como diria o coleccionador. Fazer ulmmiusgu de arte contemporãngag Gimm Braga nao G Pe desejar 0 impossivgl 4 Oempresário Jose Teixeira abriuo Muzeu com asua coleccão privada Manuel Roberto (Fotografia) O arquitecto José Carvalho Araújo e o coleccionador José Teixeira em frente à intervenção de José Pedro Croft na fachada do Muzeu A galeria do piso térreo, com obras da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, em primeiro plano, e Ana Vidigal. Na capa do ipsilon, José Teixeira frente a Sol invictus Heliogabal (2023), de Anselm Kiefer "o que quis fazer aqui com 0 Kiefer foi 0 que Bilbau fez com 0 Serra Ou a Tate com 0 Rothko” José Teixeira, coleccionador No foyer do auditório, uma obra de Fernão Cruz. Ao lado, a directora Helena Mendes Pereira em frenteauma obra de Sandra Baía, no piso-1 Nova série de Pedro Cabrita Reis, After Velásquez & Maybe Bacon..., e uma escultura em madeira de Alberto Carneiro Obras de Laura Torrado, Susy Gómez, Santiago Ydanez e Jason Martin, da esquerda para a direita. Ao centro, uma escultura de Volker Schnúttgen Em todos os projectos que faço, há uma relação forte com 0 espaço urbano” José carvalho Araújo, arquitecto Isabel Salema